
Marcador de comportamento é postar no feed do Instagram em quem se vai votar. É uma decisão que não esconde a falta de constrangimento de se mostrar crente na política. O mais curioso disso tudo é que tem gente que acha que está abafando na defesa de algum tipo de causa justa: sair por aí vestindo uma camisa de um partido como se fosse óbvio que você está do lado dos bons é um esculacho que faz corar todos os que estão prestes a adentrar no inferno. E se algo restasse de preocupação genuína, melhor seria manifestar a sua intenção de voto num quarto e com a luz apagada. Alguém poderia dizer que a exposição pública do voto é um atentado ao pudor. Mas, deixemos de lado, porque estamos até aqui de caçadores de bruxas.
Virtuosismo moral (grandstanding) é o nome dessa atitude que emula virtude sem que ela exista. Um amigo meu costuma lembrar que toda virtude é silenciosa e ele está muito certo. Mas quem iria suportar viver sem fazer alarde de si próprio, evitando expor uma coisa tão inútil quanto em que se vai votar? Em um ou outro caso, ganharíamos todos se o silêncio fosse preservado e se nem déssemos conta em quem tal pessoa iria votar. Ficaríamos livres do climão que muita gente tem vontade de pregar em cada um de nós.
O ativismo não tem mais nenhum apelo mobilizador, a não ser de si próprio ou como meio de impulsão barata de algum interesse escuso. E no mais, supor que se esteja fazendo algo de construtivo a partir da exposição de seu voto pode contribuir para que essa lembrança seja associada a algo de pejorativo. Tudo isso, é claro, não é sequer levado em consideração pelos exibicionistas políticos até mesmo porque eles estão declarando cumplicidade com o meio social que compartilham, em que são recompensados por atitudes tão ou mais toscas do que essa.
O que reside de lastro nesse comportamento vem de uma recuperação simplista de décadas passadas em que na ausência do contato com o ceticismo, se supôs como verdadeiras todas as campanhas que eram feitas como se fossem, de fato, a partir de corações e mentes. Tudo isso, somado à oportuna ignorância dos acontecimentos de um passado mais distante e que já dispunha a luta pelas causas como um dos momentos rumo à decepção. Sem esse aparato crítico, viver para confirmar que se estava certo desde os 17 anos de idade costuma ser o aparato que justifica deixar-se levar pela ausência de constrangimento em parecer ridículo.
Sabe-se que os tempos mudaram e que quem empunha as bandeiras de uma facção política o faz para receber alguma quantia, mesmo que a maioria daqueles que investem pesado não queiram nenhum tipo de publicidade. Para os inocentes úteis que combinam as suas roupas com as cores do partido, nada vai constar quanto a esse tipo de preocupação que une os diferentes tipos de crime que nos cercam, sejam ilegais ou não.
Há uma geração entre nós que não pode se desgarrar de seus patuás, aqueles que foram forjados sob o som dos gospels profanos de anos atrás e que costumavam compor as narrativas baseadas nos delírios rousseaunianos. De tal modo, faz todo o sentido acreditar que se possa defender alguma orientação política como se ela fosse herdeira dessa tradição idealista. Quer uma dica? Veja os dramas políticos filmados nas décadas de 60 e 70 e entre no clima.
Tudo isso cabe na singela exposição da intenção de voto nas redes sociais? Creio que sim, quando se parte do ponto de vista de que não há inocentes que concorrem na política e que já há muito se nublou a paisagem romântica em que se acreditava. Imagine que já se deu crédito ao conto de fadas de que é possível compor a caixa de um partido através da compra de adesivos e bottons.
Manifestar publicamente o apoio a um candidato sem que se disponha de algum disclaimer é valer-se de um salvo-conduto tácito de que alguma coisa tenha resistido à terra arrasada em que a política transforma tudo o que toca. No entanto, pode bem ser que nada disso seja explicitado pela face da moeda que nos é apresentada e o desejo de exposição venha a corresponder a outros tipos de estímulos. No mais das vezes, dispomos em público as nossas idiossincrasias como se elas fossem qualidades positivas e as redes sociais estão aí para demonstrar que o horizonte é vasto para quem aspira por uma migalha de atenção.
Dependendo do público que se pretende alcançar, capitaliza-se até as maiores tragédias como meio de comprovação obsessiva de que se esteja no caminho certo, de tal forma ficamos sem saber se as pessoas militam contra ou a favor das guerras e de todos os indícios milenaristas de que o fim do mundo está próximo. O que restará delas se não existirem mais causas para chamarem de suas?
Estivéssemos falando aqui da política como se ela fosse uma alegoria, contemplaríamos uma entidade que trata a todos com crueldade, mas que concede apenas o desprezo para aqueles que não resistiram ao impulso de transparecer algum tipo de fidelidade a ela.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

