Sala Michael Oakeshott

Rationalism in Politics [2]

Segundo encontro de 2020 do Núcleo de Filosofia Política
Rationalism in Politics – Michael Oakeshott

No primeiro capítulo de Rationalism in Politics, Michael Oakeshott aponta para o Racionalismo moderno no contexto da Europa pós-renascentista, enfatizando a diferença entre uma política racionalista, que coloca a razão como soberana em detrimento da experiência, e uma política baseada na tradição e na experiência acumulada ao longo da história.

Na parte dois do capítulo, partindo do pressuposto de que toda ciência, arte e atividade humanas envolvem conhecimento, o autor se aprofunda em uma diferenciação conceitual entre o conhecimento técnico e o conhecimento prático.

Entende-se conhecimento técnico como aquele que pode ser traduzido em regras, fórmulas, equações, e ser organizado de forma estruturada. A possibilidade de ser formulado talvez dê a aparência de certeza. É um tipo de conhecimento que pode ser aprendido e ensinado a partir de um livro, pode ser decorado e aplicado mecanicamente.

Já o conhecimento prático se refere àquele que só existe, de fato, na prática, advindo da tradição e da experiência. Não é reflexivo, portanto, não pode ser colocado em fórmulas, o que não significa tratar-se de algo anormal, embora muitas vezes possa aparentar ser impreciso ou incerto. Apesar disso, é um tipo de conhecimento envolvido no domínio de toda habilidade, que não pode ser ensinado e aprendido, apenas transmitido e adquirido, através do contato contínuo com alguém que está constantemente praticando.

Para Oakeshott, esses dois tipos de conhecimento, além de complementares, são interdependentes e inseparáveis. Talvez, o exemplo mais compreensível dessa distinção e da interdependência de ambos os conhecimentos seja o exemplo do cozinheiro. Se uma pessoa, que nunca cozinhou, seguir à risca as etapas descritas em um livro de receitas, o resultado poderá ser bom, mas isso não a torna uma chefe de cozinha. Nenhum cozinheiro confia somente em um livro de receitas. A prática constante e a experiência adquirida com o passar do tempo vão melhorando a habilidade do sujeito, e o ato de cozinhar vai além do que está escrito nas etapas de um livro.

Se, na atividade de cozinhar, os dois tipos de conhecimento apontados não podem ser separados, na atividade política não seria diferente. Oakeshott entende que o Racionalismo desconsidera o conhecimento prático como conhecimento, partindo da premissa de que não há conhecimento que não seja o técnico.

Isso acontece porque o racionalista entende como certeza o conhecimento que aparenta ser autocompleto, não exigindo um olhar para além de si próprio. Ao considerar o conhecimento técnico como autossuficiente, o racionalista o torna inseparável da certeza, mesmo desconectando-o da prática, e por isso, para ele, a soberania da razão significa a soberania da técnica.

Entretanto, o equívoco do racionalista é não considerar que, como em qualquer outro tipo de conhecimento, aprender uma técnica não consiste em livrar-se totalmente da ignorância; mas em reforma de um conhecimento já existente. Oakeshott dá o seguinte exemplo: um sujeito que sabe as regras de um jogo aprenderá rapidamente as regras de outro jogo, porque assim como o homem nunca é literalmente feito por si mesmo – mas depende de um certo tipo de sociedade e contexto – o conhecimento técnico não é autocompleto, já que não parte da pura ignorância, e sim de um conhecimento que já estava presente.

Portanto, nenhum conhecimento é, de fato, autocompleto e autossuficiente. Apesar do racionalista colocar o conhecimento técnico como único, ele está inserido em um conhecimento muito mais amplo, que é o conjunto de todas as experiências acumuladas ao longo da história. A realidade concreta é imprecisa e, portanto, a proposta racionalista de seguir um receituário estritamente técnico acaba se tornando um tipo de perversão da razão, descompromissada com a realidade objetiva. A partir disso, entende-se que o autor não está desconsiderando a técnica ou promovendo um ataque à razão em si mesma, mas está afirmando que não existe técnica desconectada da prática, trazendo ambas para um patamar de importância na atividade humana, especialmente quando se trata de política.

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Sobre o autor

Lorraine Bim

Graduanda em Psicologia na Universidade de Taubaté. Pesquisadora do Núcleo de Filosofia Política e do Grupo de Pesquisa A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ

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