Revista Laboratório 2

O peso do falso ser

Uma busca de entendimento transgeracional sobre o suicídio na juventude que vive a crise do amadurecimento na modernidade liquida.

Não sou ninguém, eu sou o que deveria ser. Visto o que deveria vestir e trabalho onde deveria trabalhar. Não simbolizo nada. Nunca lutei em uma guerra e provavelmente nunca irei, porque a próxima irá matar a todos. Compro coisas pelas quais não posso pagar, então elas nunca são minhas. Eu não vivo. Não acredito. Eu acumulo. Sou uma marca. Um cara branco da classe média. Mas você é o que você é, mesmo que o preço a pagar seja não ser bem-vinda no resto do mundo. Sou eu quem me disfarço. É errado querer estar com uma das poucas pessoas no mundo que não são assim? Ter uma pessoa na minha vida que sei que é real? (Stan e Angel – Pose, 1ª temp., Ep.02 – Netflix)

Esse trecho retirado da série Pose, do Netflix (veja aqui), acontece nos anos 1980, entre um clássico “homem de bem” (branco, de classe média, executivo de uma das empresas de Donald Trump, em plena ascensão social e profissional, casado, pai de duas filhas) e sua amante (jovem prostituta, negra e transexual). Ela não entende o porquê de ele querer sustentá-la, retirá-la das ruas para construir um lar, uma vida com ela, mas escondido é claro!

Este é o tipo do dilema abordado nas obras de Ryan Murphy, autor e diretor dos seriados de maior sucesso entre os jovens que tratamos aqui como Millenials e também os chamados iGen, pela psicóloga Jean Twenge. Ryan consegue retratar muitos dos desafios e das dores vividas, porém muitas vezes ocultadas pela juventude, principalmente perante suas famílias.

Enquanto discute-se a moral do beijo gay na novela das 20h, os jovens têm contato com dilemas muito mais profundos em seus quartos através do temido advento da internet e dos smartphones.

Gostaria aqui de tratar de uma fatia que transita entre as duas últimas gerações, jovens brasileiros com idade entre 13 e 22 anos. É dentro dessa faixa de idade que temos o maior crescimento das taxas de suicídio entre os anos de 2002 e 2012, segundo o Mapa da Violência organizado com dados do Ministério da Saúde. Vale lembrar que segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde, 79% dos casos de suicídio se concentram em países de baixa e média renda.

No Brasil, notadamente, existe uma defasagem nas pesquisas, porém sabe-se que dos quase 13.500 casos de suicídio do ano de 2016, 10.200 foram cometidos por homens, informações divulgadas no relatório da OMS no primeiro semestre de 2019.

O exemplo do personagem da série que abriu a apresentação demonstra a criação de um ser que, de certa forma, o agride e não o compõe na sua realidade. Através daquele diálogo, ele deixou claro seu medo de existir em sua essência, pela maneira que ele acredita que a sociedade encara esse posicionamento. Em um seriado dirigido ao público mais jovem, consigo ver muito do que li no nosso grupo de pesquisa, porém de uma forma mais agressiva para os olhos moralmente mais míopes.

A juventude em questão vive a agonia de carregar fardos, planos e expectativas de uma geração que não foi capaz de realizar seus desejos, em grande parte por terem sido pressionados a realizar os desejos de outros, que sustentavam suas vidas, ensinavam o que e como fazer e controlavam até certo ponto todo o seu agir e até mesmo o pensar.

No meio do medo de errar, essa geração deixou de fazer, de arriscar e de compreender qual o real prazer de conquistar algo que não fosse necessariamente um bem a ser possuído. O sentido da conquista vai deixando de existir e é substituído pelo desejo de ter, pois assim ele foi ensinado que será alguém que existe e pertence, mas com isso foi sobrecarregado de culpa.

Pelo histórico da falta, entregaram aos seus filhos o excesso somado de ausência, justificada pelo custo daquela vida (que se desejou e que agora de alguma maneira se tornara real).

Uma geração de filhos da Segunda Guerra Mundial, da recessão, da ordem e do respeito culminou na geração seguinte do excesso de posse, controle, medo, insegurança e frustração. Geração essa que não sabe realizar pelo sentido de fazer e que não identifica a realização de um sonho pela felicidade de tê-lo conquistado, mas pelo prazer de poder tê-lo como prova de que foi capaz, apesar da falta de fé depositada nele – que aos olhos dos pais era alguém frágil, beirando a ignorância e desprovido de capacidade de conquista.

Os filhos destes chegam como a cereja do bolo da constituição da vida perfeita e sob o juramento de não serem punidos como eles foram, injustiçados como eles foram e também infelizes como eles são, afinal, discursam diariamente sobre o sofrimento do que é ser um adulto responsável, além de entregar nas mãos de crianças decisões descabidas. Propõe que seus filhos vivam aquilo que eles gostariam de ter vivido, mas cobram uma satisfação que eles acham que teriam tido, caso pudessem ter vivido dessa maneira.

Assim vai se formando aquela geração alienada, que tem tudo que o dinheiro pode comprar, que vê o mundo colorido, mas, dentro do seu eu, não acredita que ele se mantenha colorido por muito tempo.

Começa aí uma divisão entre aqueles que despejam nos ombros dos filhos seus traumas, seus anseios, seus medos e suas crenças de vida perfeita e realizada. O medo se instaura e não se sabe bem do que exatamente, mas os atritos são substituídos pelo silêncio, pela reclusão e pela finitude.

Na busca pela razão desta melancolia, chegam a um resultado que agrada a todos: A culpa é da internet! – Soma-se a ela outro grande vilão: Os smartphones. Pronto. Encontrou-se o câncer geracional.

Na ânsia de buscas por respostas esqueceu-se de olhar para o lado e para dentro, empurrando a culpa para o outro. A separação, as brigas por conta de amante, o machismo no discurso do almoço, a crítica moralista sobre o vizinho, a ausência na vida familiar e o medo de envelhecer, tudo isso são coisas da vida, como se nada disso afetasse aquele ser em formação. O foco central das discussões, tema e problemática complexa realmente é a internet?

Esses que foram formados em meio ao ter, no caos da tentativa de mostrar-se feliz, vendo o resultado da busca desenfreada pela conquista de uma vida mais confortável, vivendo a ausência de ordem, o excesso de liberdade e a cobrança por resultados; esses jovens buscam seu conforto, refúgio bem como as respostas para suas dúvidas na vida do outro, através dos vídeos, fotos, boomerangs e tiktoks dos amigos, muitas vezes desconhecidos. Na teórica alegria disseminada nas redes sociais, sem respaldo, acolhimento e base, eles encontram quem gostariam de ser e como gostariam de estar (felizes).

Enquanto os pais discutem a censura da TV aberta, eles riem, pois nem sequer sabem o que passa nesses canais. A sexualidade do outro não lhe diz respeito e a curiosidade dele será desvelada longe dos olhos que tanto criticam a vizinhança. Tudo que eles desejam e o dinheiro pode pagar eles têm e raramente são punidos pelo excesso de consumo – já que este acaba sendo a compensação pela falta de presença.

Uma juventude que se esconde nas maquiagens – aprendidas não com a mãe ou amiga e sim com tutorial de uma blogueira pelo YouTube, nas roupas estilosas como as do pessoal mais descolado do Instagram, no compromisso com a natureza que ouviu falar nos trending topics do twitter e obviamente que se escondem também no movimento de aceitação das diferenças promovido pelo grupo do Facebook – diga-se de passagem, só citei essa ferramenta para ter gancho e lembrar o quanto a juventude moderna não a utiliza. Descobriram que aceitação é moeda de troca para ser inserido no grupo e começam nesse movimento muitas vezes para pertencer e sinalizar aos pais essa conquista, mesmo não estando onde ou com quem gostariam! Vidas de personagens criados como sendo reais, mas, que na sua existência plena, estão confusos em sua existência essencial. Jovens que expõe suas vidas de modo que começam a criar as vidas perfeitas para uma audiência que acredita na mentira, como fuga e esconderijo.

Enquanto seus irmãos mais velhos e seus pais insistem em mostrar tudo nas fotos das redes sociais, eles preferem os 240 caracteres de um microblog. Claro que ele tira fotos, mas elas duram 24 horas na rede, registros fixos podem ser provas de algo que rapidamente poderá mudar.

Podemos pensar que, para muitos, a cada 24 horas uma vida se recria, com novos sentidos e modos de fazer a mesma coisa. A cada 24 horas é forçado o nascimento de uma nova pessoa, de novos planos, tudo para se encaixar, para pertencer, para ser alguém que se deseja por si, pela sua própria construção e análise do mundo.

Vinte e quatro horas tornou-se muito tempo para a obtenção de uma resposta e nesse ponto, gostaria de lembrar do tempo que uma carta levava para chegar ao seu destino com a resposta da possível mesma pergunta, ou seja, acelerou-se o mundo e assim como ao pisar no acelerador de um carro, em alta velocidade, qualquer curva não imaginada, como uma rejeição amorosa, ou jamais vista, como o terceiro lugar numa competição, se torna a possibilidade do fim.

Parece algo tão novo, tão inédito, mas o ineditismo está nos meios em que tudo se compõe. Os enredos seguem a mesma história de tantos anos, com a diferença de que quem hoje julga a revolução, já fez parte dela. A ordem das peças está invertida, a idade está avançada, os traumas foram instaurados e parte superados e a incompreensão do pedido de socorro daquele que se afoga no meio do mar da liberdade que lhe foi dada, entrega apenas a sensação de ingratidão. Como se aquele jovem, com um terço da vida de seus pais, fosse capaz de compreender o mundo. Afinal de contas, ele tem internet!

Mesmo apresentando apenas um recorte da sociedade, encontramos essas mesmas situações e dilemas entre todas as famílias, ricas, pobres ou medianas, como se fossem uma o reflexo direto da outra, com traumas e desejos da mesma ordem mudando apenas a quantidade de zeros tanto da localização do GPS quanto da conta bancária (ou da caderneta da mercearia).

Gostaria de encerrar esse artigo com um trecho da palestra proferida por Donald Winnicott sobre “Progressos na educação Primária” em Oxford no ano de 1966:

Se alguém eventualmente retroceder no tempo, perceberá que as deslealdades, como as denomino, são uma característica essencial do viver, e provêm do fato de que se alguém tem de ser ele mesmo, será desleal a tudo aquilo que não for ele mesmo. As mais agressivas e por isso mais perigosas palavras do mundo são encontradas na afirmação EU SOU. É preciso admitir, no entanto, que só aqueles que alcançaram o estágio de fazer essa afirmação é que estão realmente qualificados para serem membros adultos da sociedade.

Referências

THE POLITICIAN. Ryan Murphy, Brad Falchuk. NETFLIX, 1ª Temporada

POSE. Ryan Murphy, Brad Falchuk. NETFLIX, 1ª Temporada

BAUMAN, ZYGMUNT (1925-2017) Nascidos em tempos líquidos: transformações do terceiro milênio. Trad. Joana Angélica D´Avila Melo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

TWENGE, J. M. IGen: por que as crianças de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a idade adulta. Trad. Thaís Costa. 1ª ed. São Paulo: nVersos, 2018.

WINNICOTT, D.W. (1896-1971) Tudo começa em casa. Trad. Paulo Sandler. 5ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

Sobre o autor

Maycow Montemor

Jornalista, graduando em Psicologia e pesquisador dos grupos "Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade" e "Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.