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Dos fatos e das opiniões

Trust, Facts, Democracy (Confiança, Fatos, Democracia) é um projeto sendo realizado pelo Pew Research Center, organização norte-americana não partidária, que realiza pesquisas sobre diversos temas tais como o comportamento das gerações, minorias, gênero, dentre outros. Neste caso em especial, as pesquisas são realizadas levando em consideração a percepção do declínio da confiança nas instituições, o crescente desafio em virtude da desinformação, bem como a preocupação com a confiança e verdade quando ligadas com as atitudes públicas sobre a democracia.

Dentre os vários artigos produzidos tendo em vista o foco acima disposto, eu irei me concentrar em um, Distinguishing Between Factual and Opinion Statements in the News (Distinguindo fato e opinião nas notícias), publicado em 18 de junho de 2018 e assinado por Amy Mitchell, Jefrey Gottfried, Michael Barthel e Nami Sumida. De acordo com os autores, “no ritmo acelerado de hoje, num ambiente de informações complexas, os consumidores de notícias devem fazer julgamentos rápidos sobre notícias que frequentemente chegam em trechos e através de caminhos que oferecem pouca contextualização.” A pesquisa – survey – realizada com 5035 adultos norte-americanos tinha o seguinte objetivo: “saber se o público distingue notícias factuais algo que seja capaz de ser provado ou refutado por meio de evidências objetivas de uma opinião, que reflete as crenças e valores de quem a expressou.”

Cada participante da pesquisa era submetido a um total de 12 declarações, sendo que 5 eram factuais, 5 eram opiniões e 2 eram ambíguas, estando então entre o fato e a opinião. E, em se tratando de uma pesquisa realizada no ambiente maior de polarização, todas as declarações se relacionavam com assuntos políticos atuais e se aproximavam do viés ideológico de esquerda ou de direita.

Os fatos não eram ambíguos e as pessoas poderiam averiguar se eram ou não objetivos ou passíveis de serem comprovados. Já as opiniões eram baseadas em crenças, valores políticos, religiosos, morais, culturais ou outros, distantes da objetividade. As declarações ambíguas possuíam elementos de ambos os casos anteriores, sendo vagas, conflitantes e incompletas.”

Assim, uma frase era colocada ao respondente e ele deveria classificar se entendia ser fato ou opinião. Se tivesse apontado que era um fato, ele deveria dizer se era passível de ser comprovado ou não. E se tivesse concluído que era uma opinião, ele deveria falar se concordava ou não com ela. Finalmente, num segundo e último momento, outras declarações eram oferecidas, desta vez com as fontes reveladas, se de uma mídia identificada com a esquerda ou com a direita, como por exemplo The New York Times, de tradição liberal e democrata, e Fox News, com viés republicano.

Para se ter uma ideia mais clara, vamos ver um exemplo do tipo de frase que era apresentada aos participantes. Fato: O custo por pessoa do plano de saúde nos Estados Unidos é dos maiores entre os países desenvolvidos. Opinião: A Democracia é a melhor forma de governo. Ambígua: A fraude eleitoral colocou em dúvida os resultados das eleições nos Estados Unidos.

Esse é um tipo de pesquisa que nos interessa, uma vez que possuímos em nosso país um quadro muito semelhante ao que deu espaço para essa proposta nos Estados Unidos. Temos uma Democracia estabelecida, mas submetida à mesma situação que acima foi descrita em especial, o quadro de polarização política, de ideologização e da dificuldade de se diferenciar o que é uma notícia objetiva de outra que transparece a crença do autor em valores subjetivos ou enviesados. De modo semelhante, observamos também as linhas editoriais dos órgãos de imprensa, que transitam da esquerda para a direita, havendo pouco espaço para o centro.

Finalmente, não dá para deixar de apontar ao menos um dos resultados da pesquisa realizada nos Estados Unidos. “Tanto Republicanos quanto Democratas são mais propensos a pensar que as declarações são factuais – mesmo que sejam opiniões – quando elas apelam ao seu próprio lado.”

Será que este resultado se repetiria por aqui?

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.