Revista Laboratório 1

Roger Scruton: algumas lições sobre a beleza no mundo contemporâneo

Flávia Arielo [*]

Resumo: Roger Scruton é um dos filósofos do conservadorismo mais importantes da atualidade. O britânico tem profícua produção acadêmica, tendo por objeto a vida humana e sua relação com a beleza, o sagrado, as artes e a política. Este artigo pretende colocar em evidência o olhar conservador de Scruton sobre a beleza e a falta de beleza na contemporaneidade, principalmente no que se refere ao campo de produção artística e arquitetônica. Para o filósofo, a partir de preceitos das vanguardas modernas, houve uma predileção estética pelo kitsch em detrimento da beleza, e isso custou ao mundo atual uma deterioração da arte em si e da função primordial da arquitetura.
Palavras-chave: Roger Scruton. Beleza. Arte. Arquitetura. Conservadorismo.

Por quais caminhos deve o homem contemporâneo andar para deparar-se com coisas belas? Quão longa é a distância até que esteja na presença de obras ou estruturas que lhe possam arrebatar o espírito e confortar a alma desgastada pelo mundo atual? Onde habita a beleza deste século?

Sir Roger Vernon Scruton, filósofo britânico, é um devoto assumido das demandas sobre o belo e dedica-se a responder essas questões com exímia delicadeza. Professor das universidades de Boston (EUA) e St. Andrews (Escócia), e também Membro da Sociedade Real de Literatura da Grã-Bretanha, Scruton é concebido como um dos mais influentes pensadores do conservadorismo contemporâneo, desde o americano Michael Oakeshott (século XX). É partindo da concepção conservadora de mundo que Sir Roger fundamenta seus argumentos a favor da defesa e da manutenção da beleza nas produções artísticas atuais. Para o filósofo, a beleza é, antes de tudo, uma forma de garantir que a vida tenha sentido e se perpetue, e, neste ponto, o ideal de beleza e os princípios conservadores se entrelaçam.

O pensamento conservador não é de simples definição, como julga levianamente o senso comum. Há certa tendência em alocar o pensamento e o comportamento conservador no mesmo patamar que os reacionários, o que decorre de um erro primário e conceitual. De forma simplista e geral, o conservadorismo moderno tem como pedra fundamental o irlandês Edmund Burke (século XVIII), cuja defesa da vida remonta ao seguinte princípio conservador: a vida em sociedade é uma “(…) partnership not only between those who are living, but between those who are living, those who are dead, and those who are to be born” (BURKE, 2016, 25312)[1]. É possível afirmar que essa máxima burkeana será a base sólida na qual se sedimenta a filosofia de Roger Scruton, principalmente no que se refere à beleza na arte e na arquitetura. É também de Burke o conceito de “pequenos pelotões”, termo que utiliza para definir as relações de afeto e pertença social dos pequenos grupos humanos dentro das comunidades em que nascem e nas quais estabelecem laços públicos. Esse conceito é também bastante caro a Sir Roger.

Nutrindo-se dessa fonte do pensamento conservador, Roger Scruton se dedica a investigar temas inesgotáveis e atemporais: Quem é o homem? O que é a beleza? Qual o lugar do sagrado no mundo? Qual a relação entre o ser humano e seu meio? Em resumo, Scruton (utilizando-se da essência do métier filosófico) levanta questionamentos sobre as coisas que garantem sentido à vida do homem. E não o faz de forma exclusivamente retórica e conceitual, mas também de forma prática: o filósofo britânico coloca uma lupa sobre o comportamento do homem atual em relação à arte, música e arquitetura (Beleza, (2009) e Understanding Music (2009)), à religião, ao sagrado e a Deus (O Rosto de Deus (2015) e A Alma do Mundo (2014)), à política e ao comportamento social (O que é Conservadorismo (1980), Como ser um conservador, (2014) e Tolos, Fraudes e Militantes (2015)), à natureza humana e à vida em sociedade (As vantagens do pessimismo (2010), Filosofia Verde (2012) e Human Nature (2017)) e ao sexo e ao desejo (Coração devotado à Morte (2004) e Desejo Sexual (1986)).

Essa extrema dedicação aos temas que persegue ‑ o bem, a verdade, a beleza, a contemplação, o sagrado, a arquitetura, a música, a arte ‑, evidencia um certo tom socrático em seu discurso, revelando que a maior tarefa do conhecimento é a de servir à vida prática:

“Não sei como dizer nada sobre esse assunto. Volto sempre às perguntas e o único benefício de ter pensado sobre essas questões por tanto tempo é que há uma certa clareza em perguntar, mas sem tanta clareza em respondê-las. Isso não deve deprimir você, porque em uma verdadeira abordagem filosófica das coisas, no final é a clareza da pergunta que realmente importa. Porque permite que você encaixe em sua própria vida e tome as decisões que tem pra fazer” (SCRUTON, 2017) [2].

Refletindo sobre temas universais, Roger Scruton chama atenção abertamente para muitas questões do mundo contemporâneo. Este artigo se preocupará de apenas duas: a opção contemporânea dos movimentos artísticos pelo kitsch e a banalização da vida provocada pela arquitetura moderna.

A arte é, segundo Scruton, uma fonte de significação, um enquadramento de emoções. Manifestações artísticas em diferentes momentos históricos dão prova disso: as paredes desenhadas nas cavernas de Lascaux e Chauvet, hoje é de conhecimento geral, são possíveis representações de momentos sagrados dos povos paleolíticos. As inscrições tumulares e mortuárias egípcias eram ricamente adornadas por desenhos e representações com o intuito de conduzir as almas aos seus destinos. As esculturas gregas, por meio da kalokagathia, expressavam os conceitos mais caros àquela sociedade: o Bem e o Belo. Cézanne encontrou nas formas geométricas o sentido de pureza. Mas, afirma Scruton, em determinado momento entre o fim do século XIX e começo do XX, “a arte tomou para si a tocha de beleza, correu com ela por um tempo e acabou deixando-a cair nos mictórios de Paris” (2013, p. 107). O filósofo está a se referir claramente ao artista francês Marcel Duchamp e sua Fonte, o urinol assinado por ele em 1917. Para Scruton, o artista francês antecipou uma indústria intelectual que tinha por resposta “tudo” à pergunta “o que é arte?”. O ato iconoclasta de Duchamp é, para Scruton, o gesto primordial a lançar a beleza artística no limbo contemporâneo. A partir dos readymades de Marcel Duchamp, e também do americano Andy Warhol, foi estabelecido um relativismo cultural sobre a arte, onde originalidade, habilidade e conhecimento estético são jogados ao vento, cedendo lugar ao escárnio, à difamação, ao protesto e ao choque, onde a arte torna-se porta-voz da feiura na condição humana. Essa relativização artística extrema onde tudo é arte é, para Scruton, um fingimento coletivo no qual artistas fingem que produzem arte, críticos fingem que suas obras possuem valor artístico e as galerias fingem que esses objetos valem milhões. Roger Scruton chama a isso de metakitsch.

Para Sir Roger, a arte dá sentido à nossa existência pois “(…) nos revela, a partir de exemplos de ações e paixões isentas das contingências da vida cotidiana, que ser humano de fato vale a pena” (SCRUTON, 2013, p. 139). A esse sentido o filósofo dá o nome de “sentimento de adequação”. Para ele, é na beleza expressa através das artes que reside essa noção de que a vida faz sentido e vale a pena ser vivida. A beleza repousa na arte e dá ao homem os benefícios da contemplação e do consolo quando se depara com a dor e o sofrimento que são inerentes à condição humana. Sendo assim, a beleza, conforme aponta Scruton, é uma necessidade humana, e, ao perdê-la ou negá-la, é como se o homem cortasse fora um órgão vital. Sob esse aspecto, Scruton parece apontar para Duchamp e seus descendentes como artistas ocos de essência, talvez sem cérebro ou sem coração.

Continua o autor a suspeitar que essa intelligentsia artística gestada no início do século XX seria a responsável pela kitschficação das artes na atualidade. Mas o que é o kitsch para Scruton? Relata o filósofo que o termo kitsch nascera durante o século XIX, quando artistas começaram a rechaçar as pinturas figurativas e formais, preferindo em seu lugar o abstracionismo e as deformações. Qualquer obra contrária a esses termos estéticos seria tipificada como kitsch. O problema, pontua Scruton, é que, com o passar do tempo, o medo do artista em ser rotulado como kitsch produziu uma histeria kitsch: na ânsia de ser absolutamente original e criativo em tempo integral, artistas passaram a nomear qualquer coisa de arte: um urinol, uma lata de excrementos, uma luz que acende e apaga, uma pilha de tijolos, um bezerro em uma tina de formol, uma sala com paredes completamente cobertas por pontos e bolas vermelhas. “Logo, têm-se que clichê acaba em clichê, e a tentativa de ser genuíno acaba em fingimento” (SCRUTON, 2017, p. 26).  Em poucas palavras, o kitsch seria a fuga da beleza na arte, e como tal, a automática perda de sentido e de referência estética e contemplativa da arte. Scruton também o define como uma “enfermidade” de emoções falsificadas, nascida dos movimentos de massa do século XX e, em outras palavras, o kitsch seria a produção e reprodução de arte massificada. O filósofo ressalta que o kitsch destrói os valores seculares da beleza e da arte ‑ como o sagrado, a consolação, o senso de pertencimento, a identificação ‑ e “disneyfica” a vida através de uma deficiência de sentimentos (SCRUTON, 2013, p. 201).

Essa epidemia kitsch artística é claramente perceptível hoje em artistas como Damien Hirst e Gilbert and George na Grã-Bretanha, Jeff Koons nos EUA e, por que não também, Romero Britto no Brasil. Cada qual a seu modo dessacraliza a beleza, segundo Scruton, ao renegá-la em favor do choque ou do puro narcisismo. Tome-se como exemplo a obra A thousand years (1990), de Hirst: um gigantesco retângulo de vidro dividido em duas partes interligadas exibe, de um lado, um criadouro de moscas, e, do outro, uma lâmpada que as atrai e eletrocuta, fazendo-as cair mortas sobre uma cabeça de vaca ensanguentada e em decomposição. O conceito supera a beleza e a habilidade artística em dar forma à matéria, pois, em obras como essa, não há nada que o artista tenha criado e gestado, a não ser a ideia. Scruton percebe que o mundo contemporâneo deu as costas à beleza quando abraçou o conceito e a ofensa em seu lugar.

A arte tem que ser ofensiva, saindo do futuro munida contra o gosto burguês pelo conformismo e pelo cômodo, o que nada mais é que um sinônimo para kitsch e clichê. Mas o resultado é que a ofensa se torna um clichê. Se o público se torna imune ao choque ao ponto de que só um tubarão morto lhe desperta um breve espasmo de indignação, então de fato o artista não tem outra saída a não ser reproduzi-lo ‑ isso ao menos é um gesto autêntico (SCRUTON, 2017, p. 25)

Sir Roger defende que o sentimento diante de uma obra kitsch é na verdade a expressão de puro sentimentalismo narcisista, onde interessa mais a autoexposição e autopromoção do artista, assim como a demonstração do sentimento do espectador sobre a obra, do que a obra em si ou os valores morais que essa obra demonstra. Em tempos de mídias sociais como epítetos da verdade, vale mais a selfie diante da obra postada no Instagram do que a obra de arte em si. A kitschficação da arte ‑ e consequentemente da vida ‑ promove a degeneração da beleza, pois o kitsch é um jeito moral e formalmente barato de produção artística, enquanto a escolha pela beleza na arte demanda trabalho árduo e dedicação. O kitsch impede que o homem tenha a experiência do prazer estético ao contemplar uma obra de arte, e isso é insubstituível. Como aponta o filósofo, não há uma injeção de serotonina que substitua o prazer experimentado diante de uma obra prima de Michelangelo, Bach ou Shakespeare.

“Toda arte é inútil”, proferiu Oscar Wilde em sua célebre obra O Retrato de Dorian Gray. Ao defender a frase de Wilde, Scruton aponta para aquilo que julga ser um dos maiores pecados contemporâneos da arquitetura: o desprezo pela beleza e pelos detalhes em prol da funcionalidade. Em seu documentário Por que a beleza importa (2009), Sir Roger afirma que, ao prezar exclusivamente pela função ‑ como desejou grande parte dos adeptos da escola alemã Bauhaus ‑, uma construção torna-se apenas uma máquina de morar, mas se, ao contrário, o arquiteto tiver na beleza sua pedra fundamental, ele abarcará harmonia, conforto, leveza e, por fim, terá uma construção útil e insubstituível.

Ao observar grande parte da arquitetura contemporânea, Scruton relata perceber uma massificação estética: caixas quadradas ou grandes retângulos de vidro e aço, sem fachadas ou adornos que os diferencie entre si. Para o filósofo, as construções das cidades foram, a partir do que nos legaram os gregos, rostos a nos encarar e a demonstrar quesitos caros à humanidade: proporção, harmonia, beleza, detalhes que trazem sentido estético ao conjunto. A arquitetura era então um reflexo do homem no mundo, uma demonstração de como nos colocamos diante dele. E assim, como a arte, a arquitetura reflete um sentimento de pertencimento e de adequação: construímos, como homens, coisas ao nosso redor para chamar a isso de lar.

Neste ponto, talvez já esteja clara a posição da filosofia de Roger Scruton na atualidade: esta pauta-se na contemplação e na conservação da vida e de tudo aquilo que a mantém. Nesse sentido, as construções e as arquiteturas que sempre refletiram o ethos humano não são diferentes na era contemporânea; por isso, Scruton lança um olhar de preocupação sobre as escolhas estéticas atuais, visto que, hoje, vivemos e construímos como se estivéssemos só de passagem, sem um vislumbre de futuro para aqueles que ainda virão. Como ressalta a abertura do filme Medianeiras (2011), os edifícios servem hoje para nos diferenciar uns dos outros como seres humanos, mas nunca para agregar. A ideia contida na narrativa inicial deste filme torna simples e evidente o que a filosofia de Scruton diz sobre o papel da arquitetura na construção moral do ser humano:

É certeza que as separações e os divórcios, a violência familiar e o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação e a falta de desejo, a apatia, a depressão e os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são culpa dos arquitetos e das corporações de construção (MEDIANEIRAS)[3].

No final de 2018, Roger Scruton foi convidado a encabeçar uma comissão do governo britânico, intitulada Building better, building beautiful, cuja proposta é avaliar a beleza arquitetônica das construções públicas, principalmente de casas populares, e, com isso, melhorar o espaço físico e a adequação dos moradores ao meio em que vivem. O filósofo aceitou o convite, mas não sem antes passar pelo processo inquisitório da mídia nacional, que o acusava de promover uma guerra contra os estilos arquitetônicos das últimas décadas do século XX. Scruton rebate essa argumentação ao responder que o ato de construir se refere mais à questão de pertencimento e de identidade do que de estilo em si. O projeto de embelezamento das moradias de seu país é para o filósofo uma das formas mais reais e práticas de reafirmar que o ideal de conservação da vida – para os que aqui estão e para aqueles que ainda virão – passa antes pela questão estética. Eis uma oportunidade única para que a beleza seja levada a sério.

 A proposta de Scruton sobre a arquitetura paira, sem dúvida, sobre uma concepção conservadora de vida. Como apontado no início deste artigo, o filósofo é atualmente um dos mais representativos pensadores do conservadorismo e se clarifica através não apenas de suas teses e princípios, mas principalmente por meio da defesa prática de uma vida que seja plena de sentido, de pertencimento e de beleza. Ao fugir da beleza, o universo artístico contemporâneo foge de si próprio; ao prezar pelo kitsch e pela descaracterização das estruturas, artistas e arquitetos do século XXI tornam públicas suas escolhas e estimas. E como defende João Pereira Coutinho, todos somos conservadores em relação ao que estimamos (2014, p. 21). A lição que Roger Scruton deixa ao mundo contemporâneo é que estime por coisas belas, pois essas jamais darão as costas aos que aqui habitam e aos que ainda habitarão.

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Autora

[*] Flávia Arielo é Historiadora. Professora do curso de História do Centro Universitário Sagrado Coração. Doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP. Pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Nelson Rodrigues do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

Link do Lattes https://wwws.cnpq.br/cvlattesweb/PKG_MENU.menu?f_cod=8E6B213B15F470A30C1DE041ACE49CDE#

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Notas

[1] “Parceria não apenas entre os que estão vivos, mas entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer” (tradução da autora). A numeração final corresponde à posição da citação no e-book kindle.

[2] Trecho extraído da palestra proferida por Roger Scruton em 6 de abril de 2017, no Wheatley Institution, na Brigham Young University (BYU), disponível em https://www.youtube.com/watch?v=yhJXDJdtNsQ&t=1411s .

[3] Trecho extraído do filme entre 3’35 – 4’01.

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Referências bibliográficas

BURKE, Edmund. Complete Works. Hastings: Delphi Classics, 2016.

COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três estrelas, 2014.

SCRUTON, Roger. Beleza. São Paulo: É Realizações, 2013.

_______________   Confissões de um herético. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2017.

Referências filmográficas

SCRUTON. Why Beauty matters [Documentário]. Direção de Roger Scruton. Inglaterra, 2009, 59 min., colo. Son.

TARETTO. Medianeiras. Direção de Gustavo Taretto. Argentina, Espanha, Alemanha, 2011, 1h35 min., colo. Son.

Sobre o autor

Labô - PUC-SP

Laboratório de Política, Comportamento e Mídia – Labô, Fundação São Paulo.

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