Ateísmo e Apologética

O surpreendente renascimento da crença em Deus

O livro “The Surprising Rebirth of Belief in God: Why New Atheism Grew Old and Secular Thinkers Are Considering Christianity”, do escritor e broadcaster britânico Justin Brierley, ainda sem edição em português, pode ser considerado um livro de apologética do cristianismo.

Não se trata de livro acadêmico, nem teológico; é apenas uma publicação popular, cujo escritor tem como credencial o fato de ter apresentado um programa de rádio denominado “Unbelievable”, por quase duas décadas, no qual ele promovia debates entre convidados cristãos e não-cristãos.

A ideia do livro teria surgido justamente em um dos programas quando ele entrevistou o jornalista Douglas Murray, que lhe contou ter percebido que vários de seus colegas intelectuais teriam, recentemente, se convertido ao cristianismo.

O livro tem 7 capítulos: A ascensão e queda do novo ateísmo; A nova conversa sobre Deus; Moldado pela história cristã; Redescobrindo a Bíblia; A história alternativa da ciência; Mente, significado, e os materialistas; O surpreendente renascimento da crença em Deus.

Na edição impressa são 259 páginas, grande parte empregadas em contar a história da conversão ou reaproximação recente, de pessoas famosas, com a fé cristã.

Embora o fato de que a conversão ao cristianismo de pensadores seculares seja premissa para a conclusão do livro quanto ao renascimento da fé em Deus, as histórias dos personagens não afloram como parte mais interessante da obra.

Analisando-se em termos de apologética, dois pontos mereceriam destaque, quais sejam, as duas pontas dos livro, o começo e o fim, com especial atenção para as partes que falam sobre a ascensão e queda do novo ateísmo, e os chamados “nones”, aqueles que se declaram não vinculados a nenhuma religião. Aqui vale incluir parênteses para explicar que o termo “nones” é frequentemente usado nos Estados Unidos e Inglaterra e designa as pessoas que, nas pesquisas de opinião, declaram “nenhuma em particular” ou “nenhuma das anteriores” (“none of above”) para a pergunta sobre religião.

No capítulo sobre o surgimento do novo ateísmo, encontra-se a história dos ônibus que circularam na Inglaterra, em 2008, com os dizeres “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life.” (em tradução livre: “Provavelmente Deus não existe, agora pare de se preocupar e aproveite sua vida”). E de como, a campanha que anunciava para as pessoas se esquecerem de Deus, gerou justamente o efeito contrário. Em um país em que mais da metade da população se declara sem religião, uma propaganda deste tipo seria desnecessária, e acabou colocando novamente Deus na agenda de debates.

A onda do novo ateísmo teria sido facilitada pelo ataque terrorista do 11 de setembro, pela guerra cultural religião versus ciência, e principalmente pela expansão da internet, que propiciou o aparecimento de inúmeros sites, blogs, salas de bate-papo, etc., sobre o ateísmo.

E o movimento que teve rápido crescimento acabou implodindo em decorrência de desavenças internas envolvendo acusações de misoginia, sexismo, racismo, discussão a respeito de igualdade de gênero, direitos LGBT, e outras causas. O que inicialmente era apenas uma declaração de não acreditar em Deus e valorizar a razão e ciência, foi abarcando outras pautas sobre as quais os integrantes não concordavam. “Uma vez que a comunidade descobriu que eles tinham opiniões radicalmente diferentes sobre como a vida deveria ser vivida uma vez que a religião tinha sido abandonada, as coisas rapidamente caíram em espiral” (posição 669). Para quem se interessa, são contadas algumas histórias de mal comportamento de Richard Dawkins e outros ateístas. A cultura do cancelamento teria também atingido o novo ateísmo.

O recheio do livro, composto pelos capítulos “Moldado pela história cristã”; “Redescobrindo a Bíblia”; “A história alternativa da ciência”; “Mente, significado, e os materialistas”, parece ter a função de apresentar um panorama sobre os assuntos; porém, para aqueles que já têm algum conhecimento, ou pretendem aprofundar-se, existem outros trabalhos mais consistentes como, por exemplo, o livro “Domínio: O cristianismo e a criação da mentalidade ocidental” de Tom Holland, com base no qual foi escrito o capítulo “Moldado pela história cristã”.

Basicamente, neste livro o autor tenta demonstrar que depois do recuo ocorrido após o Iluminismo, a maré do cristianismo está voltando a subir, desta vez impulsionada pela falta de sentido gerada pelo secularismo. E trazer a público estas narrativas seria uma forma de se questionar o que as Igrejas precisariam fazer para acolher os novos convertidos e conquistar novos fiéis. Nas palavras dele (em tradução livre):

As histórias daqueles que foram surpreendidos ao encontrar Deus ainda esperando por eles nas praias desertas do secularismo poderiam nos ajudar aqui. Se eles são os primeiros frutos daqueles que vieram por causa da crise de sentido, o que eles encontraram que fez a diferença? E se ainda pode haver uma maré de pessoas vindo atrás deles, prontos para novamente considerar a religião, o que a igreja terá para oferecer se as pessoas baterem à sua porta?” (posição 4460).

Para auxiliar as Igrejas, e os apologistas, Justin Brierley apresenta três ideias que poderiam ser incorporadas no projeto de preparação para receber aqueles que se sentem perdidos e cansados, vítimas da vida moderna.

A primeira diz respeito a juntar razão e imaginação; porque existem aquelas pessoas mais voltadas à razão, que ele define como as que têm mais ativado o lado esquerdo do cérebro, mas é importante lembrar daqueles cujo lado direito do cérebro se apresenta mais intenso, e são sensibilizadas pela intuição, sentimentos, e emoção.

A segunda seria “Manter o cristianismo esquisito”. A proposta, que parece estranha, defende que as Igrejas deveriam se manter distintivamente cristãs, e não se renderem ao politicamente correto; pois, ao ficarem martelando questões de raça, gênero, sexualidade, tornam-se apenas mais um alto-falante dentre inúmeros. As pessoas que procuram as igrejas estariam, justamente, em busca de algo diferente daquilo que elas já têm em suas vidas comuns. As igrejas, cada qual com suas características, precisariam manter o mistério, o sobrenatural, ou seja, continuarem excêntricas.

Por fim, o terceiro conselho, “Criar uma comunidade que combata a cultura do cancelamento”. Sob este título, o autor lembra que a Igreja deve ser um lugar de graça, onde pessoas perdidas aprendem a conviver com outras pessoas desamparadas; um lugar de acolhimento para os refugiados da crise de sentido.

O secularismo, materialismo, individualismo, globalização, mídias sociais, a vida moderna, enfim, teria gerado uma falta de perspectiva de vida, e agora estas pessoas que se sentem perdidas estariam se aproximando do cristianismo em busca de resposta. Por isso o alerta que o autor faz, para que as igrejas estejam prontas para acolhê-los.

O interessante da obra é que, embora se baseie na situação de países como Inglaterra e Estados Unidos, tem-se o registro, em livro, da percepção sobre o crescimento de canais do Youtube, podcasts, sites, todos os meios de comunicação, falando sobre o cristianismo. Deus voltou a ser lembrado e defendido. E, segundo o autor, seria a resposta para os refugiados da crise de sentido da vida.

Imagem: Jon Worth/Wikimedia Commons

Sobre o autor

Regilena Emy Fukui Bolognesi

Juíza Federal. Integrante do Grupo de Pesquisa Ateísmo e Apologética do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. Mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Filiada da Associação Brasileira de Filosofia da Religião - ABFR.