Filosofia política

Quando o ceticismo incomoda

E então você se acha em algum local com algumas pessoas do bem e alguém diz que ficou sabendo que em alguns bairros da periferia de São Paulo, os preços de produtos e serviços são mais caros que  nas áreas mais centrais, mais exatamente no apartamento em que você se encontra com estas pessoas, num pós jantar bebendo a terceira garrafa de um merlot chileno. O veredito final em relação ao tema é que se trata de um preconceito e que o capitalismo é excludente, etc e tal, um verdadeiro absurdo.

Temas como estes ou parecidos, tais como a existência de discriminação entre brancos e negros no mercado de trabalho ou nas escolas e universidades ou da necessidade de intervenções pontuais do Estado no mercado quando se entende que há alguma espécie de injustiça ou disparidade, são abordados na última e recém lançada obra do economista e think tank norte-americano, Thomas Sowell, Discriminação e Disparidades (Rio de Janeiro: Editora Record, 2019.).

Economista de formação e um pouco mais conhecido em nosso país a partir da tradução de alguns seus livros, Sowell se destaca pela persistência cética em que se detêm em temas e assuntos para os quais aparentemente muitos de nós já temos uma opinião formada e estabelecida de modo irreversível. Citá-lo, por exemplo, no encontro apontado acima irá lhe custar um novo convite, o que talvez não venha mais a ocorrer. E quanto a isso, é bom que se diga, Sowell não é exatamente um autor fácil de se ler. Ele trabalha com uma base incomum de dados e informações, bem como com um bom número de referências entre artigos e livros dos mais variados autores em campos de pesquisa diferentes. Mencioná-lo lhe exigirá alguma técnica e atenção e como todo ceticismo de boa cepa, alguns poucos serão seduzidos por seu raciocínio: o ceticismo incomoda e desagrega, especialmente para aqueles que não topam as vertigens do pensamento.

Esposando uma epistemologia empirista, Sowell opta por buscar números e situações que normalmente não constam do debate público da grande mídia. A percepção que temos ao ler sua obra, é de que os temas mencionados acima, dentre outros, abastecem políticas públicas ou lobbies que passam por partidos ou demais grupos organizados de ação política. E em se tratando deste estado de coisas, os fatos são abandonados e trocados pelas causas e boas intenções. Sendo assim, a palavra “discriminação” termina por ser definida com grande especificidade. De acordo com Sowell, temos um tipo de discriminação (a I) que se caracteriza por ser “a habilidade de discernir diferenças de qualidades em pessoas e coisas e escolher de acordo”. E a discriminação II, “tratar pessoas de maneira negativa, com base em suposições arbitrárias ou aversão a indivíduos de uma raça ou sexo em particular.” Este último sentido sendo o que veio a mobilizar a elaboração de leis e políticas antidiscriminatórias.

É a partir daí então que o livro e a leitura embalam o leitor que poderá ser surpreendido com situações que muito dificilmente teria levado em consideração. Por exemplo, de acordo com o autor um estudo veio a demonstrar que a “despeito da relutância de muitos empregadores de contratarem jovens negros porque uma proporção significativa deles possui antecedentes criminais, aqueles que verificaram naturalmente os antecedentes de todos os candidatos tenderam a contratar mais jovens negros que outros empregadores.” O autor então nos lembra que muitos observadores quiseram proibir que os empregadores perguntassem aos candidatos sobre seus antecedentes e que uma Comissão Americana de Oportunidades Iguais de Emprego processou os mesmos empregadores que tivessem a conduta da consulta dos antecedentes criminais. Na prática, no entanto, tais medidas vieram a diminuir as chances de emprego para os jovens negros.

Ficamos sabendo também que em 1954, quando a suprema corte dos Estados Unidos veio a proibir a discriminação racial nas escolas, um importante Colégio em Washington, Dunbar, que era somente aberto para os negros veio a entrar em decadência. Antes disso, muitos de seus alunos tinham se tornado juízes, generais e médicos. Dunbar veio a se destacar também na colocação de seus alunos nas mais prestigiadas universidades norte-americanas, na Ivy League.

Estas situações exploradas por Thomas Sowell nos sinalizam uma tensão já clássica entre o pensamento racional e outro, de base mais aproximada da observação cotidiana. Os leitores das outras obras de Sowell (Intelectuais e Sociedade, São Paulo: É Realizações, 2011 e Conflito de Visões: Origens Ideológicas das Lutas Políticas, São Paulo: É Realizações, 2011) irão perceber e retomar os seus conceitos de intelectual ungido e de intelectual com visão trágica, o primeiro, adepto de uma visão irrestrita, sendo um tipo que produz abstrações que respondem a uma miríade de senões e salamaleques que cada vez mais se distanciam da realidade. O segundo intelectual, que tem com norte uma visão restrita, como aquele que compreende a civilização como “uma fina camada que recobre um vulcão”, ou seja, o que leva em consideração a prudência e que valoriza o que parece funcionar ao invés de logo optar por mudanças e transformações bruscas.

Do ponto de vista da aproximação da teoria do conhecimento das concepções políticas, ao menos desde o iluminismo francês e da revolução que veio a ocorrer neste país em 1789, as falas e juízos consideradas mais fofos são exatamente aqueles que são abstratos, portam utopias e sonhos e funcionam bem nos jantares inteligentes que são objeto do filósofo Luiz Felipe Pondé. Em contrapartida, o suporte de uma epistemologia de base empírica irá provocar certa ira, uma vez que nesta concepção, o ótimo é inimigo do bom e se costuma levar em consideração os pesos e contrapesos de um mundo e de uma sociedade que não é vista somente a partir da concepção negativa de que no Excell dos direitos, estejamos sempre no saldo negativo. Por tudo isto e muito ainda que não foi dito aqui, pense bem nas vantagens e desvantagens de se ler este grande pensador que é Thomas Sowell.

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.