Nelson Rodrigues: Literatura, Filosofia e Religião

A Nudez da Alma em Nelson Rodrigues

Por Ludmilla Lessa

A partir da análise da peça “Toda Nudez Será Castigada” (1965) e o livro de crônicas “A Cabra Vadia” (1969), faz-se um diálogo entre a obra rodrigueana e a clínica psicológica.

Logo de cara, o enredo começa com um suicídio, uma das muitas obsessões do autor. A narrativa, em flashback, é feita por Geni, que acabara de se matar, e deixava uma fita gravada para que o marido, Herculano, soubesse de toda trama articulada por seu próprio irmão, Patrício. Em suma: Herculano atravessava um luto profundo devido à perda da esposa. Com receio de que algo pior pudesse lhe acontecer, suas tias pedem para que Patrício faça algo para tirar o irmão deste quadro, e sugerem a vinda de um padre para ajudá-lo a retomar seu estado de ânimo. Porém, Patrício alega que o que poderia ajudar o irmão não era um padre, e sim, uma prostituta, já que seu problema era a falta de sexo. A intenção da família em salvar Herculano não era a das mais nobres, mas sim, em mantê-lo vivo, para que todos pudessem continuar sobrevivendo às suas custas.

Patrício insere Geni na família, e a tragédia é anunciada a partir daí. Serginho, filho único e casto de Herculano, tem uma crise de nervos ao saber do novo relacionamento do pai. O jovem, também preso ao luto materno, e tendo-a como figura ferozmente idealizada, fez com que seu pai lhe prometesse nunca mais se relacionar com qualquer outra mulher. Atordoado com a notícia, o rapaz afoga suas mágoas em um bar, se envolve em uma briga e acaba sendo preso. Na cadeia, é estuprado pelo ladrão boliviano. Tal desgraça gera uma verdadeira comoção familiar, pois todos responsabilizam a prostituta pelo ocorrido. Geni, consumida pela culpa, implora pelo perdão do rapaz.

Sob as bênçãos das tias, que passaram a considerar Geni membro da família, o casamento com Herculano é realizado.  Acatando o plano de vingança arquitetado pelo tio, Serginho envolve-se com a madrasta, trai o pai, e foge com o ladrão boliviano. Abandonada pelo jovem amante e não suportando tamanho sofrimento, Geni grava sua confissão a Herculano e se mata.

Patrício se define como “Eu sou o cínico da família. E os cínicos enxergam o óbvio” (p. 433). Ao enxergar o que os outros não conseguem ver, coloca-se fora da ação, mas a todos manipula, e sobrevê o final da tragédia: ao enxergar o óbvio, desconstrói a imagem da família moralista.

A peça possibilita muitos desdobramentos para as mais diversas discussões, porém a questão da nudez me despertou atenção a partir de uma passagem, quando, ao visitar Serginho no hospital, ele pede para que Geni se dispa:

“Geni (mostra os seios mas vira o rosto, com uma brusca vergonha) – Sabe que, de repente, está me dando vergonha, não sei, vergonha de você?”

Mas se Geni era uma prostituta, qual seria a razão de sua vergonha? Teria motivos para tê-la, já que era um hábito tão comum em sua profissão?

O contexto desta citação era que, na ânsia em conseguir o perdão de Serginho, Geni se sujeita a qualquer pedido que ele faça: ela oferece seu corpo, seus prazeres, até que o jovem pede para que fique nua. No momento em que ela faz isso, ele a interrompe, e indaga o porquê de tal ação, com o intuito de humilhá-la. Contudo, antes de desconsiderá-la, sua vergonha já aparece.

Este episódio viabiliza uma reflexão sobre a duplicidade da nudez que o autor se referia: a do corpo e a da alma, nos quais os afetos e nossa verdadeira personalidade são expostos cruamente. Em “Meu destino é pecar”, Nelson escreve, no ano de 1944: “Era uma sensação estranha e angustiante de nudez que experimentava, de que era vista nos seus sentimentos mais íntimos” (p. 158).

O autor também era um crítico ferrenho da exposição banal da nudez do corpo feminino, e apontava que a feminilidade estava para além de uma beleza apenas física, elegendo o pudor e o mistério como fatores constituintes da “Mulher interessante”. Na crônica com o mesmo título, ele ainda aponta:

Claro que, por trás do exibicionismo, havia o miserável tédio da carne e da alma, havia uma desgraçada impotência do sentimento. E ao mesmo tempo, que vil solidão em todo esse impudor proclamado!” (p. 191).

Um questionamento constante que fazemos em nosso grupo é se Nelson Rodrigues estaria vivo hoje, dentro da era regida pelo politicamente correto, pois seus textos, além de denunciar a hipocrisia presente em todos os seres humanos, nos toca nas vísceras. Dificilmente alguém sai imune à sua fala, seja para atacá-la ou refletir sobre.

A partir do conceito de nudez apresentado pelo autor, discutimos sobre como ela se apresenta na atualidade: além de corpos cada vez mais despidos, desprovidos de qualquer mistério ou causa, vemos a crescente exposição da vida íntima individual através das redes sociais. Este peculiar estilo de vida está embasado nos modismos coletivos vigentes que pregam a felicidade absoluta; gratidão; coaches quânticos (que promovem a chegada a uma espiritualidade plena sem sofrimento); além do amor incondicional aos animais, nossos irmãos.

Na clínica, nos deparamos com o lado B de tal histeria coletiva, pois em análise, ocorre o desnudamento dos indivíduos. Suas máscaras (pré – conceitos, conjunto de regras normativas) são conhecidas, confrontadas, algumas vezes retiradas, outras resignificadas, com o intuito de acessar a pessoa em si. Neste confessionário, somos testemunhas do desnudamento ao acompanharmos relatos de sofrimento, angústia e vulnerabilidade, que não têm espaço para exposição e vivência (muitas vezes, sequer permissão) na era da felicidade suprema.

Ao acompanhar o desfile destas narrativas, o analista confirma o que Nelson já denunciava há muitos anos em suas obras.

Foi a partir do recorte de casos clínicos de duas jovens que refleti sobre a nudez na atualidade. O ato de despir-se se dá em todo o processo analítico, mas o que me chamou atenção nas garotas, é que elas são um retrato de nossa realidade e de uma, das várias, denúncias de Nelson:

Antes ressalto que citarei apenas recortes de tratamentos que estão em curso há um ano, e que tais exemplos servem apenas de base para reflexões e questionamentos.

Uma moça de 19 anos estava extremamente angustiada, pois, em uma festa, viu o namorado conversando com uma menina muito bonita, e foi tomada por uma forte crise de ciúmes. Vieram à tona inseguranças, conflitos, medo de perdê-lo, etc. Mas o que aumentava ainda mais o seu sofrimento, é que se colocava em uma situação na qual deveria passar por tudo isso sozinha e calada. Justificava sua atitude dizendo que, caso conversasse e se abrisse com o rapaz sobre o ocorrido e como se sentia, estaria construindo uma relação abusiva, já que em um relacionamento saudável, não poderia existir ciúmes nem cobranças…

O outro caso, uma jovem de 23 anos, descreve seu primeiro relacionamento amoroso, aos 16 anos, também como abusivo, pois o rapaz, da mesma idade, apenas falava que não gostava de algumas roupas que usava. O “abuso” ocorria porque ele não tinha o direito de controlar seu estilo e sentir ciúmes de outros rapazes que a cobiçavam.

No primeiro exemplo conseguimos trabalhar, com êxito, a questão da comunicação e exposição de sua vulnerabilidade com o namorado, além de refletirmos sobre o que seria uma relação saudável. A ausência de ciúmes, inseguras, medos e vísceras, não seria um tipo de higienismo no relacionamento amoroso?

No segundo caso, perdi a paciente justamente por questionar o que seria um relacionamento abusivo aos 16 anos. Pontuei que se tratava da primeira experiência de dois jovens, como então, poderiam aprender a lidar, juntos, com toda essa gama de afetos despertados? O ciúme do jovem não poderia também ser encarado como um cuidado com a parceira?

Logo, assistimos à impotência na qual o paradoxo do arder em desejo e da impunidade desse mesmo arder impõe aos amantes atuais, que se julgam livres do sofrimento da nudez da alma e do corpo, com a certeza da impossibilidade em construir relacionamentos sem acessar a “desgraçada impotência do sentimento” (Nelson). Em tempos de egos “pseudo livres”, e por isso, frágeis, buscam-se a aceitação e o reconhecimento do outro através do modo exibicionista de um Narciso puro, ingênuo e distante da nudez castigada e do claustro do desejo: despem-se das roupas, do bom senso, do cuidado, da intimidade, trancafiando a alma em desejo, sabe-se lá onde.

Por fim, complemento esta reflexão com um poema de Vinicius de Moraes, outro profundo conhecedor da natureza humana:

Formosa, não faz assim
Carinho não é ruim
Mulher que nega
Não sabe não
Tem uma coisa de menos
No seu coração

A gente nasce, a gente cresce
A gente quer amar
Mulher que nega
Nega o que não é para negar
A gente pega, a gente entrega
A gente quer morrer
Ninguém tem nada de bom
Sem sofrer
Formosa mulher!


Ludmilla Lessa é psicóloga clínica, com abordagem Junguiana. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, e membro do grupo de pesquisa do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia, “Nelson Rodrigues: Literatura, Filosofia e Religião”.

Sobre o autor

Labô - PUC-SP

Laboratório de Política, Comportamento e Mídia – Labô, Fundação São Paulo.

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