Hybris

Fake News: a condição da comunicação contemporânea


Nos últimos anos os temas da pós-verdade e da fake news se tornaram populares no debate público, sobretudo no campo da comunicação política; muitos daqueles que atuam no debate público os consideraram como maus a serem combatidos, como anomalias do bom jornalismo. É evidente que este problema também serviu para que os conglomerados de comunicação se fantasiassem de heróis da moral e dos bons costumes que servem à sociedade em uma espécie de sacerdócio kantiano, algo absolutamente ridículo para qualquer um capaz de ler as nada sutis entrelinhas do jornalismo contemporâneo. Mas, o que parece que não foi percebido pela grande maioria da inteligência pública é que estas informações falsificadas e o intenso relativismo que vemos nas bolhas das redes sociais não são a exceção do mundo comunicacional contemporâneo e sim a sua condição.

Os leitores mais atentos logo pensarão, e com razão, no processo desnorteador da pós-modernidade. De fato, não podemos trazer à tona a pauta epistemológica na contemporaneidade sem passarmos pelo crivo pós-moderno enquanto um processo de descredibilização da modernidade, isto é, de lançar um olhar crítico e melancólico sobre os métodos utilizados e os resultados atingidos pelo mundo moderno. Afinal, do que adiantaram o Iluminismo e a racionalidade cientificista se a humanidade ganhou guerras ainda mais terríveis, extermínios ainda mais mortíferos e um avanço do poder sobre os corpos e os espíritos ainda mais radical e eficiente?

É essencial entendermos que a pós-modernidade não é simplesmente um novo paradigma histórico que se formou dadas as frustrações diante das promessas não cumpridas da modernidade, e sim uma reconfiguração de subjetividades diante de um mundo ainda mais veloz, mais midiatizado e mais consumista que perdeu seu direcionamento. O relativismo pós-moderno vem da perda de uma práxis social que envolve uma ideologia norteadora e hábitos sociais adquiridos para consolidá-la; neste novo período os indivíduos vivem sob as regras do consumismo nas quais tudo é válido, em que qualquer coisa é permitida e pode ser convertida em capital, logo seu olhar epistemológico sobre o mundo é pautado nesta prática relativista que estranha qualquer direcionamento cerceador desta mesma lógica. A epistemologia se concretiza nos fundamentos materiais de uma sociedade, ela é apreendida e replicada sobre a realidade a partir de habitus intelectuais apreendidos e estimulados no interior de uma sociedade.

Para não perdermos o fio da meada e continuarmos neste interessante pensamento que encerrou o parágrafo anterior, vamos introduzir o complexo conceito flusseriano de pós-história, o outro fundamento das fake news. Para Vilém Flusser, o processo de modernização do mundo passava pela criação de tecnologias que teriam o papel de registrar o mundo e lhe conferir uma “existência social”. Ou seja, a partir do dispositivo fotográfico e sua importância na comunicação de massa, a relevância dos fatos em si perderia relevância diante do registro destes, isto é, a fotografia de uma coisa teria mais valor do que ela em si. Isso se deve pelo fato de o acontecimento ter uma existência isolada e apartada da realidade social mediada pelos meios de comunicação de massa, ao passo que quando fotografada ganha uma existência pública, mas que tem seu fundamento ontológico em empresas de comunicação privadas.

Para Flusser, o mundo pós-histórico não era mais capaz de pensar os fatos e acontecimentos como processos, de maneira histórica de causa e efeito, de maneira lógica, e sim como entes que só podem existir a partir de simulações de máquinas, a partir do seu registro maquínico. Pensemos, por exemplo, em catracas que marcam a entrada e a saída de pessoas do trabalho, ou mesmo o dinheiro que existe mais como uma simulação de softwares financeiros do que uma riqueza real e concreta. Neste mundo descrito por Flusser não há diferença entre uma maçã e a imagem da maçã, pois ela só irá existir em nosso imaginário enquanto imagem e nós só a compraremos e a consumiremos porque antes entramos em contato com sua imagem.

Neste sentido, as notícias não precisam ter de corresponder a uma factualidade concreta do mundo, pois ela só existe para nós enquanto linguagem produzida por máquinas e aparelhos. Aqui retornamos a ideia de uma epistemologia fundamentada na experiencia material histórica, afinal, se nossas mentes estão acostumadas a aceitar como realidade tudo aquilo que nos aparece enquanto imagem midiática, sem grandes fundamentos, sem uma lógica fundamentada, sem um pensamento crítico esclarecedor, como poderíamos resgatar o mesmo ato crítico de desmistificação do mundo que marcou a filosofia antiga e a filosofia moderna? Eis a missão da filosofia contemporânea, combater a nova “magia” dos aparelhos mistificadores da indústria cultural e dos seus filhos digitais. Mas que força tem o esclarecimento em tempos de cinismo institucionalizado?

Sendo assim, retornando a questão que abriu este ensaio, é um equívoco nos dias de hoje considerar as fake news e os efeitos da pós-verdade como uma anomalia da comunicação contemporânea, pois diferentemente do que pensa o senso comum, a lógica que rege a mídia não é de um fluxo de informações verdadeiras e fundamentadas que chegam até seus espectadores que as leem e acreditam nelas por verificarem o seu grau de veracidade, e sim o contrário, a grande maioria das informações são simples imagens superficiais mistificdras e alienadoras, nós acreditamos nelas por estarmos seduzidos pela espetacularização de mundo, seu fundamento são as imagens eletrônicas, e o conforto do relativismo consumista onde floresce a pós-verdade.

Afinal, se pararmos para pensar, as fake news são idênticas às notícias “verdadeiras”, elas têm o mesmo grau de profundidade, a mesma estética, o mesmo storytelling, as mesmas ideias a mesma forma, absolutamente gêmeas, só lhes falta uma única coisa: a factualidade concreta. Mas, convenhamos, em um mundo pós-moderno, pós-histórico de pós-verdade qual relevância pode ter a realidade?

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Sobre o autor

Francisco Etruri Parente

Bacharel em cinema pela FAAP, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especialista em filosofia pela Universidade Estácio de Sá. Autor e professor universitário. É coordenador do grupo de pesquisa Teoria Crítica e Sociedade do Consumo, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também realiza estágio de pós-doutorado.