Revista Laboratório 1

Shabat e a experiência da morte

Como um contador de histórias, o neurologista Oliver Sacks sempre foi admirado por mim, uma psicanalista que muito cedo aprendeu com ele sobre distúrbios e comportamentos, através de seus contos extraordinários sobre a alma humana. Escrever era para ele uma forma de apresentar uma patologia ou descrever uma situação de experiência que pretendia analisar ou compreender. Para mim, uma estudante de psicologia, era uma forma mais interessante de conhecer o mundo da neurologia e patologia, através do relato de caso, algo que até hoje ainda me atrai, pois é através da história que conseguimos dar um sentido à realidade. Mas, principalmente hoje, me interessam as histórias, como as judaicas, cheias de humor e ironia, que nos ajudam a desconstruir as velhas formas de pensar e nos apresentam a condição humana em sua ampla possibilidade de existir, em seu embate constante de busca de compreensão de si mesmo.

Mas a vida continua, a neurociência avança nas pesquisas e eu mergulho na psicologia profunda assim como tento navegar pela filosofia da religião, especificamente, no judaísmo contemporâneo. Aparentemente distantes, tais universos do conhecimento, na prática, se tocam de modo até promíscuo, sem pudores, tornando o pesquisador um filósofo inquieto, o psicólogo clínico faminto, principalmente aquele que como eu possui como objeto de estudos temas relacionados com a morte, e na prática experiências relacionadas com a dor da perda. Entre a filosofia, a psicologia e a religião, reencontro o judeu (origem essa que na juventude não notei) Oliver Sacks e a leitura de seu último ensaio, escrito um pouco antes de sua morte, (14/08/2015) “Sabbath”, que, junto com outros ensaios, formam um lançamento especial intitulado Gratidão. De imediato, outra lembrança me veio, a de um outro pequeno livro, de mesmo nome, do filósofo judeu A. J. Heschel. Um livro com o qual nunca trabalhei, embora, e talvez justamente por isso, seja simplesmente maravilhoso. Dois textos belíssimos e duas importantes contribuições para nos servir de base para refletir sobre a existência diante da morte, sobre o clímax do que é viver na atmosfera do Shabat.

Quatro textos formam o pequeno livro Gratidão: quatro ensaios que originalmente foram publicados no The New York Times por Oliver Sacks. No primeiro ensaio, Mercúrio (jul/2013), trabalha o envelhecimento, seus prazeres e fragilidades. No segundo, “My Own Life”, extraordinário texto escrito em paralelo à leitura da biografia de David Hume (também escrita diante da constatação de uma doença mortal), ele expressa sua gratidão por uma vida bem vivida diante da notícia de sua metástase. Em seguida, depois de um período relativamente bem de saúde, Sacks publica “Minha tabela periódica” (jul/2015), texto divertido que faz um paralelo entre os elementos da tabela periódica e os anos de vida. E, por fim, com declínio de sua saúde, escreve um texto muito importante e cuja revisão foi bastante cuidada por ele: Shabat. As discussões e comentários a esse texto são muitos, diante da perplexidade de todos com tamanha honestidade e franqueza com o próprio processo de morrer. Não tardariam as interpretações e análises, talvez para que se consiga absorver um pouco da coragem de um homem que aceitou viver sua própria existência.

Mas o que é a existência? O que é a vida e o que é a morte? As famosas questões existenciais não nos abandonam porque sabemos mais sobre as coisas, sobre o mundo que nos rodeia, ou porque conquistamos maior autonomia e somos reconhecidos por aquele que nos dedicamos a conhecer. O conhecimento apenas nos ajuda a criar uma ilusão mais sofisticada para o nosso cotidiano. Heschel, o outro pensador que chamamos para esse confronto, sustenta que é na tensão entre o pensamento bíblico e o grego que se encontra sua filosofia da religião, e elevará o pensamento bíblico como categoria crítica sobre os valores do homem moderno. Sua filosofia da religião sustenta a interação entre a filosofia e a tradição sapiencial, para a compreensão total da situação do ser humano, pois para ele a religião não poderia ser compreendida fora da vida real.

Manifesta-se em momentos em que nossa alma é invadida por uma angústia insaciável a respeito do sentido de todos os sentidos, sobre o nosso compromisso supremo, que é parte de nossa própria existência, em momentos em que todas as conclusões anteriores, todas as trivialidades que sufocam a vida ficam suspensas; em que a alma está faminta por uma ideia da realidade eterna: em momentos em que se descobre o indestrutível inesperado dentro do constante perecível. (HESCHEL, 1974, p.62-3)

Nos apoiamos no pensador religioso não para justificar o texto de Sacks, apenas para lê-lo de forma crítica e, por isso e a partir disso, com a beleza e a profundidade que ele inspira. Os momentos que marcam o ensaio de Sacks nos revelam alguém ainda “em movimento”, para compreender sua existência e a daqueles que o cercam; uma alma faminta que pensa a velhice como um “período de liberdade e tempo descomprometido, sem as infundadas urgências de outrora, livre para explorar o que eu quiser e para amarrar os pensamentos e sentimentos de toda uma vida”. (SACKS, 2015b, p. 21)

O pensamento que marca a filosofia hescheliana nos apresenta que estar diante de Deus é estar sem tranquilidade e sem autonomia, é estar em uma desconfortável tensão que caracteriza a experiência religiosa. E esse “desconforto” dá-se em virtude de o sujeito ser confrontado com questões existenciais. Ateu confesso, são justamente questões sobre a vida e morte, que tornam o texto de Sacks tão especial, em um tempo que priorizamos o domínio da técnica e não sabemos como lidar com o que nos afeta.

E é o afeto que provoca as lembranças em Oliver Sacks, que ele conta como um relato nostálgico de um tempo que lhe foi “sagrado”. Ousado usar tal palavra, mas, como se trata de algo especial, dado que ele reserva essa primeira parte como um preâmbulo de uma história de como eram felizes os judeus apesar de sua história, rituais e comidas esquisitas, acredito que, dentro da especificidade de ser judeu, santificar o tempo significa dar caráter eterno ao momento, torná-lo um evento. O ensaio de Sacks, intitulado Shabat, será literalmente dividido em quatro momentos. O primeiro, que nostalgicamente nos remete à sua infância e à felicidade da comunidade judaica, e um segundo, que, como toda felicidade, acaba e carrega o peso da perda, pois é o relato da interrupção abrupta pelo impacto da segunda guerra que dizimou muitos judeus e aniquilou muitas comunidades, como a sua, que experimentou a distância das práticas judaicas pela assimilação, pelas mudanças das famílias, pelos rituais esvaziados, pelo distanciamento que começou a experimentar de sua fé e pela descoberta de sua homossexualidade.

Sacks é um exemplo de seu tempo, cujas experiências, conhecimentos e percepção de que a religião pode ter uma capacidade, odiada por ele, para a “intolerância e crueldade”, são uma característica desse segundo momento. Tudo isso desdobra-se em uma crise com a própria tradição e, passada uma fase de vivência de dependência de anfetaminas, o levou ao trabalho e, principalmente, à sua prática como escritor, como uma saída de sentido que o sustentaria por muitos anos.

No terceiro momento do ensaio, ele nos apresenta um primo religioso que não só insiste que ele tenha uma mezuzá em sua porta, pois entende que, mesmo que ele não acredite, seria importante tê-la – algo com que Sacks entende que não deve discutir, apenas aceitar – mas que também relata que a prática do Shabat tem uma importância tão profunda, é uma experiência tão bela, que nem mesmo o Nobel conquistado por ele teria sido suficiente para retirá-lo de tal vivência, e confidencia a Sacks, após relatar com muita emoção o prêmio recebido, que “se tivesse sido obrigado a viajar num sábado, precisaria recusar o prêmio” (SACKS, 2015b, p.54). Algo incompreensível para um neurocientista como Sacks e, talvez, para todos nós também.

O quarto e último momento nos traz o mesmo primo de volta, mas agora como aquele que abre sua casa e seus braços para receber Sacks junto com seu parceiro, por ocasião do centésimo aniversário de uma tia, com toda a família, e com quem ele faz a primeira refeição do Shabat, o que leva Sacks a pensar:

A paz do Shabat, de um mundo parado, um tempo fora do tempo, era palpável, infundia-se em tudo, eu me vi encharcado de melancolia, uma coisa parecida com nostalgia, a me perguntar e se: A, B e C tivessem sido diferentes? Que tipo de pessoa eu poderia ter sido? Que tipo de vida poderia ter levado? (SACKS, 2015b, p. 56)

Novamente, Sacks nos descreve como se dá o processo e relata que concluiu suas memórias comemorando o fato de ter sido franco em relação a sua sexualidade, para a seguir se propor a mesma franqueza em relação ao seu câncer e o enfrentamento da morte. Descreve, então, o processo dessa franqueza, citando os ensaios que realizou e deram origem a esse pequeno livro. Mas, quase como um salto, Sacks cita, finalizando o texto, o sentido que agora o Shabat tem para ele, na experiência da própria vida:

E agora, sem fôlego, os músculos antes firmes derretidos pelo câncer, encontro meus pensamentos cada vez mais, não no âmbito intelectual ou espiritual, e sim no que se quer dizer com levar uma vida boa, que valha a pena – alcançar a sensação de paz dentro de si mesmo. Encontro meus pensamentos rumo ao Shabat, o dia do descanso, o sétimo dia da semana, e talvez o sétimo dia da nossa vida também, quando podemos sentir que nosso trabalho está feito e, com a consciência em paz, descansar. (SACKS, 2015b, p.58)

Diante da morte, Sacks se encontra na revisão de sua vida, já profundamente trabalhada em sua biografia “Sempre em movimento” (Cf. SACKS, 2015a). Estranhamente, o tempo aqui também se mostra e, não por acaso, sua epígrafe cita Kierkegaard: “a vida precisa ser vivida sempre para frente, mas só pode ser compreendida quando olhamos para trás”; e é isso que Sacks pretende: olhar para sua própria vida e compartilhar conosco, contar sobre um homem vivo, livre, um pouco anárquico, sobre sua paixão por velocidade, sua busca em conhecer e testar os limites. O autor nos conta que quando adolescente um professor lhe teria dito que “ele iria longe, se não fosse longe demais”, afirma que “acima de tudo foi um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e uma aventura.” (SACKS, 2015b, p.30)

Vida e morte serão vistas pela filosofia de Heschel como mistério, assim como a vida no judaísmo é um presente – uma graça -, o pensador nos conta que o judeu acredita em uma vida após a morte, mas sabe que não se tem informações sobre ela. Para ele, é assunto de Deus o seu destino após a morte, mas, na vida é sua responsabilidade o que ele irá fazer com ela. O mistério da vida após a morte está relacionado com o mistério da origem. “… a esperança de uma vida eterna do homem pressupõe que há algo no homem que seja merecedor da eternidade, que tem alguma afinidade com o que é divino, que foi feito à semelhança do divino”. (HESCHEL, 1996, p. 367)

Para Heschel, a Bíblia Hebraica sempre chamará mais a atenção para a questão da vida. Não importa tanto a questão da morte, mas o foco é dirigido mais para a questão de como santificar a vida. “O homem é homem não pelo que tem em comum com a terra, e sim pelo que tem em comum com Deus” (HESCHEL, 1996, p. 369, grifo do autor). A existência contém a eternidade e fazer a vontade de Deus é fazer o eterno em qualquer momento – incluindo morrer. “Tal como ser é obedecer ao Criador, então morrer é voltar à Origem” (Ibid, p. 371). A vida após a morte é considerada por Heschel como uma reunião e, portanto, toda a vida é um preparo para este encontro. “O sentido da morte está no retorno, independentemente se o retorno está em uma continuação da percepção individual ou em sua fusão com um todo maior” (Ibid.).

O pensamento hescheliano é descrito como um pensamento humanista sagrado, onde o encontro divino-humano revela a sua preocupação com a transcendência do homem. É desse lugar que Heschel pretende dialogar com o homem e a civilização ocidental. Um diálogo crítico que se inicia com o questionamento do valor do progresso tecnológico como sinal de humanização. É a percepção que a conquista do espaço – e da utilização e controle deste espaço para melhor atender às necessidades humanas – se dá através do sacrifício do tempo. Heschel critica Spinoza e os filósofos iluministas por colocarem Deus no espaço, um deus que pode ser fabricado pelo próprio homem e que pode ser contido em um lugar. Este deus apreendido e funcional acaba nos levando à presença paradoxal de um ateísmo na prática religiosa, em que as “coisas divinas” são entendidas como um poder que é passível de ser manipulado pelo humano a seu serviço, para a melhoria de seu bem-estar ou alcance da felicidade eterna. Um deus criado para atender aos desejos e necessidades humanas. Quando submetemos deus à nossa necessidade, também criamos a possibilidade de sua insuficiência e com isso falhamos na percepção do que é eterno no tempo.

E o que a morte nos traz é a nossa relação com o tempo, com o que é eterno no tempo. Pois, diante da morte, sabemos que nada possuímos, nada é nosso, nem o tempo, embora, como diz Heschel (1974, p.207), isso é tudo o que temos: “a temporalidade é uma característica essencial da existência”. E nosso poder alcançado pelo domínio do espaço termina na fronteira do tempo, pois tentar controlar o espaço é certamente uma de nossas tarefas, mas, como atesta o autor, não é, e não pode ser, o sacrifício do ser.

Nossa relação com o tempo deixou de ser algo real; por não ser coisa, nos coloca diante de uma doença mortal: temos dificuldade de enfrentar o tempo, não o dominamos, ele mais parece um monstro terrível que está a nos perseguir e para o qual nos submetemos, cientes de que ele nos arranca a vida, a cada instante, sem chance de refazer a jogada. Berdiaev é citado por Heschel (2014), aqui, para lembrar a doença mortal que é olhar o tempo face a face, um temor que nos remete à Kierkegaard, visto que ambos já falavam dessa doença mortal, pois perdemos o domínio do tempo porque deixamos de experimentar o que é eterno no tempo. A doença mortal é o desespero de nossa condição, de não conseguirmos deixar de ser o que somos, somado à nostalgia daquilo que realmente somos.

A morte aqui faz a festa, tratamos o tempo como a conquista do espaço, isto é, pela posse das coisas para que consigamos segurar o tempo a qualquer custo, enfim, segurar o movimento da existência. Sacks, ao contrário, admite que está, e não pode deixar de estar, sempre em movimento. Segundo Heschel (2014, p. 16), não é uma coisa que dá significação ao momento, mas sim o momento que significa a coisa, isso para evidenciar que “não existem duas horas semelhantes” (Ibid., p.18), cada tempo tem sua preciosidade naquele instante e, por isso, segundo o autor, o judaísmo teria essa função de santificar o tempo, pois é uma religião do tempo. E esse seria justamente o sentido maior do Shabat, ter a experiência de santidade no tempo. E assim, como cada instante difere de outro instante, também não existem duas vidas semelhantes, cada vida é uma vida única, nascida nesse momento, exclusiva e infinitamente preciosa.

O ser humano em sua singularidade é tomado a partir da ideia de milagre e mistério, onde toda a existência é uma dádiva e uma dívida, pois é nesta consciência, segundo Heschel, que percebemos que algo é exigido de nós: “somos exigidos a admirar, a respeitar, a pensar e a viver de um modo que seja compatível com a grandeza e o mistério da vida.” (Idem, 2002, p.71)

Sacks sabe do mistério, aliás, ele foi um grande investigador do mistério da vida. Mas nesse ensaio, em seus quatro momentos, Sacks contempla o acontecimento em cada tempo: a alegria e nostalgia do momento vivido em família e comunidade; a experiência difícil de ser judeu no mundo, na família, na comunidade; a experiência do outro, admirado e afetivamente considerado, na sua experiência de ser judeu; e, finalmente, sua compreensão de sua própria realidade a partir do que observa, do que conhece, do que vive e a conclusão de entender que sua vida se encaminhou para o sétimo dia, o dia do descanso de uma vida que esteve sempre em movimento. O Shabat é um acontecimento, uma atmosfera que diferencia o vivido; tudo se modifica dentro do Shabat.

Heschel cita uma passagem do Gênesis: “E Deus abençoou o sétimo dia e fê-lo santo” (Gn 2,3). Para o autor, o Shabat é a santidade no tempo, seu significado é celebrar o tempo e não o espaço. “É um dia em que somos chamados a partilhar no que é eterno no tempo, para fugir dos resultados da criação para os mistérios da criação; do mundo da criação para a criação do mundo” (HESCHEL, 2014, p.22).

O autor ressalta ainda que é na citação bíblica sobre o Shabat que se vê a primeira referência a Kadosh (santo). A ideia do Shabat é justamente compor com os dias de labuta, o dia santo. Um está em relação com o outro, se não observamos isso, nossa existência se esvazia, torna-se coisa e não pode ser conquistada. O fim nos evidencia que nossa existência precisa de sentido que não se alcança nas coisas conquistadas.

Aliás é esse enfrentamento que o neurocientista pretende, pois seu “sempre em movimento” foi o fomento de suas pesquisas tanto como foi o de sua vida. Para ele, o ato de escrever lhe dava vida, pois era um prazer enorme. Em sua escrita observamos um humor, uma paixão e uma honestidade que o fez afirmar que poderia identificar as experiências místicas no cérebro, mas que não poderia reduzir a fé a essa observação:

Há muitos casos em que uma convulsão ou lesão nos lobos temporais do cérebro, especialmente no direito, é associada ao sentimento religioso. Estudos de neurociência sugerem que, quando essas áreas são ativadas, há a expressão de um pensamento místico. Os humanos têm potencial para desenvolver esse tipo de pensamento. Em algumas pessoas, ele é mais forte, noutras mais fraco. Ou pode ser que alguns o usem, outros não. Mas não acho que podemos reduzir a natureza da fé a um processo cerebral. (Revista Época)

Como também afirma que sua religião é a natureza, pois é ela que desperta em Sacks os sentimentos de admiração, misticismo e gratidão.

Na verdade, como disse no início, não pretendo explicar Sacks por uma filosofia do judaísmo, mas sim deixar que ambos se toquem para ampliar a sensibilidade presente no confronto do nada, que, como diria Heschel, seria nossa obrigação ao educar: despertar a sensibilidade, isto é, de que o mundo é maior do que é possível ver e que viver é um desafio a ser enfrentado:

A vida humana é um ponto em que a mente e o mistério se encontram. Essa é a razão pela qual o homem não pode viver somente sobre sua razão, nem pode florescer apenas no mistério. Render-se ao mistério é fatalismo, refugiar-se na razão é solipsismo. O homem é compelido a comungar com o que está além do mistério. O inefável, que nele reside, procura um caminho para o que está além do inefável. (HESCHEL, 1976, p.353)

A existência só pode ser explicada através do tempo; podemos ter tempo sem espaço, mas nunca espaço sem tempo:

é o mundo do espaço que nos comunica o sentido para a temporalidade. O tempo, aquele que está além e independe do espaço, é eterno: é o mundo do espaço que está perecendo. As coisas perecem com o tempo; o tempo, ele mesmo não muda. Não devemos falar do fluxo ou passagem do espaço, através do tempo. Não é o tempo que morre; é o corpo humano que morre no tempo. A temporalidade é um atributo do mundo do espaço. O tempo que está além do espaço, está além da divisão em passado, presente, futuro. (IDEM, 2014, p.136-7)

O tempo pertence a Deus, segundo Heschel, é alteridade, um mistério que me leva a compartilhar a existência, mas não possuí-la. Possuo o espaço e nele me torno rival dos outros seres, ao existir no tempo, torno-me contemporâneo dos outros. Como tarefa humana, Heschel vê a conquista do espaço e a santificação do tempo:

Devemos santificar o espaço a fim de santificar o tempo. Em todo correr da semana somos chamados para a vida santificada mediante o emprego das coisas do espaço. No Shabat nos é dado compartilhar a santidade que está no coração do tempo. Mesmo quando a alma está seca, mesmo quando nenhuma prece pode sair das gargantas cerradas, o puro, o silente repouso do Shabat nos conduz a um reino de paz infinita ou, ao começo de uma percepção do significado da eternidade. (HESCHEL, 2014, p.142-3)

Talvez depois disso possamos ler novamente as palavras de Sacks e entender que, na modernidade, muitas vezes levar a sério o que é inalcançável pela razão pode nos favorecer a uma compreensão mais precisa de nossa condição, pois, em outro ensaio, Sacks nos fala desse mesmo tempo, um tempo que se torna sagrado por ser único e eterno em sua beleza, de quando a morte não é mais um conceito abstrato, mas uma presença que me coloca na modernidade diante daquilo que é, talvez, o maior confronto com a nossa insuficiência:

É quase certeza que não verei meu aniversário polônio (84º). E eu não iria querer nenhum polônio por perto, com sua radioatividade intensa e assassina. Porém, na outra ponta da mesa – minha tabela periódica –, tenho um belo pedaço de berilo (elemento 4) trabalhado à máquina, para me lembrar da infância e de há quanto tempo começou esta minha vida, que se encerrará em breve. (SACKS, 2014, p.41)

E assim, com a imaginação da criança que foi e que ligava as datas de aniversário com a tabela periódica, que Sacks escreve sobre a inexorável presença da morte, sobre a condição de envelhecer, mas, principalmente, sobre viver até o fim, dado que não há nada que possa nos ajudar a concluir uma vida. Isso não nos diz respeito, pois, como diria Heschel, o que segue “a morte, é um mistério que desafia a imaginação. Diante dela, nossa linguagem é o silêncio” (HESCHEL, 1997, p.273). Mas, para Sacks, se manter ativo era o convite da vida que esperava atender, por isso escreveu até o fim, e tornou-se, por suas palavras, dentro da atmosfera do Shabat, em um mundo fora do tempo, se perguntando que vida poderia ter levado e consciente que levou a melhor vida que poderia ter tido e que agora se preparava para viver a própria morte, rumando em direção ao dia do descanso.

____________________

Referências

HESCHEL, A.J. God in search of man, New York: Farrar, Straus and Giroux, 1976.

____________. Moral Grandeur and spiritual audacity. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1976.

_____________ O último dos profetas. São Paulo: Ed. Manole, 2002.

_______. O homem não está só. São Paulo: Ed. Paulinas, 1974.

________. O Schabat: seu significado para o homem moderno. São Paulo: Perspectiva, 2014.

SACKS, Oliver. Sempre em movimento. São Paulo: Companhia das Letras, 2015a.

____________. Gratidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2015b.

Sobre o autor

Maria Cristina M. Guarnieri

Psicóloga, Mestre e Doutora em Ciências da Religião (PUC-SP), docente do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa), Autora dos livros “Do fim ao começo: falando de morte e luto para adolescente” (Editora Paulinas) e “Angústia e Conhecimento: uma reflexão a partir dos pensadores religiosos” (Editora Reflexão). Coordena os grupos: Jung e a Filosofia da Religião e Morte e Pós-Morte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô.