
Cada vez o estudo científico da Cabala judaica vem despertando interesse de amplos públicos ávidos por um conhecimento ancestral e milenar. O que a Cabala propõe? Ela é um estudo sobre a interpretação da Torah, particularmente, os primeiros versículos da Bíblia contidos no Livro do Gênesis. O que há de surpreendente que mesmo hoje em dia nós nos dedicamos a interpretar? Talvez ali esteja também parte de toda a espécie humana independentemente dos credos e religiões. Contudo, não se deve esquecer o quanto o Gênesis está, impreterivelmente, atrelado a emoções e pensamentos individuais de cada ser humano.
O estudo da Bíblia parece muito maior do que podemos entender por poucas palavras. Mais do que isso, o estudo da Bíblia gerou um adensamento de comentários que geraram duas tradições distintas dentro do judaísmo, uma parte da tradição halachika (costumes orais e mandamentos) e outra parte mais mística. Em ambos os casos vemos a figura de Rabi Akiva e seu eminente discípulo Shimon bar Yochai. A história deles se cruza com o nascimento desses escritos que não estavam ligados diretamente aos escribas da Tanach (Velho Testamento) hebraica durante o primeiro século da era comum. O que advém desse movimento pode ser visto como uma renovação do entendimento que havia sobre o mundo judaico e mesmo sobre as antigas tradições. O rabinato nasce e ao mesmo tempo ele vem com uma carga de influências místicas guardadas de geração a geração.
Nós podemos denominar essa influência mística judaica no berço da tradição rabínica como Cabala. Cabala também é um ensino sobre como aprender a receber a Torah e seus mandamentos (mitsvot). Para nossa sorte essa tradição não foi esquecida. Pelo contrário, ela foi exercitada em diferentes escolas. Nós podemos conhece-las pelo trabalho de Scholem em As grandes correntes da mística judaica, de 1941. Ali podemos enxergar alguns dos questionamentos mais fulcrais do judaísmo místico ao serem expressos em algo profundamente misterioso e de cunho hermético. O questionamento sobre quais são as relações entre homem e Deus surge. Scholem está diante de métodos de interpretação histórica, porém, ele o faz dentro de textos consagrados ao misticismo, ou seja, um tipo de conhecimento que não compreendemos racionalmente ou pela experiência ordinária dos sentidos. A Cabala propõe um lugar particular dessa outra forma de pensar/sentir o mundo, mas não consegue uma resposta de cunho universal.
Scholem não está sozinho em sua busca, pois seus melhores amigos parecem estar nessa mesma esteira de reflexões. Entre 1916-1917, ele conheceu Martin Buber e, mais importante, Walter Benjamin, o qual teria uma profunda influência na trajetória intelectual de Scholem, como vemos em sua Correspondência com Walter Benjamin e no livro Walter Benjamin, a história de uma amizade. Scholem observa o quadro de Paul Klee, Angelus Novus, de 1920, quadro esse comprado por Walter Benjamin. Como esse quadro parece estar tão impregnado dessa experiência de ver um anjo… exterminador! Kafka faz referência a esse anjo em suas cartas, não menos importante para designar elementos de crise diante a ruptura com um mundo entre guerras… o quanto prenuncia catástrofes. Monstros como o Golem de Praga retornam a serem contados em histórias como no livro de Gustav Meyrink e o filme dos diretores Paul Wegener e Carl Boese. Quantas sombras recolhidas em momentos conturbados.

