Hybris

Rugosidades filosóficas


Por mais que meu conhecimento em física seja irrisório, vou me arriscar a citar um interessante conceito dentro do seu vasto universo para depois tentar usá-lo como uma metáfora para o modo como a filosofia e as artes têm sido tratadas no mundo contemporâneo.

O conceito que busco evocar neste texto é o de rugosidade, isto é, pequenas imperfeições em superfícies que explicam o atrito e a resistência que existem quando duas coisas se encostam. Caso as rugosidades não existissem, não haveria resistência nem atrito (acredito eu) e as coisas passariam a deslizar umas sobre as outras sem aderência alguma. Podemos notar isso ao pensarmos em como é fácil deslocar algum objeto sobre uma superfície de gelo, com pouquíssimo atrito, e a dificuldade que deve ser tentar arrastar algum objeto sobre o asfalto. Muito bem, dada esta pequena definição, vem a fatídica pergunta: mas o que isso tem a ver com a filosofia?

De modo concreto, nada, mas em uma perspectiva metafórica, talvez possamos nos arriscar a utilizar este conceito para nos referirmos a densidade das obras filosóficas e o seu grau de palatabilidade para com a maioria das pessoas que se arriscam a entrar em seu universo.

Assim como a física identifica que há superfícies menos rugosas e por definição mais lisas, e outras que são mais rugosas oferecendo mais resistência e atrito, de igual maneira podemos dizer que na filosofia e nas artes temos obras mais superficiais que beiram o entretenimento e a banalidade, ao passo que também existem as que são mais densas e inacessíveis ao grande público, estando restritas a leitores mais atentos e iniciados.

No entanto, devemos reconhecer também, que existem aquelas que estão no meio termo, ou seja, elas não se esgotam no senso comum, mas também não chegam a ser clássicos que merecem o debruçar das melhores mentes e serem revisitados por séculos. Este terceiro tipo de obra que sinalizamos agora apresenta uma preocupante contradição interna, na medida em que ela serve de acesso para um público leigo que está se aproximando pela primeira vez de obras mais complexas, ela também pode gerar uma sensação falsa de grande profundidade, como se não fosse possível avançar além dela em um debate.

Isso se torna realmente problemático em uma sociedade de consumo que perde suas referências críticas ao colocar em uma mesma prateleira de uma livraria Shakespeare e novos autores “clássicos” que não fazem outra coisa que utilizar fórmulas e clichês para expressar ideias superficiais e batidas sobre temas da moda, isto é, escritores medíocres que não são percebidos como medíocres por conta de um público ignorante que não é capaz de olhar para esta mesma prateleira e distinguir um clássico verdadeiro de uma tentativa medíocre de comunicar algo.

Esta crise não se deve apenas a uma indústria cultural que substitui a cultura elevada por produtos de segunda mão, mas também por um marketing que busca convencer seu público de que tudo o que ele está consumindo é um verdadeiro clássico profundo, espetacular e obrigatório, como se ele não precisasse ler um autor como Homero para de fato encontrar uma obra como essa, mas pegar um livro qualquer de uma estante que oferece sempre “as melhores opções”. E assim caminhamos para a filosofia, as artes plásticas, as histórias em quadrinhos, a música e o cinema. Sempre há um advogado de uma obra ou um autor pronto para defender a genialidade de uma obra com os melhores argumentos, até recorrendo a grandes ideias e conceitos.

É evidente que essa impossibilidade de distinção da mediocridade para a excepcionalidade gera uma crise não só no público consumidor de cultura como no próprio debate público, que acaba tendo que se fixar na frágil rugosidade filosófica de obras que não têm tanta aderência quanto parecem ter, fazendo com que as pessoas fiquem debatendo ideias pobres ou forçando conceitos complexos em cima destas para tentar conferir algum grau de grandiosidade para a discussão.

É importante salientar que uma coisa é discutir o papel que uma obra tem em um contexto e sua significância para uma questão mais ampla, e outra é usar da própria obra como fonte e finalidade para o debate. No primeiro caso utilizamos uma obra como a documentação de uma visão de mundo para estudar esta visão como um objeto a ser criticado em um cenário mais amplo, como usar filmes de super-heróis da Marvel para compreendermos a Hollywood contemporânea, já no segundo caso é tentar usar Barbie para discutir a condição da mulher. O problema está no segundo caminho, pois ele não consegue localizar a obra em um panorama geral e ter distanciamento crítico, ele apenas reproduz cegamente suas ideias.

“Mas qual o dano que o ‘mal gosto’ pode causar para a sociedade?” alguns podem se perguntar, e a resposta é simples: utilizar séries da Netflix para educar em escolas. Reitero, não sobre o primeiro panorama que evocamos acima, mas sobre o segundo. Eis a falência da hierarquia da cultura e da filosofia, quando a indústria cultural passa a educar tanto quanto um professor. Neste ponto compreendemos a importância de ler os clássicos nas escolas e não os misturar com literatura medíocre que tem como objetivo construir “manuais” para solucionar os problemas do mundo.

Encerro este texto recomendando o complexo e maçante “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil, um clássico absoluto que o século passado nos rendeu. Em grande medida este grande romance filosófico debocha das pretensões da racionalidade em produzir leituras sofisticadas sobre o mundo. Boa parte do livro se passa em salas cheias nas quais pensadores de notoriedade pública vomitam suas convicções vazias sobre um futuro incerto, todos eles estavam à beira a Primeira Guerra Mundial sem se darem conta deste fato. Talvez o debate público precise de mais livros como este para saírem da adolescência.

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Sobre o autor

Francisco Etruri Parente

Bacharel em cinema pela FAAP, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especialista em filosofia pela Universidade Estácio de Sá. Autor e professor universitário. É coordenador do grupo de pesquisa Teoria Crítica e Sociedade do Consumo, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também realiza estágio de pós-doutorado.