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Quando a política se torna um assunto popular

De modo curioso, Platão não continua detalhando diretamente os defeitos desse sistema (a democracia), como o fez nos outros casos. Talvez o achasse óbvio, pelo simples fato de que o igualitarismo coloca quem não sabe nada como líder, com tanta prontidão quanto quem conhece o seu mister. Em vez disso, ele logo faz o paralelo com os agentes individuais, pintando um maravilhoso quadro da mente desordenada, relaxada, desinibidamente hedonista, na qual se dá rédea solta a todas as fantasias passageiras: “Então é assim que ele vive” disse eu. “Entrega-se a todo desejo fugaz trazido por cada dia que passa. Um dia ele se embriaga numa festa, no outro estará bebendo água e tentando emagrecer; depois, então, às vezes pratica exercícios, outras vezes leva as coisas folgadamente, sem qualquer preocupação com o mundo, e às vezes parece comportar-se como um estudante de filosofia. Frequentemente envolve-se nos negócios da comunidade… Seu estilo de vida não tem rima ou razão, mas ele o acha agradável, livre e invejável, e nunca passa sem ele (VIII, 561c-d). Simon Blackburn. A República de Platão (uma biografia) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008, p. 144.

Há uma longa tradição que demarca uma fronteira entre a política e um público mais amplo. Platão sendo o filósofo que puxa a fila no sentido de apontar que o domínio da política depende do acesso ao plano inteligível que é respaldado pelas ideias e conceitos. A concepção do pensador nesse campo é encontrada em sua República, diálogo que, como se sabe, desenhou um fosso que separaria o comum dos mortais, identificados ali como os artesãos, e o filósofo. Entre eles os guardiões que minimante teriam que encaminhar o reconhecimento das virtudes.

Mal negociado como um filósofo que antecipou a concepção da meritocracia – o que já é falacioso, uma vez que essa concepção surgida no final do século XX faz parte do marketing do capitalismo, e por isso buscou uma falsa afinidade com Platão – o pensador abriu espaço para o câmbio de uma categoria para outra. Esse sendo um aspecto a ser levado em consideração e que afasta a perspectiva de tomar a obra de Platão como a fonte do que se veria depois nos totalitarismos do século XX.

A possibilidade de aproximação do mundo das ideias parece pressupor habilidades inatas ou que requeiram aprendizado para que sejam reveladas, haja vista que esse processo é reservado aos guardiões. De todo modo, as fronteiras são bem definidas e separam quem tem ou não acesso e apreensão dos conceitos.

É importante reconhecer que, para Platão, cada uma dessas classes teria um campo específico de atuação – com os filósofos no ponto mais alto, uma vez que relativo ao governo de toda a sociedade. E eles seriam reconhecidos enquanto tal, como aqueles que, de fato, estão no lugar que deveriam estar. Fora desse âmbito, somente a opinião, a impressão causada pela observação, portanto fonte do engano e do erro.

É sabido também que, dentre os sistemas de governo, Platão considerava a democracia como o penúltimo pior, seguido então pela tirania. Sua explicação é bastante clara: a democracia é variegada, agitada e pueril. No entanto, desfoca as distinções entre quem sabe e quem não sabe, esse um ponto que provoca ruídos no mundo contemporâneo ocidental, que vende a ideia de que todos são iguais em saberes e competências. Não para Platão.

A maioria de nós concordaria com o filósofo quando no encontro com necessidades vitais. Temos, por exemplo, uma posição muito clara em relação aos médicos que julgamos capazes ou não. O mesmo se aplica aos profissionais das mais diferentes áreas: dentistas, advogados, engenheiros, professores, etc. Qual seria então o impedimento de julgar que a maioria nada entende de política?

Platão concordaria com a ideia de que essa maioria poderia interessar-se por política, e até mesmo julgar compreendê-la, especialmente se ela se manifestasse de um modo que aparentasse estar de fato no entendimento do que está se passando. É essa a sensação que eu aproximo aos dias de hoje. Há uma tradução do fazer político para poder alcançar um grande público, ainda que persista um número expressivo de abstenções.

E aqui eu chego ao ponto principal da minha reflexão. O que se faz hoje para que a política seja acolhida por um público mais amplo? Investe-se na agressividade, em especial quando amparada pelo ressentimento. E a sondagem desse traço se dá pelo monitoramento de redes sociais como meio de se reconhecer o que provoca desejo, frustração e raiva. Assim, as tensões familiares com a identidade de gênero fornecem suporte para a elaboração de uma narrativa que se oponha ao liberalismo nos costumes. A preocupação com a violência urbana se transforma em munição para o investimento na liberação da venda de armas. A indignação com a corrupção no alto escalão do governo oferece capital de mobilização de pessoas que julgam ser possível traçar um código draconiano para pacificar a política. Todas soluções simples o bastante para serem levadas em consideração, porque não foram realizadas antes. Fora alguns casos rumorosos de governos de fato incompetentes, a maioria deles se parece. Difícil então acreditar que ainda seja possível crer num salvador da pátria. Mas isso ocorre todo o tempo. Poderíamos supor que a ideologia tivesse algo a ver com essa mobilização, mas não. Ela é um mero símbolo, que pode ser a bandeira do Brasil ou uma camisa vermelha. Quase que somente identificações de times de futebol. 

Alguns teóricos também se perguntam sobre os motivos da aderência às fake news. É certo que a qualidade das fake news cai, principalmente se comparamos com situações vividas na Guerra Fria ou outro momento de temor coletivo. Mas essa decadência tem a ver com o gosto do freguês, o público que atualmente pode vir a comprar a ideia de que a terra é plana. Creio, contudo, que não seja esse o objetivo das fake news, a saber, fazer crer no terraplanismo, no “vírus chinês” ou em toda sorte de dados conspiratórios. A aderência em relação a essas informações pode ser mais bem explicada pelo ódio antecipado e plantado sobre o ressentimento. As fake news valem como moedas, mas não pela efígie e valor nelas forjadas. Elas atingem os seus alvos na medida em que quem as compartilha o faz para estressar o seu oponente.

As democracias maduras se ajustaram muito bem às fake news, e quem participa e vota dá legitimidade a elas.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.