Pensamento Público

Brasil encalacrado: um país perdido em seu labirinto de antagonismos

Resenha

Eles em Nós – Retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI

Livro de Idelber Avelar
Editora Record, 2021

(dedico esta resenha aos meus ex-alunos do ensino médio que estavam nas manifestações de Junho de 2013)


Para realmente existir liberdade de expressão e para que possamos olhar para o futuro, é preciso partir das verdades de fato. E nos últimos tempos, em várias partes do mundo, mais especificamente no Brasil, isso tem sido uma quimera. Muitos atores políticos, longe de considerarem o bem comum, distorcem os fatos a seu bel-prazer, o que torna a falta de responsabilidade com a própria atuação a norma, não a exceção. A falta de compromisso com os fatos, especialmente por aqueles que contam a história e analisam a realidade, leva às confusões em que apostam as visões de mundo mais retrógradas, que causam mais sofrimento. Não se trata de um erro aqui e outro ali, mas de um modus operandi que atravanca nossas possibilidades, e que ganhou forma de morticínio pelo negacionismo dos últimos 20 meses.

Foi para entender as coisas como elas são, sentindo incômodo por alguns que deixam a militância ocupar seu principal ofício a ponto de escreverem sobre o que não leram e desprezarem bibliografia básica e fonte primária, que me dediquei à leitura de Eles em Nós, livro de Idelber Avelar. Brasileiro de Minas Gerais, profissional das Letras, estudioso da literatura e cultura latino-americanas, professor da Universidade de Tulane, em Nova Orleans, Avelar é autor de vários livros, escreveu para publicações diversas. Em Eles em Nós, mergulha nos fenômenos políticos recentes do Brasil com a atenção aos atores e aos seus discursos, com um rigor primoroso. Não queira o leitor encontrar no livro facilidades de entendimento vendidas ao preço da indignação. A realidade é sempre complexa, sempre exige atenção distanciada, o que é cumprido magistralmente nessa obra. Portanto, além de seu necessário conteúdo para entender o Brasil das últimas décadas, temos a demonstração de como os fenômenos precisam ser observados se se quer realmente valorizar a coragem da compreensão, não a simples rotulação dos acontecimentos para que sirvam de chave interpretativa definitiva na busca de uma falsa calmaria por pertencimento a um grupo qualquer. Não é possível ter clareza se se confere a atores políticos, por covardia ou um pavor travestido de empáfia, o monopólio da virtude.

A avaliação do fenômeno que levou Bolsonaro ao poder não pode, segundo Avelar, cair no erro da negação, como se a eleição não tivesse sido legítima, como se a culpa fosse dos críticos do governo petista ou do “golpe”. Na verdade, o que fica mais evidente nas tentativas – em sua maioria tortas – de analisar o que realmente aconteceu, é a fuga do problema pela vitimização. Essa negação que investe em teorias conspiratórias, assim como faz o atual governo, é catastrófica. Como fuga ou como projeto, a indistinção entre verdade e mentira e a falta de pé na realidade que compromete a compreensão do passado mais recente atravancam as possibilidades de futuro. Como insiste Avelar, é importante eliminar as teorias que veem no bolsonarismo a expressão de uma fraude do WhatsApp ou um fascismo latente em 57 milhões de brasileiros. O autor de Eles em Nós encara a pergunta que muita gente se fez no final de 2018: o que aconteceu?

Idelber Avelar faz uma análise de discurso do período entre petismo/lulismo e bolsonarismo, sem a facilidade de considerá-los extremos de uma linearidade, a que ele se opõe veementemente, mas fenômenos políticos que precisam ser compreendidos em suas reais características, unidos pelo desgaste e falência do sistema político brasileiro. O ponto de inflexão foi Junho, que se tornou um substantivo por designar um acontecimento ímpar, da maior relevância, que deve ser tomado sem o imediatismo de ligá-lo diretamente à outra expressão que ganhou significado próprio, a Lava Jato.

O sistema político brasileiro, há muito estabelecido como um mecanismo de antagonismos, como bem explica Avelar, foi administrado pelo presidencialismo de coalizão, conceito cunhado por Sergio Abranches e burilado por Fernando Limongi, mascarado pelo pemedebismo, como o chamou Marcos Nobre, e diluído na metáfora do ornitorrinco criada por Chico de Oliveira. Esse mecanismo de antagonismos se tornou específico no lulismo, especialmente após o Mensalão. Havia uma necessidade de antagonismo, o que o lulismo fez adotando um jogo de oximoros, ou seja, a afirmação simultânea de opostos. Na prática, isso significava falar para apoiadores pela manhã e fazer o oposto à tarde. No exemplo repetido por Avelar, fazer um discurso inflamado contra a Globo para a base no início do dia e nomear Hélio Costa para o Ministério das Comunicações horas depois, ou difamar Marina Silva, chamá-la de “fundamentalista neoliberal”, para logo entregar a política agrícola a Blairo Maggi e fechar um acordo com Eduardo Cunha.

Um dos capítulos mais desconcertantes e contundentes do livro é o que trata da retomada do projeto da usina de Belo Monte, projeto este da ditadura, desengavetado por Dilma Rousseff com aval de Lula, um verdadeiro descalabro, um ecocídio realizado sem nenhuma consideração aos povos indígenas e às orientações de técnicos que criticavam e condenavam a ideia. Mas a retomada de projetos da ditadura, infelizmente, não se limitou à usina de Belo Monte. O discurso do “Brasil Grande”, do desenvolvimentismo, foi prática corrente dos governos petistas, retomado especialmente do governo de Ernesto Geisel.

A prática oximorônica do lulismo manteve a cooptação dos movimentos sociais e serviu à construção do “eles”, adversários, inimigos e antagonistas, como contrapartida ao Mensalão. Avelar nos lembra das campanhas virulentas de difamação contra mulheres críticas ao lulismo: Marta Suplicy, Marina Silva e Miriam Leitão. Marina Silva e Geraldo Alckmin, eventuais adversários em disputas eleitorais, foram chamados de “fascistas”. A prática dos oximoros como giros retóricos, escolhidos como recurso aos antagonismos do sistema político brasileiro, e a crise econômica no governo de Dilma Rousseff criaram uma antinomia, um impasse explosivo.  

O recurso aos oximoros quebrou em Junho de 2013. Junho foi um levante de indignação popular, múltiplo, singular, disperso e surpreendente, que expôs uma rejeição aos mecanismos do sistema político. Em pouco tempo a efervescência já havia ultrapassado a questão do preço da passagem de ônibus. Houve repressão violentíssima em São Paulo. No dia 20 de junho, foram às ruas as maiores multidões da história do Brasil. Só dias depois do início dos protestos, a presidente Dilma Rousseff respondeu e essa resposta política foi punitivista.  

Mas esse acontecimento não pode ser culpado por consequências que ele não desencadeou. A Lava Jato domesticou e capturou as reivindicações de Junho, deslegitimando o sistema político, tornando possível a abertura para a polarização. No contexto de impotência do sistema de partidos e do desequilíbrio das instituições – fenômeno conhecido, que abre caminho para extremismos – os giros retóricos do lulismo foram apropriados pelo bolsonarismo a partir de 2016/2017. É nesse período que tem início a formação do que o autor chama de partidos, cada um colaborando para viabilizar a candidatura de Jair Bolsonaro.

Foi o arranjo entre os Partidos do Boi, Teocrata, da Ordem, do Mercado e dos Trolls que viabilizou o caminho de Bolsonaro à presidência. Avelar esclarece e alerta que de nada servem teorias do ódio ou da fraude, simplificações que não dão conta do bolsonarismo que é, segundo o autor, “uma coalizão, um bloco, um mosaico que se constitui a partir de elementos heterogêneos e que veio expressar algo que se gestava como demanda para uma parcela da população brasileira”. Para o autor, o bolsonarismo “não é compreensível com as categorias derivadas da falsa consciência”, ou seja, não se trata apenas de identificar o ressentimento e a conivência de seus eleitores e apoiadores com o discurso simplificador da realidade. Há uma incapacidade do sistema político brasileiro de lidar satisfatoriamente com antagonismos, e o bolsonarismo é a expressão dessa incapacidade.

O livro foi lançado em março de 2021. Agora, quase às portas do ano eleitoral, o desafio de lidar com os antagonismos permanece. Ainda é cedo, mas, infelizmente, retomar e se debruçar sobre as demandas de Junho, o que efetivamente se deveria fazer, parece uma esperança difícil de sustentar. A disputa entre patrimonialistas e magistocratas ainda dá as cartas. Livros essenciais como Eles em Nós são esforços para que os fatos e a genealogia complexa dos fenômenos políticos recentes não sejam esquecidos. Reitero que é só a partir dos fatos que formam a complexidade de nossa experiência que podemos vislumbrar um futuro decente.

Imagem: divulgação

Sobre o autor

Adriana Novaes

Pós-doutoranda do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP. Coordenadora do Grupo de pesquisa “A filosofia em Hannah Arendt: significado e experiência viva” do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. É autora dos livros O canto de Perséfone, Hannah Arendt no século XXI e Cultivar a vida do espírito.