Isaiah Berlin: pluralismo e liberdade

Isaiah Berlin e David Hume – um elogio à moderação

Ao perceber a proximidade de sua morte, o grande filósofo escocês David Hume (1711-1776) escreveu uma pequena nota autobiográfica destinada à posteridade. Nela, Hume diz sobre si mesmo:

“(..) eu fui, digo, um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”

O maior expoente do ceticismo e empirismo britânicos não poderia deixar de ver uma grande vantagem em seu temperamento equilibrado, amigável, como ele mesmo deixa claro nesse texto. David Hume era nada inclinado às paixões doutrinárias, às guerras ideológicas viscerais, às crenças inabaláveis. Ele desconfiava profundamente de qualquer “verdade última das coisas”, em um tempo em que, na Inglaterra e adjacências, ainda proliferavam intermináveis dissensões religiosas pela posse da verdade.

Para Hume, a moderação era fundamental a um filósofo, a quem estivesse em busca de conhecimento. Entretanto, de modo algum isso significava que Hume entendia a razão humana como uma entidade separada das emoções e instintos humanos. Essa dicotomia entre razão e sentimento, entre alma e corpo, não era algo em que ele acreditava. Essa forte cisão que nos foi encalcada, e mesmo gravada, não o alcançou.

Todavia, não se trata da preciosa investigação do conhecimento, na qual David Hume se empenhou, ou sobre seu legado que quero falar. Por ora, basta seu temperamento. Primeiro, quero falar de outro grande homem, que viveu seus dias mais próximo de nós, e que viveu o século XX com intensidade, tendo presenciado todos os momentos terríveis desse período. Isaiah Berlin (1909-1997) foi, acima de tudo, um grande observador, intuitivo e prolífico. Deixou magníficos ensaios e impressões sobre temas e personagens caros à modernidade. Discorreu sobre as ideias políticas que inspiravam os ativistas do século XX, e não foram poucas as vezes em que foi colocado na berlinda por questionar tais ideias. Cético, manteve uma postura moderada ao longo de toda a sua vida, e jamais se empenhou em uma ideologia determinada. Não se filiou a nenhum partido, mas, quando achou necessário se posicionar, o fez sem se tornar irredutível, desconfiando sempre de suas próprias ideias.

Acima de tudo, Isaiah Berlin foi um homem de seu tempo. Nasceu em Riga, na Letônia, em 1909, que à época era uma província do Império Russo. Seus pais eram judeus, com raízes hassídicas, e, aos onze anos, em razão do quadro político causado pela Revolução Russa, mudou-se com eles para a Inglaterra. Lá, Isaiah cresceu, estudou, tornou-se professor em Oxford, e o mais inglês dos ingleses, embora não esquecesse suas origens.

Berlin deixou uma obra extensa e diversa – espalhada em inúmeros textos, conferências e entrevistas – que vem sendo apropriadamente organizada para publicação por seu editor e pupilo Henry Hardy, desde os anos 90. Pouco conhecido no Brasil, seus excelentes escritos, refinados e perspicazes, sobre pensadores russos do século XIX, Iluminismo, Romantismo, e a ampla variedade de temas e personagens históricos, são capazes de deliciar qualquer leitor que se interesse minimamente sobre esses assuntos. Dois ensaios específicos merecem ser citados, os que grassaram maior fama: O ouriço e a raposa, sobre a genialidade e conceito de História em Tolstói; e Dois Conceitos de Liberdade, no qual ele descreve sua renomadíssima classificação e diferenciação das liberdades em negativa e positiva.

O Historiador das ideias, como ele mesmo se autodenominava, viveu toda a sua vida acreditando na temeridade das grandes utopias que prometiam um mundo perfeito. O mundo, imaginado sem conflitos, em perfeita ordem, é um mundo desconhecido de nós; contudo, prontamente prometido pelas religiões e pelas ideologias, muitas delas defendidas fanaticamente. Berlin jamais se deixou seduzir por soluções absolutas, tais como as que foram sugeridas pelos totalitarismos do século XX. Manteve sim, durante toda sua vida, um verdadeiro horror às teorias políticas que pretendiam explicar para onde deveria necessariamente caminhar a História, teorias pretensamente científicas, quando, na verdade, eram de natureza profética.

Ao longo de sua vida, Berlin assistiu, não sem alguma melancolia, colegas, amigos e alunos serem enfeitiçados por essas teorias; que davam conta de explicar todas as mazelas do mundo, propondo soluções indefectíveis; que viriam através de revoluções inevitáveis, modificando completamente as configurações humanas e sociais. Divididos os intelectuais em “correntes de pensamento”, nem é preciso dizer que Berlin foi extremamente atacado por “não se posicionar”. Tanto os grupos intelectuais de Esquerda, quanto os de Direita, especialmente os mais radicais, se sentiam profundamente incomodados com suas ideias.

Berlin defendia algo que era incompatível com as correntes ideológicas de então. Não acreditava em uma única reposta para as grandes questões da vida, nem que houvesse uma única pergunta. Ele acreditava que os valores humanos eram muitos, como muitas eram as formas e objetivos de vida, e que nenhum valor, fosse igualdade ou liberdade, poderia ser colocado acima dos outros como solução dos problemas humanos.

Esse “não alinhamento” não impediu que Berlin apoiasse, e até mesmo se engajasse, em projetos e ideais de realização de médio e curto prazo. Foi sionista, favorável à criação do Estado de Israel, mas nunca foi um radical. Acreditava que o Estado de Israel era necessário ao povo judeu, e postulava a coexistência de dois estados, sem exclusão dos palestinos. Do mesmo modo, Berlin foi um liberal, no sentido político clássico, mas que percebia a impossibilidade da liberdade ampla e irrestrita, sem um sistema mínimo de justiça social. Ele pensava que a liberdade dos homens era fundamental para compor o mundo social e íntimo de cada um, e era o fundamento da responsabilidade consequente da convivência humana. Acima de tudo, acreditava que toda escolha política que privilegiasse um valor humano, implicava necessariamente em uma perda ou conflito com outros valores, e que essa condição trágica era inevitável para a humanidade.

Após uma longa vida, extremamente produtiva e feliz, Isaiah Berlin faleceu aos 88 anos, em 1997. Dez anos antes de sua morte, Michael Ignatieff, historiador e colaborador da revista “New Yorker” e “The New York Review of Books”, admirador do pensador, iniciou um trabalho de coleta biográfica, com entrevistas e preparo de material, que culminaram no livro publicado em 1998, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Anteriormente, já havia sido publicada parte da correspondência de Berlin. Com isso, não demorou para que, no final de sua vida, e logo após sua morte, chovessem críticas e julgamentos sobre as suas amizades e, principalmente, sobre seu temperamento, dito pouco posicionado, ou, melhor dizendo, nada parcial ou apaixonado. Não fora um típico intelectual que se mantivera enclausurado na universidade; Berlin teve uma vida social intensa e manteve amizades de vários matizes ideológicos, o que foi considerado muito pouco respeitável, sem uma posição claramente marcada, conduta imperdoável para os mais idealistas.

Logo após a publicação da biografia de Ignatieff, o famoso jornalista Christopher Hitchens escreveu um extenso ensaio a respeito do livro, criticando, de fato, não o trabalho minucioso do biógrafo, mas o próprio Isaiah Berlin. Nada menos do que a conduta de vida de Berlin foi atacada e julgada, por seus laços sociais e de amizade, a partir de declarações pontuais em suas cartas pessoais. Hitchens acusa ferozmente Berlin de falta de coragem e de opinião própria, desenhando-o como um grande covarde, que teria apoiado ações deletérias.

Entretanto, respire-se fundo e pousemos os olhos no jornalista, sendo impossível não nos atermos àquilo que ele mesmo professava nos dias de então. Notoriamente reconhecido por seu jornalismo de denúncia, febril e intimorato, Hitchens poderia ser chamado de tudo, menos de imparcial. Ele se orgulhava de sua vigorosa crítica a reputações consagradas (p.ex., seu livro-documentário sobre Madre Tereza de Calcutá). Hitchens era considerado um excelente articulista, curioso e sagaz, mas, principalmente, tinha certeza de que estava “do lado certo”: era marxista de formação e credo, anticapitalista e antiliberal. Sua maior acusação contra Berlin, concluída a partir da informação de que este manteve relações de amizade com pessoas ligadas ao governo americano, foi a de que o pensador teria apoiado a guerra do Vietnã e estava completamente comprometido com a ideia de que ela fora necessária.

Em seu artigo, Hitchens utiliza trechos selecionados da biografia de Ignatieff para dar respaldo às suas imputações, aumentando a importância de certas passagens, e mesmo ampliando até as raias da manipulação o que o biógrafo exprimiu. O jogo de retórica utilizado, através da apropriação dos sentidos ambivalentes da linguagem, de forma a inverter o sentido daquilo que fora primeiramente colocado na biografia, transforma virtude em motivo de vergonha, sobretudo quanto à moderação de Isaiah Berlin. Calculadamente, Hitchens utiliza do relato acerca da insegurança pessoal que Isaiah Berlin tinha, quanto ao valor de seu trabalho intelectual, e transforma essa característica em certeza em relação à posição política do homem.

A partir de cartas entre Berlin e Joseph Alsop, este último, um jornalista conservador e personagem importante no contexto político da guerra do Vietnã, Hitchens pressupõe que as relações entre eles significaram o apoio irrestrito de Berlin à guerra. Hitchens conjectura que este apoio se deveu ao interesse mesquinho de Berlin em empreender o novo Wolfson College, em Oxford, projeto final de sua vida, e que teve bastante ajuda de Alsop. Seguem-se afirmações de que Berlin se aproximava de Turgueniev, em pusilanimidade, e cita trechos de um ensaio escrito por ele sobre o autor russo. No mesmo artigo, Hitchens planta suspeitas sobre as relações de Berlin com os Estados Unidos e a Inglaterra, especialmente na questão judaica. Enfim, confere adjetivos como promíscuo (em suas amizades e ideias) e levanta dúvidas sobre a importância real dos ensaios do biografado. Tudo isso evidenciando sua antipatia e aversão às ideias de Isaiah Berlin.

O que se viu, claramente, é que Hitchens leu toda a biografia já procurando fatos e detalhes que pudessem confirmar tudo o que ele já imputava de perverso e desagradável em um pensador dito liberal. Contudo, a leitura atenta do texto criticado, mostra que ele ampliou e distorceu trechos, a seu alvedrio. Usou de um malabarismo interpretativo comum em demandas judiciais, onde a verdade já não mais importa e sim o ganho de causa. E Hitchens, nestes termos, foi um grande advogado de si mesmo, lutando fragorosamente por suas ideias, a qualquer custo. E ele tinha muitas certezas. Isaiah, talvez, não tivesse nenhuma.

Não está explícito, no contexto do livro, se Berlin, por ser amigo de pessoas que apoiavam entusiasticamente a Guerra do Vietnã, também professava essa mesma fé. É até possível que o seu anticomunismo o levasse a acreditar na necessidade da guerra, mas, ele não fez nenhuma manifestação pública nesse sentido. Fica evidente que, para Hitchens, Berlin somente deveria ser perdoado se tivesse tido um posicionamento público e engajado contra a guerra, tal como ele mesmo fez.

De todo modo, Isaiah Berlin foi o pensador que disse que os homens e o mundo são muito mais complexos do que as teorias políticas desejariam, e que não há vida isenta de erros de julgamento, de escolhas difíceis. Michael Ignatieff teve oportunidade de responder às críticas de Hitchens, no Jornal “The Guardian”, em janeiro de 2000, e o fez bem, deixando claro que o objeto do ataque era simplesmente a posição contrária de Berlin àquilo em que Hitchens acreditava, ou seja, era um exercício de argumentação para comprovação de sua própria virtude e inteligência superiores.

Pois bem, vinte anos se passaram desde essa pequena querela. Naqueles dias de 1998, quando Hitchens escreveu seu artigo acusador contra Isaiah Berlin, fazia menos de dez anos que o muro de Berlim havia sido derrubado. Estávamos nos aproximando do 11 de setembro, mas ninguém poderia imaginar. Estávamos ainda longe da forte onda identitária da esquerda, e Donald Trump como presidente era apenas uma piada dos Simpsons.

Após o artigo contra Berlin, e ao longo dos anos seguintes, a seu modo, Christopher Hitchens continuou sua luta pelo que acreditava ser o verdadeiro esclarecimento dos homens e dos fatos. Ele faleceu precocemente em 2011, aos 57 anos, mas, até sua morte, empenhou-se em convencer o mundo de suas certezas. Hitchens engajou-se em um ateísmo combativo e agressivo, o que projetou sua fama em grande escala. Ele também foi atacado por sua detestável (até para os mais próximos) homofobia. E, por fim, deitou muitas dúvidas quanto à sua posição política quando apoiou vivamente a guerra do Iraque, de forma explícita, pública e militante. Uma guerra que foi embasada em falsas informações a respeito de armas de destruição em massa, e que, logo depois, se revelou injustificada, para dizer o mínimo.

Hoje, época em que tantos, apressadamente, abraçam novas ideologias que prometem o fim das perversidades do mundo, e se arvoram na condição de baluartes de defesa do bem da humanidade contra os maus (isto é, daqueles que pensam de forma diferente dos baluartes) e ignoram quanto mal se fez – e ainda se faz – em nome de certezas aparentemente indeléveis; é de rigor procurar alcançar a boa ponderação, a busca de respostas com um quê de saudável ceticismo, o que Isaiah Berlin deixou em seus escritos, e em seu exemplo de vida.

Ler e conhecer o que Isaiah Berlin nos legou, e antes dele, o que o grande David Hume já sabia e ensinava, nos inspira a buscar a moderação das nossas paixões; a escutar verdadeiramente todos os lados de uma questão; a sentir uma profunda gratidão pela hesitação que antecede nossas ações; a ter humildade para enxergar o verdadeiro tamanho da nossa humanidade.

Bibliografia

HUME, David. The life of David Hume, esq. In: Delphi Complete Works of David Hume, Delphi Classics: United Kingdom, 2016.

IGNATIEFF, Michael. Isaiah Berlin, uma vida. Record: Rio de janeiro, 2000.

_________, The devil and the deep red sea, The Guardian, 22 de janeiro, 2000.

HITCHENS, Cristopher. Moderation or Death. London Review of books, Vo. 20, nº 23, novembro, 1998.

Imagem: montagem com Isaiah Berliln (Wolfson College/Oxford, 1940) e David Hume (litografia, 1829)

Sobre o autor

Adriana T. Beck

Graduada em Direito pela PUC-MG. Promotora de Justiça do Estado de Minas Gerais. Pesquisadora do grupo de pesquisa Isaiah Berlin: pluralismo e liberdade do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

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