
Baseado no livro O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro
A biografia de Nelson Rodrigues é uma verdadeira aula de história brasileira, tal qual a de seus familiares: seu pai foi um dos percursores do jornalismo nacional, assim como seu irmão, Mário Filho, que batizou o estádio do Maracanã, criou e organizou campeonatos de futebol, revolucionando o esporte no país.
Ao conhecermos de perto sua história, base de toda sua obra literária, nos deparamos com a genialidade e a sensibilidade do autor, que captava acontecimentos da vida cotidiana e dissecava a alma humana com uma simplicidade arrebatadora.
Por ser um profundo conhecedor da condição humana, sabedoria adquirida não apenas a partir de construções teóricas, mas principalmente pelas inúmeras experiências trágicas por que passou, pode-se afirmar que sua obra é atemporal.
O Anjo Pornográfico – A vida de Nelson Rodrigues
Após extensa pesquisa, com centenas de entrevistas realizadas com 125 pessoas do círculo íntimo de Nelson e seus familiares, o jornalista Ruy Castro lançou a biografia do autor no ano de 1992. Esse trabalho premiado é o ponto de partida essencial para a compreensão do escritor e toda a sua produção, já que o contexto de sua época e experiências que afetaram sua vida são os ingredientes fundamentais de sua obra.
Origens
Filho de mãe protestante (Maria Esther) e pai (Mario Rodrigues) que se convertera (brevemente) por amor, a família Rodrigues gerou 14 filhos no total. Nelson nasceu na cidade de Recife, em 23 de agosto de 1912. Quatro anos depois, a família mudou-se para o Rio de Janeiro.
A chegada à Rua Alegre marcou profundamente a vida do garoto. Facilmente conseguimos identificar personagens e enredos pessoais em suas tramas: nas vizinhas gordas e fofoqueiras, com maridos asmáticos e espectrais; nas solteironas ressentidas; nas adúlteras voluptuosas; e nas muitas viúvas machadianas, com acréscimo das gazes enroladas nas canelas por causa das varizes.
Aos 8 anos incompletos, Nelson narra uma de suas mais famosas histórias da infância (quiçá de toda vida): o concurso de redação. A professora propôs um tema livre, e Nelson apresentou uma história de adultério, na qual o marido chegava de surpresa em casa, entrava no quarto, via a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela, sumindo pela madrugada. Com uma faca, o marido liquidava a mulher. Depois se ajoelhava e pedia perdão.
Seu trabalho causou uma enorme comoção entre as professoras e direção do colégio. Nelson foi reconhecido, mas, obviamente, seu texto não foi lido para a turma. Vale ressaltar aqui que o adultério era tema recorrente na vida de uma criança suburbana, mas o que chama atenção foi o fato de Nelson ter, ao contrário dos amigos, colocado a trama em palavras.
De alguma forma, Nelson já estava habituado à tragédia como uma rotina conhecida: em 1918, o Rio fora acometido pela gripe espanhola, sendo o estado mais atingido no Brasil. Além disso, tinha três irmãos mais velhos já adolescentes, então era comum ouvir relatos sobre mulheres, alterações hormonais e futebol. Outro fator interessante de sua formação era que Nelson fora criado lendo folhetins, entre eles O Conde de Monte Cristo e Crime e Castigo, romances publicados em jornais naquele formato.
Nelson convencera o pai a trabalhar em seu jornal, como repórter policial, aos 13 anos de idade. O “estágio” nesse laboratório também foi um constituinte de peso em sua formação literária, pois quase todos os crimes envolviam paixões ou vinganças.
No começo, Nelson fazia o trabalho básico de sondar as delegacias por telefone, mas logo começou a espantar os colegas com sua facilidade para emprestar carga dramática aos toscos relatórios que os repórteres traziam das ruas.
Tragédias Familiares
A “Crítica”, jornal criado e administrado pela família Rodrigues, também se tornou popular por divulgar casos de amor e morte de jovens casais, adultérios, entre outras mazelas da sociedade carioca. No entanto, a publicação de um caso de desquite desencadeou a primeira grande tragédia familiar que atravessariam.
Tratava-se da separação de um casal de grã-finos do Rio de Janeiro. Existiam fortes suspeitas de que a esposa havia traído o marido com amigo da família. De qualquer forma, o casal manteve a versão de que não houvera adultério e que o desquite era amigável. Obviamente, os jornalistas não aceitaram essa versão. Mesmo após a insistência de Sylvia, que pedia a ocultação do caso, a matéria fora publicada.
Na tarde do mesmo dia, a adúltera se dirigiu armada à redação, à procura de Mário Rodrigues. Como ele não estava, acabou acertando, à queima-roupa, o único Rodrigues presente no local, Roberto, que faleceu três dias depois. Nelson ainda não tinha completado 18 anos.
Ninguém conseguirá absorver o teatro de Nelson sem entender a tragédia provocada pela morte de Roberto – até porque ela desencadeou outra desgraça: pouco mais de dois meses após essa perda, Mário faleceu de trombose cerebral. A vida da família Rodrigues nunca mais seria a mesma.
Dessa forma, a administração do jornal passara para as mãos dos filhos Milton e Mário Filho.
Em outubro de 1930, a Revolução de Getúlio Vargas tomou conta do país. Washington Luís foi obrigado a entregar o posto presidencial, vencido nas urnas por Júlio Prestes, à Vargas. E uma turba ensandecida saiu às ruas para acertar as contas com os jornais do velho regime. Redações e oficinas foram invadias e saqueadas. “Crítica” fora empastelada e nunca mais voltou à circulação. Esse fato levou os Rodrigues à falência, à pobreza e à fome.
Em 1931, Roberto Marinho assumiu a direção de “O Globo”, e uma de suas primeiras contratações foi de seu colega de sinuca, Mário Rodrigues, que aceitou e levou consigo dois irmãos, Nelson e Jofre, que trabalhariam por muito tempo sem salário.
A fome e o sofrimento infligido em meio a tantas tragédias e dificuldades refletiram diretamente na saúde de Nelson, diagnosticado com tuberculose. Seu irmão Jofre também fora acometido pela doença, mas não teve a mesma sorte, e faleceu aos 21 anos.
O encontro com Elza
Em 1937, Nelson conheceu Elza na redação de “O Globo”. A família da jovem e o chefe de Nelson, Roberto Marinho, eram contrários à união, já́ que a saúde debilitada do autor e sua condição financeira precária não o tornavam um bom partido. Mesmo assim, casaram-se no civil no dia 29 de abril de 1940, sem a presença da mãe da noiva. Pouco tempo depois, os irmãos de Elza descobriram a história e contaram para a matriarca. Após um árduo processo de convencimento, a sogra finalmente consentiu, e deram início a todos os trâmites para o casamento religioso. Quase aos 28 anos, Nelson teve de ser batizado na fé católica, estudar catecismo e fazer a Primeira Comunhão.
O Teatro
Casado e com recursos escassos para sustentar a família, Nelson arriscou-se a escrever peças e causou uma verdadeira revolução teatral. Até então, na década de 1940, o teatro “sério” era dominado por Procópio Ferreira, Jaime Costa e Dulcinha Araújo. Como eram eles que dominavam as plateias, era para eles que os autores escreviam. Por serem empresários independentes, encenavam aquilo que queriam, no caso, a comédia. A maioria das companhias trocava as peças semanalmente, e isso só era possível por terem cenários básicos, que iam da sala de estar à sala de jantar e vice-versa. Os atores não precisavam decorar os textos e muitos nem chegavam a ensaiar. A figura-chave da equipe era o “ponto”, um sujeito que ficava lendo a peça num buraco do palco.
Vestido de Noiva, segunda peça escrita por Nelson, foi o verdadeiro divisor de águas do teatro brasileiro. Mas, afinal, o que possuía de tão assombroso? Muitas coisas, dentre elas a simultaneidade dos planos de ação, que se passavam na realidade, memória e alucinação da heroína, uma mulher chamada Alaíde.
“Você não vê que isso não pode ser feito num palco?”, ouviu Nelson de alguns profissionais do teatro. Referiam-se ao fato de que, em determinadas cenas, Alaíde e Lúcia estavam vestidas de noiva em um plano, e, na cena seguinte, segundos depois, apareciam com roupas normais em outro. Ou que a passagem de um plano para o outro exigia um jogo de iluminação que ainda não existia nos palcos brasileiros. A obra recebia muitos elogios, mas ninguém queria montá-la. Vestido de Noiva exigia um diretor profissional, equipado com dinheiro, recursos técnicos e mão de obra experiente. Ziembinski, ator e diretor polonês recém-chegado ao Brasil, era extremamente exigente e, em oito meses, numa jornada diária de oito horas, ensaiou Vestido de Noiva com o grupo de teatro “Os Comediantes”.
No dia 28 de dezembro de 1943, a plateia poderia esperar por muita coisa, mas não pelo que transcorria diante de seus olhos: 140 mudanças de cena, 132 efeitos de luz, 20 refletores, 25 pessoas no palco e 32 personagens, contando com quatro pequenos jornaleiros de verdade que gritavam as manchetes de “A Noite”. Os planos se cruzavam, se sobrepunham, e grande parte do público se sentia ofendido por não conseguir acompanhar, mesmo após uma explicação lida antes do início da apresentação.
Pouco tempo depois, Nelson engatou as peças Álbum de Família e Anjo Negro. Além de trazer à tona temas como incesto, homossexualidade e racismo, tais produções transformaram o autor num alvo constante de represália da censura. Assim o foi até o final de sua vida.
A vida como ela é…
Em 1951, Nelson foi convidado por Samuel Wainer para compor o time do seu mais novo jornal, “Última Hora”. O então chefe lhe sugeriu escrever uma coluna diária baseada num fato real da atualidade, da área policial ou do comportamento. Assim nascia “A Vida Como Ela É…”. Nelson se inspirou nos homens cariocas, alguns jovens desempregados, comerciantes, barnabés, e tinha como cenários a Zona Norte, onde as pessoas viviam, o Centro, onde trabalhavam, e a Zona Sul, aonde só iriam pra se divertir. Na cabeça desses personagens – garantida a virgindade e a fidelidade de suas mulheres ou namoradas –, as mulheres ou namoradas dos outros eram para ser desejadas sem contemplação. O conflito se dava porque, sob toda culpa e repressão, as moças tinham vontade própria e também desejavam os homens que não podiam desejar. E, com isso, todos eles, homens e mulheres, viviam num estado permanente de excitação erótica. As pessoas não gostavam de admitir e preferiam chamá-lo de tarado, mas Nelson estava sendo estritamente realista sobre o seu tempo.
No Rio de janeiro dos anos 50, onde se passam as histórias de A vida como ela é…, não havia motéis, pílulas e nem a atual liberdade entre os jovens. A Zona Norte, quase sem comunicação com a permissiva Zona Sul, ainda preservava valores mais austeros. As famílias mais rígidas moravam juntas. Maridos, cunhadas, sogras, tias e primas cruzavam-se dia e noite nos corredores dos casarões, sob uma capa de máximo respeito. Nessa convivência compulsória e sufocante, o desejo era apenas uma faísca inevitável.
O Reacionário
Nelson não gostava de interpretações sociologizantes ou economicistas de suas peças. “Para mim, seja de que classe for, seja esquimó ou mandarim, o homem continua sendo o mesmo homem”, diria Nelson anos depois. A peça Beijo no Asfalto provocou a saída de Nelson de “A Última Hora”, por conter algumas referências negativas ao jornal. Mas isso foi apenas o estopim, o clima já estava pesado para ele por alguns motivos, entre os quais, o fato de ter escrito uma crônica a favor de Roberto Marinho, quando este era um dos principais inimigos de Samuel Wainer. O outro ponto seria a briga comprada com a esquerda teatral brasileira.
Numa dessas brigas, assumiu pela primeira vez a pecha de reacionário:
“O Brasil atravessa o instante mais divertido de sua história. Hoje em dia, chamar um brasileiro de reacionário é pior do que xingar a mãe. Não há mais direita nem centro: – só há uma esquerda neste país. Perguntem ao professor Gudin: – “Você é reacionário?”. Sua resposta será um tiro. Insisto: – o brasileiro só é direitista entre quatro paredes e de luz apagada. Cá fora, porém, está sempre disposto a beber o sangue da burguesia. Pois bem. Ao contrário de setenta milhões de patrícios, eu me sinto capaz de trepar numa mesa e anunciar gloriosamente: – “Sou o único reacionário do Brasil!”. E, com efeito, agrada-me ser xingado de reacionário. É o que sou, amigos, é o que sou. Por toda parte, olham-me, apalpam-me, farejam-me como uma exceção vergonhosa. Meus colegas são todos, e ferozmente, revolucionários sanguinolentos. Ao passo que eu ganho e recebo da Reação. E, no entanto, vejam vocês: – como é burra a burguesia! Eu, com todo o meu reacionarismo, confesso e brutal, sou o único autor perseguido no Brasil, o único autor interditado, o único que, até hoje, não mereceu jamais um mísero prêmio” (O REACIONÁRIO, p. 321).
Cinema e Televisão
No início da década de 1960, o cinema brasileiro descobriu um filão: a obra de Nelson Rodrigues. Tudo começou com a montagem de Boca de Ouro (1963), dirigida por Nelson Pereira dos Santos e produzida por Jece Valadão. Bonitinha, mas ordinária (1963) foi vista por dois milhões de espectadores. Pouco tempo depois, Nelson estreava na TV dos Marinho, e em pouco tempo era uma das atrações Globo com o seu quadro A cabra vadia. Nelson usava uma cabra viva como testemunha muda de suas entrevistas imaginárias com personalidades variadas, realizadas num terreno baldio também imaginário. A suposição era de que certas coisas só se confessam num terreno baldio frequentado por uma cabra vadia.
Política
No final de 1967, Nelson lança suas Confissões, que se tornaria uma zona de combate entre o autor e o mundo em rápida transformação. Ele se incomodava com a politização desenfreada que invadia todos os poros. Reclamava que o teatro não mais fazia teatro, fazia política.
Com a radicalização em 1968, os palcos viraram palanques: mais do que o pessoal do cinema ou da música, o grupo do teatro sentia-se ungido de uma responsabilidade total na resistência aos militares. Encenavam mais assembleias do que peças, e Nelson não escondia sua opinião: “Não ando em comissão, nem em manifesto, nem em maioria, nem em unanimidade”. Tinha horror àquele grupismo compulsivo, no qual o coletivismo chegava à própria criação, como se ninguém mais tivesse o direito de pensar sozinho, escrever sozinho. Acabou por se tornar um pária dentro da própria categoria.
Poucos entre os leitores que o odiavam poderiam imaginar que, no dia a dia de 68, Nelson continuava sendo estimado e querido por muitos de seus amigos de “esquerda”. O principal desses amigos era Hélio Pelegrino, preso em 1967. Nelson depôs a seu favor, e Pelegrino foi absolvido. O escritor fez o mesmo por Zuenir Ventura, também o ajudando a sair da prisão. Naquela época, as brigas eram democráticas e os amigos não cortavam relações por causa de ideologia.
Ditadura
O exército tinha enorme consideração por Nelson. Em 1969, não era o único intelectual afinado com a “revolução”, mas era, certamente, o mais popular. A gratidão das Forças Armadas para com ele era tanta que qualquer pessoa pela qual intercedesse ficava imediatamente sob uma espécie de proteção especial. Os militares não queriam correr o risco de desagradá-lo e perder um forte aliado.
Em 1964, aos 19 anos, seu filho primogênito, Nelsinho, desistira de ir para a Aeronáutica para cursar engenharia. O jovem aderiu ao movimento estudantil e em pouco tempo já fazia parte da organização revolucionária MR-8, com o codinome Prancha.
Durante o período em que o drama de Nelsinho se desenrolava longe de seus olhos, Nelson reuniu forças para exercer uma espécie de militância política da qual nem todos os seus amigos tinham conhecimento. Seu prestígio junto aos militares fazia com que muitas pessoas que passavam apuros no regime lhe procurassem. De 1969 a 1973, Nelson foi fundamental na localização, libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos.
Em março de 1972, Prancha foi preso e constantemente torturado nos dois meses que passou detido. Após longas semanas de aflição, Nelson mobilizou todos os militares que conhecia para tentar localizá-lo, mas ninguém achava Nelsinho. Era irônico que Nelson não conseguia fazer por seu filho o que já tinha feito por muitos outros. Quando finalmente encontrou o filho, Nelson envelheceu anos ao tomar ciência de que ele fora duramente torturado. Vale ressaltar que Nelson ingenuamente não acreditava na crueldade do exército, e ouvira da própria boca de Médici que não cometiam tais atos bárbaros.
Em maio de 1979, Nelson deu uma longa entrevista ao “Jornal Nacional”, falando pela primeira vez sobre seu filho Nelsinho. Naquela época, o país estava cansado, era raro uma família que não tivesse sido afetada pela violência do regime, e a sociedade exigia a anistia.
Um mês depois, em outra entrevista, dessa vez para a “Última Hora”, Nelson fez um novo apelo ao então presidente Figueiredo, pedindo a libertação dos jovens prisioneiros. A voz de Nelson na campanha da anistia era duplamente incômoda aos militares. Era a voz de um pai com acesso a todo o tipo de mídia, e a de um escritor que nunca escondera o apoio ao regime. Apoio que, na verdade, sofrera um profundo abalo em 1972, quando finalmente se convencera da prática das torturas. O simples reconhecimento de Nelson Rodrigues de que o regime havia torturado denunciava o excremento que se tentava varrer para debaixo da bandeira.
Mas o tempo não lhe fora de todo ruim. Sua obra ganhava mais visibilidade e sucesso com Arnaldo Jabor, que realizava adaptações fiéis e criativas para o cinema. Toda nudez será castigada (1973) foi mais um grande sucesso, seguida por O casamento (1976) e A dama do lotação (1978). Nelson escreveu sua última peça, A serpente, em meados de 1979, antes de sua saúde ficar cada vez mais debilitada. Mesmo com a saúde precária, Nelson continuou lutando pela anistia total.
Na manhã de 21 de dezembro de 1980, Nelson faleceu, aos 68 anos. Anos depois, Elza cumpriu o seu pedido de, ainda em vida, gravar seu nome ao lado dele na lápide, sob a inscrição “Unidos para além da vida e da morte. E só”.

