Revista Laboratório 2

Porque as raízes importam: A Grande Beleza e o espírito conservador

Resumo

O pensamento conservador moderno tem como pedra fundamental o irlandês Edmund Burke, o qual serviu de inspiração, ao longo dos séculos, para autores que se debruçaram veementemente sobre o conservadorismo. Ainda que grande parte dos estudos sobre esse tema remetam à filosofia política ou ao pensamento político, há também grande influência do conservadorismo na cultura. Esse artigo propõe uma leitura conservadora sobre o filme A Grande Beleza (2013), do italiano Paolo Sorrentino, investigando a presença do espírito conservador na obra, tendo por suporte três pensadores sobre o conservadorismo atual: Michel Oakeshott, Roger Scruton e João Pereira Coutinho.

Palavras-chaves: Tradição. Conservadorismo. Cinema. A Grande Beleza.

“Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos”.
J.P. Coutinho

“Sabe porquê só como raízes? Porque as raízes são importantes”. É assim, de forma simples e didática, que a excêntrica personagem da santa de Paolo Sorrentino, no filme A Grande Beleza, sintetiza séculos de pensamento conservador. Enraizamento, tradição, familiaridade, herança: são estes conceitos extremamente apreciados por pensadores conservadores, ainda que de distintos períodos históricos. Muda-se o tempo, permanecem os conceitos.

E qual seria a justificativa para tal persistência? Sobre quais fundamentos se assentam as continuidades do pensamento daqueles que se ocuparam do conservadorismo, especialmente para além de seu viés político? Seria possível afirmar a existência de uma face conservadora a se mostrar por meio da cultura? E, nesse contexto, poderia o cinema ser capaz de expressar-se como manifestação de um espírito conservador? As respostas para essas indagações serão abordadas a partir de um caso em particular no cinema: o longa metragem A Grande Beleza (2013).  

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer a conceituação do que nomeio aqui de “espírito conservador”, e, para tanto, evoco alguns dos mais estimados autores sobre o pensamento conservador europeu contemporâneo: os britânicos Michael Oakeshott e Sir Roger Scruton, e o português João Pereira Coutinho. Para além do continente, o que une a todos esses pensadores é a reflexão constante sobre o conservadorismo. Não obstante o viés político ou da filosofia política, o que realmente interessa aqui são suas reflexões conservadoras no que toca à cultura. Ademais, há outro ponto essencial de união entre esses pensadores, e ele tem nome e sobrenome: Edmund Burke.

Se há algum consenso entre os estudiosos do pensamento conservador, ele se assenta sobre o fato de ser Edmund Burke a gênese do conservadorismo moderno anglo-saxão. Estarrecido diante do que julgou como a malfadada experiência da Revolução Francesa, Burke se empenhou, ao escrever Reflexões sobre a revolução na França (1790), em apontar e explicar fatores problemáticos defendidos pelos revolucionários, que solaparam a ideia de liberdade que julgavam defender. Dentre essas reflexões, surgiram aquelas que passariam a representar os mais sólidos pressupostos do pensamento conservador: o cuidado para com a herança social, legado às futuras gerações, e a noção de amálgama social a partir dos “pequenos pelotões”.

Burke compreendia que viver em sociedade demandava algo para além do contrato social firmado apenas entre aqueles que viviam o momento presente:

O Estado é uma parceria em toda a ciência, em toda a arte, uma parceria em toda a virtude e em toda a perfeição. Como os fins de uma tal parceria não podem ser obtidos em muitas gerações, torna-se uma parceria não apenas entre aqueles que estão vivos, mas entre os que estão vivos, os que estão mortos e os que estão para nascer. Cada contrato de cada Estado particular é apenas uma cláusula do grande contrato primevo da sociedade eterna, ligando as naturezas inferiores às superiores, fazendo comunicar o mundo visível com o invisível, de acordo com um pacto firmado sancionado pelo inviolável juramento que mantém todas as naturezas físicas e morais no seu devido lugar (BURKE, 2015, p.160).

Eis uma das noções mais importantes e essenciais para o pensamento conservador moderno: a concepção de que a sociedade é compartilhada, não apenas por estes que aqui estão, mas por aqueles que já se foram e por outros que ainda virão. Em outras palavras: essa é uma herança que, se descuidada, implicaria em disruptura atávica. É no cuidado firmado por essa parceria que as tradições vão sendo gestadas, sendo essa outra concepção extremamente cara à Burke e aos seus descendentes conservadores dos séculos XX e XXI. Edmund Burke é a base sobre a qual, direta ou indiretamente, esses novos pensadores se assentarão para formar o chamado espírito conservador.

Advém de Michael Oakeshott (1901-1990) – o mais singular e incomum dos representantes desse tipo de pensamento – uma das noções mais pertinentes e brilhantes sobre o que é o conservadorismo: uma disposição. Não uma ideologia, tampouco uma crença, mas sim uma predisposição, uma tendência a pensar de determinada maneira e não de outra, a ter uma inclinação a certas escolhas e não a outras. Na tentativa de definir a conduta conservadora, Oakeshott apontou o seguinte sobre suas características:

Elas giram em torno da ideia da propensão desse personagem histórico em usar e aproveitar o que se encontra disponível ao invés de ir atrás ou inventar algo novo; regozijar-se com o presente e não com o passado ou com o que possa vir a acontecer. A reflexão pode suscitar certa gratidão pelo que está disponível, e portanto o reconhecimento de um presente ou uma herança do passado; ainda que não haja idolatria alguma ao que meramente jaz no passado. O que importa mesmo é o presente […] (OAKESHOTT, 2016, p. 135).

As bases conservadoras de Oakeshott são claras: se concentram num presente grato àquilo que herdou do passado. João Carlos Espada, ao analisar o pensamento oakeshottiano, afirma que o autor “[…] não está a defender um modo de vida em particular, mas o apego (attachment) a modos de vida em que as pessoas se sentem confortáveis” (ESPADA, 2019, p. 145). É esse apego relatado pelo professor Espada que alicerça o conservadorismo singular de Oakeshott. O apego às coisas que funcionam, ao cuidado e proteção de um presente abundante contra aquilo que ameaça sua continuidade. Em suma,

Ser conservador é, pois, preferir o familiar ao estranho, preferir o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna (OAKESHOTT, 2016, p. 137).

A disposição conservadora de Oakeshott relatada acima se condensa na importância da manutenção dos laços afetivos estabelecidos pelo tempo e pela convivência. O autor reitera sua posição nada abstrata e muito prática do que vem a ser alguém de temperamento conservador: é aquele que valoriza a continuidade das coisas que lhes são familiares e com as quais estabelece uma relação construída a partir daquilo que aprendeu a valorizar pelo hábito e, principalmente, na defesa da liberdade.

O filósofo britânico Sir Roger Scruton (1944-2019) foi um dos pensadores conservadores mais influentes deste século. Com inúmeras publicações voltadas ao assunto, dentre elas The Meaning of Conservatism (1980), How to Be a Conservative (2014) e Conservatism: An Invitation to the Great Tradition (2017), pode-se afirmar que Scruton devotou grande parte de sua vida ao debate sobre conservadorismo. De início, sua pesquisa e defesa do tema estavam calcadas na compreensão política do pensamento conservador, remetendo ao nascimento do partido Tory britânico e na construção de uma possível dogmática conservadora, como pode ser conferido em sua primeira obra sobre o assunto, da década de 1980. Porém, sob efeito do tempo, Scruton passou a dedicar suas reflexões conservadoras a assuntos que lhe eram mais caros, ou seja, aqueles atravessados diretamente pelo campo da cultura: arte, arquitetura, estética, música e vinhos.

Na realidade, seria impossível e incoerente separar o pensamento de Sir Roger em categorias distintas, pois o conjunto de sua obra, assim como sua própria vida, é permeado pela tradição conservadora, seja no campo político ou cultural. O legado de Burke sobrevive nos pressupostos teóricos, filosóficos e estéticos de Scruton, ao defender que

É uma herança partilhada em benefício da qual aprendemos a circunscrever nossas demandas, ver nosso lugar na ordem das coisas como parte de uma cadeia contínua de dar e receber, e reconhecer que as coisas boas que herdamos não são nossas para desperdiçar, devendo ser salvaguardadas para nossos dependentes (SCRUTON, p. 39, 2020).

A herança, conceito essencial para Burke e Oakeshott, regressa nas análises de Scruton, e, nesse ínterim, também reforça o preceito de tradição, o qual considera primordial ao “instinto conservador”. Conceitualmente, a tradição é para ele “[…] todo tipo de costume, cerimônia e participação na vida institucional, em que tudo é feito não mecanicamente, mas por uma razão; e a razão não está naquilo que ainda acontecerá, mas no que já aconteceu” (SCRUTON, 2015, p. 185).

Não seria demais sustentar que, a partir de uma análise oakeshottiana, o pensamento de Scruton ultrapasse a disposição conservadora, pois, “No intricado entrelaçamento entre indivíduo e sociedade, está a “vontade de viver” que constitui o conservadorismo” (SCRUTON, 2015, p. 55). É essa “vontade de viver” de Scruton que rege suas considerações conservadoras, principalmente no campo cultural. Há, no livro Conservadorismo: um convite à grande tradição, um capítulo voltado ao que o autor definiu como “Conservadorismo cultural”, movimento surgido no início do século XX, “[…] que propunha a cultura como remédio para a solidão e alienação da sociedade industrial e também como a coisa mais ameaçada pelos novos defensores da reforma social” (SCRUTON, 2020, p. 70). Corroborando Oakeshott, que afirmava ter o conservadorismo razão de ser, quando aquilo que amamos está em risco de desaparecer, Sir Roger defende, em obras como Beleza e A alma do Mundo, que as transformações culturais do século XX, principalmente na arte e na arquitetura, moldaram uma nova defesa conservadora, que prezava pela manutenção de uma cultura em vias de desaparecimento.

Até seus últimos dias, Roger Scruton foi um defensor nato da prática conservadora, estabelecida para além de seus escritos: Sir Roger promovia essa experiência cultural e estética nos cursos de verão lecionados em sua propriedade, ao que nomeou Scrutopia, e chegou a integrar (não sem antes sofrer daquilo que chamou de “cultura do repúdio”) um programa governamental de embelezamento arquitetônico de casas, vilas e cidades da Inglaterra.

Finalmente, o cientista político e escritor português João Pereira Coutinho (1976 – ) reúne, em sua escrita conservadora, traços de todos os autores apresentados, mas é o humor irônico e cético sua característica mais peculiar, como percebido em uma de suas definições, quando perguntado sobre o assunto: “Conservador é um bom termo de insulto”[1]. Coutinho conhece as mazelas contemporâneas que rondam o vocábulo e o condenam, tais como reacionário, retrógrado ou imobilista, e, com o intuito de afastar essas alcunhas da possível definição de conservador, delineou As Ideias Conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários (2014). Nessa breve, porém densa obra, Coutinho retoma historicamente o nascimento do pensamento conservador moderno com Burke, e segue desenredando conceitos, preceitos, temperamentos e vertentes conservadoras, a revelar aos poucos, com o humor que lhe é característico, porque também pode ser elevado ao pódio dos pensadores conservadores deste século.

Ainda que o centro da obra de Coutinho habite o debate político, as ideias conservadoras, como o próprio autor conceitua, precede qualquer ideologia, visto que “[…] o conservadorismo apresenta uma dimensão existencial que é anterior, ou até superior a qualquer ideologia política” (COUTINHO, 2014, p. 23). Essa dimensão existencial anterior já foi aqui relatada através das reflexões de Burke, Oakeshott e Scruton, personagens constantes nos diálogos tecidos por João Pereira. E são inerentes também às crônicas às quais se dedica semanalmente num jornal brasileiro, onde o gosto pelo cinema, arte e literatura por vezes se sobrepõe à política (ou pelo menos se junta a ela).

Apresentados os autores e seus caminhos conservadores, cabe a pergunta: por que A Grande Beleza? De que forma esse filme contemporâneo pode ser mensurado pela métrica conservadora? Não pretendo aqui defender A Grande Beleza como um exemplo tácito de filme conservador, nem mesmo interpretar Sorrentino como um diretor expoente do conservadorismo. Mas o longa metragem é digno de nota conservadora no que tange às suas escolhas estéticas (cenário, iluminação, figurino), seu roteiro e construção dos diálogos, enfim, o filme como um todo. Estão presentes traços e elementos que não passam despercebidos por aqueles que têm o mínimo de familiaridade com o temperamento conservador. Sob um olhar atento, é possível perceber a presença da disposição conservadora de Oakeshott, assim como do sentimento de estar em casa, de Roger Scruton, e também da indefectível ironia bem-humorada do “live and let live” de Coutinho. Arrisco, assim, supor que há no filme um espírito conservador que paira sobre suas imagens.

O protagonista Jep Gambardella comemora os 65 anos de uma vida invejável a qualquer dândi do século XIX: o jornalista fez fortuna com o único livro que escreveu, aos vinte anos, e desfruta de suas glórias desde então. Morando num terraço vizinho ao Coliseu, Jep se reveza entre uma agitada vida noturna e seus passeios introspectivos às margens do Tibre. Dinheiro, mulheres, fama, festas, vernissages: Jep sustenta um ar cansado sobre as coisas que já possuiu. Seus amigos formam um emaranhado de hipocrisia, vulgaridade e niilismo, típicos da decadência experimentada na Roma contemporânea. Todavia, há lampejos de felicidade e autenticidade na história de Jep, e são estes os pontos em que aproximarei A Grande Beleza do espírito conservador.

O olhar de Gambardella sobre Roma e a sociedade contemporânea é o guia desse espírito conservador. De um lado, Jep vive como um legítimo bon vivant, misturando-se às frivolidades das festas, jantares e situações sociais da alta sociedade romana, na qual reinam soberanos os lugares comuns da intelligentsia artística. Por outro lado, Gambardella é um flâneur que observa com delicado deleite os detalhes da cidade que tanto ama. É pelos olhos de Jep que percebemos a coexistência de duas Romas: uma delas, globalizada e deteriorada, a outra, atemporal e clássica.

Atemporalidade, tradição e permanência estão simbolicamente presentes no filme. Nas primeiras sequências, Jep se apresenta como aquele “que estava destinado à sensibilidade”. Nas cenas seguintes, percebemos que ele não mentiu: a câmera acompanha as flanagens vespertinas de Gambardella às margens do Tibre, por dentro dos templos, a olhar por entre as grades para o interior dos jardins de conventos, a admirar a brincadeira de crianças que correm por esses jardins e as frutas que se espalham pelo chão. Há ternura e admiração no olhar do observador – por vezes Jep, por vezes nós mesmos – os espectadores – que olhamos através de Gambardella.

Em determinada sequência, o protagonista foge de uma vernissage noturna de arte contemporânea, na qual quadros são pintados por um atirador de facas entintadas, ou com latas inteiras de tintas arremessadas por uma criança sobre uma gigantesca tela em branco. A fuga se dá em direção aos mais lindos palácios de Roma, onde vislumbramos, à luz de candelabros, esculturas eternizadas em mármore pelos romanos da antiguidade. A simbologia dessa sequência é profunda: é preciso retornar aos clássicos para suportar o desconforto e a frivolidade gerados por esse mundo. Sobre isso, Roger Scruton se vale do termo de Edmund Husserl – Lebenswelt – para dar forma ao que defende como “o sentimento de estar em casa”. Segundo o autor, cabe ao Lebenswelt, ou o “mundo da vida” a interpretação estética da vida, em que olhamos para o mundo ao nosso redor e o identificamos como um lar, como nossa casa, um lugar ao qual pertencemos e no qual nos reconhecemos. Esse sentimento de assentamento é indispensável à percepção do espírito conservador.

Numa outra cena rápida, porém extremamente representativa, Dadina – anã, amiga e editora do jornal em que Jep trabalha –, pede a Gambardella que faça uma reportagem sobre o navio Costa Concordia, que, anos após a tragédia do naufrágio, era mantido exatamente na mesma posição de encalhamento. Jep resiste, mas acaba por visitar o local. Não há diálogo, apenas a figura horizontalmente tombada daquele colosso, com suas cadeiras de sol empilhadas umas sobre as outras, como num jogo de varetas. O jornalista apenas observa, sob um grave silêncio. Se Scruton estiver correto quando defende que o “[…] meu rosto está ligado ao pathos da minha condição” (2017, p. 114), ali temos o retrato da desolação de um mundo virado de cabeça para baixo, naufragado e abandonado.

O espírito conservador presente em A Grande Beleza é também percebido em breves diálogos, como entre Dadina e Jep, durante um despretensioso jantar no escritório de Dadina. Levando uma garfada à boca, Jep conclui: “Arroz requentado é sempre muito melhor do que preparado na hora”. Ao que responde Dadina: “O velho é melhor que o novo”. O velho representa conforto, familiaridade, a percepção de algo bom que se deseja repetido e provado novamente, em outras palavras: conservado. De forma simples e direta, o diálogo é uma forma alusiva de reafirmar que “[…] uma sociedade incapaz de conservar é uma sociedade incapaz de se reformar” (COUTINHO, 2014, p. 65).

A cena anterior é didática, pois, minutos antes, o jornalista e sua editora conversavam sobre o engodo artístico de uma performance assistida por Jep, na qual a artista Talia Concept (o nome corrobora com o chiste do ato encenado) corria nua até chocar-se contra uma das paredes de pedra do Aqueduto do Parque da Via Appia Antica. Ao entrevistá-la, Jep torna explícito o absurdo e a falsidade daquela situação. A performer dizia incitar a provocação e o choque (sempre falando de si na terceira pessoa), enquanto Jep, com refinada ironia, explica que os leitores de seu jornal formam um público culto, que não deseja a provocação. A artista bufa, chora e se convence de que Jep não está à altura de compreender sua arte. A sequência termina com o seguinte diálogo entre os dois:

 – Vou dizer à sua editora para me enviar um jornalista de estatura mais elevada.
 – Um conselho: quando falar com minha editora, use muito tato no conceito de estatura. Ela é uma anã.

Em poucos minutos, essa sequência evidenciou, de forma irônica e bem-humorada, um preceito essencial ao espírito conservador: a noção de tradição. Fato é que o respeito à tradição e sua contraposição com o mundo contemporâneo atravessam o filme como um todo. A alegoria de Roma como “cidade eterna” é colocada à prova constantemente: no plano sequência de abertura, no qual um coral canta em latim diante da Fontana dellAcqua Paola, e, num corte abrupto, arremessa o espectador na frenética festa de 65 anos de Jep, em que uma multidão se contorce no compasso da música eletrônica; num plano aberto sobre o Coliseu, seguido por uma sequência bizarra de aplicações de botox, como num show mercantilista de horrores; na escolha cênica da bela e antiquíssima arquitetura do Aqueduto, simbolicamente profanada pela performance kitsch da artista-conceito. Estas são pequenas demonstrações da dualidade entre permanência e destruição propostas pelo filme, o qual, por vários momentos, incita à indagação: ainda há lugar para a tradição no mundo contemporâneo?

Como elucidado, o filme propõe algumas respostas a essa pergunta, mas uma delas, em particular, veste bem ao espírito conservador e, por coincidência ou não, se apresenta na figura de uma santa. Irmã Maria é uma missionária do Chade em visita à Roma, a fim de cumprir penitência, subindo de joelhos a escadaria de San Giovanni. A missionária – aclamada popularmente como santa – é admiradora do livro de Jep, e, desejando conhecê-lo, é convidada a participar de um jantar na casa do escritor. A excêntrica senhora centenária sustenta um ar tétrico, e detém um olhar parado e vidrado, a boca desdentada entreaberta, como se esperasse que o Senhor lhe colhesse o último suspiro a qualquer momento. Quase não fala, come muito pouco, praticamente não se move. A figura da santa se coloca em contraposição a do cardeal com aspirações à cátedra papal, também convidado para o jantar. Apesar da aparência esbelta e franzina, o sacerdote é um glutão: seu único assunto é referente a seus dotes culinários, e escapa das perguntas espirituais com tanta destreza quanto fala da comida.

Ao final do jantar, Irmã Maria se dirige a Jep no seguinte diálogo:

 – Porque nunca mais escreveu um livro?
 – Eu buscava a grande beleza, mas não encontrei.
 – Sabe por que eu só como raízes?
 – Não. Por quê?
 – Porque as raízes são importantes.

Como exposto no início deste ensaio, a fala da santa condensa, simbolicamente, séculos de debate sobre o pensamento conservador. As raízes importam, pois não há tradição sem raiz, e não há vida em comunidade sem a construção e manutenção das tradições. É João Pereira quem explica que

As tradições não são relíquias que guardamos na gaveta por mero gosto estético ou simples idiossincrasia pessoal. Elas são nossas porque se tornaram nossas. E o fato de continuamente as termos considerado vantajosas e valiosas permitiu que as legássemos de geração em geração como se fossem uma herança coletiva. Ao serem úteis e benignas para nós, é razoável pensar que elas também o serão para aqueles que virão depois de nós (COUTINHO, 2014, p. 59).

Noutra conversa com Dadina, na mesa de jantar – dessa vez a refeição é Minestrone, prato nacionalista por natureza, e sentimental por essência – Gambardella lamenta não estar mais adaptado à Roma contemporânea: “Tudo ao meu redor está morrendo”. Ainda que essa possa ser uma percepção literal da morte e do envelhecimento, o escritor é sensível às perdas não palpáveis, visíveis apenas para aqueles que enxergam através da disposição conservadora, já que esta “É uma predisposição típica de quem acredita ter algo a perder, algo que o tempo ensinou a amar” (OAKESHOTT, 2016, p. 136). E isso está evidente nas cenas finais, em que dois movimentos se alternam na tela: Irmã Maria, se arrastando escadaria acima, num gesto sacrificial claro de entrega e penitência, e Jep, como que cumprindo o vaticínio da santa, retornando às suas raízes, àquele breve momento em que, durante sua juventude, esteve na presença da grande beleza.

A Grande Beleza é uma ode à eternidade das tradições. Roma, ela mesma protagonista dessa história, oscila entre a conservação e a disrupção. O espírito conservador, tomado aqui de empréstimo das reflexões de Oakeshott, Scruton e Coutinho, foi transposto em imagens e diálogos, revelando uma capacidade de ser, ao mesmo tempo, permanente e mutável. Como propõe Oakeshott, a disposição conservadora não nega a mudança, pelo contrário, esta é “[…] também uma maneira de nos acomodarmos a mudança, uma necessidade que se impõe a todo homem” (OAKESHOTT, 2016, p. 140). Mas como mudanças são sempre difíceis, e por vezes tristes e violentas, “[…] o conservador opta por deleitar-se com o que tem” (HIMMELFARB, 2018, p. 221).

Deleite. Eis uma das melhores definições para a experiência proporcionada pelo filme, sendo também deleite aquilo que o espírito conservador deseja manter como eterno: todas as coisas com as quais criou raízes porque lhe aprazem, não porque são dogmas políticos, mas porque possuem beleza, são constantes e podem ser desfrutadas por aqueles que aqui estão e por aqueles que estão por vir. Tal qual Roger Scruton, Jep Gambardella se vale da “vontade de viver”, que, por meio da cultura, conquista um remédio contra o esfacelamento sombrio de um cotidiano fugaz, marcado pela vaidade e pela futilidade. Em suma, as raízes importam, porque sem elas nos desintegramos no tempo.

Referências bibliográficas

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução em França. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2015.

COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

_____________________ Em busca do equilíbrio. Disponível em http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-3/em-busca-do-equilibrio/

ESPADA, João Carlos. Liberdade como Tradição. Campinas: Távola Editorial, 2019.

HIMMELFARB, Gertrude. A imaginação moral. São Paulo: É Realizações, 2018.

OAKESHOTT, Michel. Conservadorismo. Belo Horizonte: Âyiné, 2016.

SCRUTON, Roger. O que é conservadorismo. São Paulo: É Realização, 2015.

_______________ A Alma do Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2017.

_______________ Conservadorismo: um convite à tradição. Rio de Janeiro: Record, 2020.


[1] Cf. COUTINHO, J.P. Em busca do equilíbrio. Revista Dicta e Contradicta.
Disponível em: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-3/em-busca-do-equilibrio/

Sobre o autor

Flávia Arielo

Historiadora e Professora do curso de História do Centro Universitário Sagrado Coração – Unisagrado. Doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP. Desenvolve pesquisa sobre conservadorismo, cinema e arte. Pesquisadora do Grupo de estudos Nelson Rodrigues: Literatura, Filosofia e Religião do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.