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O interesse fala todas as línguas?

O voluntarismo na defesa da democracia esconde interesses e preconceitos ainda que não manifestados. E isso não deveria nos surpreender uma vez que o entendimento tácito sobre a democracia vem a transformá-la em instrumento político, o que nos auxilia no entendimento do que acontece em meio à polarização em que vivemos. Esse sendo o quadro estabelecido quando nos deparamos com uma facção que, se conduzida ao poder, preservará a democracia e outra que irá instituir uma ditadura. Repaginar o que é complexo para formatá-lo em simplicidade é necessário e assumido num sistema de governo que aspira pelo respaldo da maioria da população, dentre eles os que podem ser vistos como eleitores profissionais e outros que sequer se interessam pelo que acontece. Com o tempo, o convívio com a prática democrática termina por evidenciar a percepção de que o circo da política conta com participantes bem definidos e específicos. E não é por mero acaso que para se estender esse assunto para um público mais amplo, ele tem que ser ajustado a um espetáculo que põe em foco cadeiradas e xingamentos ao vivo.

É necessário que tenhamos precaução e que não levemos em consideração a aparência de entrega desinteressada a um tema que está longe de contar com o interesse generalizado. O nível de dedicação à política tende mais a revelar o capital cultural que envolve seus participantes do que a pretendida pureza na defesa de posições virtuosas. O que se pronuncia acerca do tema da política vem a se configurar em um importante e revelador marcador de comportamento ainda mais quando temos consciência de que esse assunto tem a sua validade constituída por intermédio do poder. Não sejamos ingênuos a ponto de acreditar que quem defende a democracia esteja fazendo isso de fato.

Lembremos que há pouco consenso sobre os significados e sentidos da palavra democracia e resta recuperar que as lideranças referenciais sobre esse sistema político transitam entre Josef Stalin e Franklin Roosevelt. No âmbito da ciência política, acompanhamos a mesma coisa em relação à distância que pretende unir Rousseau e Montesquieu. É assim que no contexto de terra arrasada em que vivemos no ocidente, um conceito tão complexo como esse somente pode virar moeda de troca quando ele se configura em oportuno. Não estamos longe do que Alexis de Tocqueville já havia pressentido quando asseverava que a liberdade era um aspecto para o qual deveríamos nos voltar como se sagrado fosse, de tal modo ela se mantém imune à imergência das sentenças e opiniões mais corriqueiras e mesquinhas. Temos aqui uma situação propícia para se encarar as diferenças entre Platão e os sofistas. Para o primeiro, o percurso da busca da essência estaria justificado pelo mais puro interesse pela verdade e para os sofistas, o itinerário apenas revelaria um meio para a sobrevivência: a habilidade em elaborar falsos silogismos é apenas um recurso que atinge o seu objetivo quanto melhor vende a ilusão como se verdade fosse.

É a partir dessa recuperação que eu creio ser possível remontar o cenário da política que nos deparamos nesse instante de acirramento entre os polos partidários que se opõe. Ambos os espectros são constituídos por políticos profissionais que privam de um mesmo ambiente e que transitam pelos mesmos espaços de poder. A proximidade havida entre esses grupos em relação aos casos mais rumorosos de corrupção apenas os predispõe em lugares diferentes na fila, uma vez que o poder se sustenta na mais eficaz captação e provisão de recursos, sendo eles legais ou não. Não se trata de um equívoco ver na política de alto calibre a aproximação entre tudo o que mobiliza o grosso capital, sendo ele afeito ao petróleo, ao narco, jogos ou ao terrorismo internacional. De tal forma que pode ser por ressentimento que alguém se mostre publicamente na oposição a um lado e por interesse estratégico que defenda o outro.

Essa reflexão iniciou-se a partir do momento em que voltei a minha atenção para a abnegação manifestada por muitos na defesa da democracia. Pensei especialmente na prática do ativismo jornalístico. Vi então que o conteúdo produzido foi se transformando em propaganda política e procurei compreender o que estava acontecendo: imaginei como seria o nosso engajamento na política se a mídia nos informasse o bastante para que caminhássemos a passos seguros rumo à dúvida. Esse procedimento dedicado e experimentado no cotidiano poderia vir a compor um critério mais robusto com vistas à escolha em quem iríamos votar. Ao menos não incorreríamos no risco da banalização em que se entende que um partido é melhor do que o outro e que, de fato, apresenta tantas diferenças quanto aparenta. A suspenção do juízo em relação à política poderia nos impelir à busca de um critério mais fundamentado na técnica. E que vida difícil teriam os políticos se fossem julgados pelo que aparentam saber e por suas capacidades a habilidades de implementação de suas propostas.

Por um instante supus que o ativismo no jornalismo tenha a ver com o meio cultural compartilhado pela categoria desde a sociabilidade escolar até as futuras relações familiares e profissionais. Arrisquei-me a ver que uma troca de guardas na política conduz a uma desconfortável busca por outras fontes e contatos, sendo esse um problema bastante concreto para quem ganha o pão com a notícia de cada dia. Não deve ser fácil buscar caminhos de aproximação com pessoas detentoras de um horizonte cultural tão distante do que se está acostumado. O resultado dessa aventura de pensamento foi tal que apenas pude creditar aos interesses pessoais as escolhas e defesas que são manifestadas como se universalmente acolhidas pudessem ser. Pode-se revelar uma distinção autoritária na defesa da liberdade? E mais, esse comportamento se traduz em distinção de classe?

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.