Sala Gershom Scholem

Quem foi Gershom Scholem

Gershom Gerhard Scholem nasceu em Berlim em 5 de dezembro de1897. A família Scholem vivia em Berlim desde o início do século XIX. O pai de Gerhard, Arthur, era um judeu assimilado e nacionalista alemão, bastante comum entre os judeus de classe média de Berlim naquela época. Arthur Scholem tinha um negócio bem-sucedido como impressor e foi lá que Scholem foi exposto aos livros pela primeira vez, ainda muito jovem. Gershom tinha 4 irmãos.

Sem educação judaica antes de sua virada sionista em 1911, o adolescente Scholem começou a aprender hebraico e a estudar o Talmud em uma das escolas comunitárias de Berlim. Em 1915, ele estava mergulhando em qualquer obra cabalística que pudesse encontrar, embora admitisse entender muito pouco. Ao longo de sua vida, Scholem permaneceu um secularista comprometido, e o secularismo desempenhou um papel importante em sua interpretação da história judaica e no estudo da Cabala, ainda que ele fosse filiado ao movimento judaico liberal Brit Shalom, a partir de 1922, e considerasse a si mesmo monoteísta.

Inspirado por seu sionismo radical e total desdém pelo nacionalismo alemão, Scholem expressou forte oposição à Grande Guerra (e posteriormente ao nacionalismo de forma mais geral), uma crença que ele manteve durante toda a sua vida e afetou seu sionismo mais tarde. Scholem então entrou para a Universidade de Berlim com interesse em estudar matemática pura, que ele seguiu por alguns semestres antes de decidir que não tinha talento suficiente para ter sucesso. Foi nessa época, em 1917, que Scholem escolheu imigrar para a Palestina e o resto de sua educação na Alemanha foi voltado para esse fim.

Como era comum entre os jovens universitários na Alemanha, Scholem frequentou várias universidades. Ele acabou em Munique, onde voltou sua atenção para sua dissertação. Ele produziu uma tradução e uma versão anotada de um dos primeiros livros cabalísticos o Livro da Iluminação (Sefer ha-Bahir), defendendo com sucesso sua dissertação em janeiro de 1922 e se formando summa cum laude.

Após a formatura, Scholem colocou toda sua energia em sua imigração e em meados de setembro de 1923 partiu para a Palestina sem nenhum plano concreto sobre como se sustentaria. Logo após sua chegada, ele recebeu uma oferta de uma posição como bibliotecário da “Seção Hebraica” da recém-fundada Biblioteca Nacional, conectada ao que se tornaria a Universidade Hebraica em Jerusalém. Foi nessa posição que Scholem começou a coletar e catalogar as centenas de manuscritos cabalísticos nos quais poucos tinham interesse e menos ainda conseguiam ler.

Ao final da década de 1930, Scholem recebeu um convite do Instituto Judaico de Religião na cidade de New York para dar uma série de palestras sobre o misticismo judaico. Ele aceitou o convite e escreveu as palestras em inglês. Essas palestras foram posteriormente publicadas no livro As grandes correntes da mística judaica, em 1941. Esse livro oferece o primeiro vislumbre de seu trabalho sobre o sabataísta, baseado no pensamento do cabalista Sabbatai Tsvi, no qual Scholem alegou ser uma forma herética, mas não necessariamente desviante, do misticismo judaico. Já no início de sua carreira, Scholem sustentou que a Cabala é uma teologia que requer uma lei normativa (tradição), sempre em tensão dialética com essa lei.

No ano de 1933, por sugestão de Rudolph Otto, a herdeira holandesa Olga Froebe-Kapteyn iniciou uma conferência anual em sua propriedade perto de Ascona, Suíça, que ficou conhecida como Conferência de Eranos. O objetivo deste encontro era reunir acadêmicos de diferentes tradições religiosas para discutir temas relacionados à religião e espiritualidade. Nos anos em que Scholem compareceu, Carl Gustav Jung foi uma figura central. Muitos dos temas nas conferências de Eranos refletiam o interesse particular de Jung em simbolismo religioso e mitologia na mística da Cabala. Outras figuras importantes incluíram Mircea Eliade e Henry Corbin, centrais nas discussões. Scholem publicou alguns desses ensaios nos anais anuais da conferência, o Eranos Yearbook. A melhor coleção de alguns desses artigos em inglês aparece em A Cabala e o seu simbolismo, de 1965. Esse livro representa a tentativa de Scholem de apresentar sua pesquisa a um público não especializado, mas com forte interesse em religião comparada e psicologia. Logo no início de sua carreira intelectual, Scholem se comprometeu com a erudição histórica crítica como um modo não apenas de entender o passado, mas de reconstruir o presente. Ou seja, história e filologia eram, para ele, a única base para qualquer teologia judaica legítima em um mundo que não podia mais sustentar o misticismo autêntico. Embora ele tenha escrito ensaios teológicos, pode-se argumentar que seus ensaios históricos/filológicos também tinham uma base teológica. Scholem cresceu em um mundo, tanto a Alemanha de Weimar, quanto o Mandato da Palestina, repleto de atividade intelectual, focado na reconstrução da vida e cultura judaica em torno do sionismo. A Universidade Hebraica, a qual começou como um “Instituto de Estudos Judaicos” em 1924, foi expressamente criada para esse propósito. Depois que recebeu sua nomeação de professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, ele permaneceu no cargo até sua morte em 1982.

Os estudos de Scholem

O trabalho de Scholem possui importância para a história da Cabala. Entre 1921 (ainda na Alemanha) até por volta de 1936, Scholem passou horas incontáveis ​​coletando e analisando todos os manuscritos cabalísticos que conseguiu localizar. Isso exigiu a ele viajar para várias bibliotecas na Europa. Assim que chegou à Palestina, ele se concentrou na crescente coleção de manuscritos hebraicos localizados na nova Biblioteca Nacional de Israel, em Jerusalém. Esse trabalho desgastante, árduo e tedioso criou um banco de dados para Scholem que serviria para toda a sua carreira.

Durante esse mesmo período, ele empreendeu uma série de revisões e ensaios altamente críticos sobre estudiosos anteriores que lidaram com a Cabala, a maioria dos quais foi publicada no periódico judaico-alemão O Judeu (Der Jude) e alguns no hebraico Cidade do Livro (Keriat Sefer), um periódico em Jerusalém. Essas primeiras resenhas de livros constituem uma parte importante, e muitas vezes esquecida, da carreira de Scholem. É aqui que ele se distingue de seus predecessores e desenvolve o início de sua abordagem historiográfica que só surgiria no próximo período de sua pesquisa.

Sua dissertação O Livro do Bahir (Das Buch Bahir) foi publicada em Leipzig em 1923 foi o primeiro trabalho em língua alemã sobre o livro cabalístico Bahir, de autoria de Nehunya ben HaKanah do século I a era comum. Suas primeiras publicações importantes após sua dissertação foram Kitvei Yad ha-Kabbala, 1930; Perakim le-Toldot sifrut ha-Kabbala, 1931; e Bibliographia Kabbalistica, 1927, todas obras bibliográficas examinando suas descobertas. Além disso, ele publicou mais estudos teóricos, como “Kabbalat R. Ya’akov ve-R. Yizhak [ha-Cohen],” 1927; “Ha-Mekubal R. Avraham b. Eliezer ha-Levi” 1925, 26 e “Die Theologie des Sabbatianismus im Lichte Abraham Cardosos” em 1928. Partes desses estudos apareceriam mais tarde em obras mais expandidas que tratam de vários períodos cabalísticos. Em suma, Scholem começou sua carreira editorial absorvendo primeiro todo o escopo da história da Cabala e então lentamente reunindo tudo desde o período mais antigo até o mais recente movimento chassídico. Scholem também fez comentários sobre o livro do Zohar, em 1949.

Sua importância além de todo esse desenvolvimento no percurso da Cabala parece se aprofundar justamente em uma história até então desconhecida do povo judeu em Israel. Essa nova historiografia judaica coloca a Cabala como centro de uma coalisão de fatores, tanto agregadores sobre a pertinência do povo judeu no mundo, como também imprime uma certa admoestação quanto as consequências de um poder desgovernado na mão de lideranças espúrias, como foi o caso de Sabbatai Tzvi, o autointitulado Messias, em 1666. A história de Israel estaria assim, impreterivelmente, unida a história da Cabala, desde muito antes do que se imagina. A luz para as setenta nações (Talmud, tratado Shabat 88b), cujo escopo está em Israel estar consciente de sua própria história, talvez ainda seja um ponto que desperte curiosidade a todo aquele que vá estudar a Cabala de modo sério e sem pretensões. A obra de Scholem é uma busca, também resultado da erudição do estudo linguístico e histórico, sobre um capítulo importante de toda a história da humanidade. Como escrever isso? Seria possível de fato escrever algo sobre o passado de uma ideia? E seus vestígios poderiam eles chegar até nós? Perguntas incessantes as quais Scholem nos interpela.

Scholem morre Jerusalém, em 21 de fevereiro de 1982, na cidade de Jerusalém, aos 84 anos de idade.