Pensamento público

Epidemiologia e epistemologia

Luiz Felipe Pondé

Neste breve texto vou tratar do seguinte tema: a contaminação do debate epidemiológico atual no Brasil pela política e pelo medo, partindo da epistemologia (teoria da ciência). Meu objetivo é demonstrar, introdutoriamente, que faz parte da realidade científica lidar com, se acomodar ou eliminar elementos exteriores à ciência, mas que condicionam sua realização numa comunidade de seres humanos reais.

A contaminação da epidemia e do combate a ela por elementos estranhos à ciência, a saber, especificamente, embates políticos ou angústias da população, não é algo estranho à epistemologia.

Imre Lakatos (1922 – 1974), epistemólogo húngaro, enfrentando esses processos de contaminação da investigação e das práticas científicas, propôs um tratamento original e razoavelmente eficaz para entendermos essa contaminação e como lidar com ela.

Um dos temas mais caros à epistemologia é o problema da demarcação do que é científico e do que não é científico. No caso aqui especificamente tratado, o núcleo científico seriam as posições determinadas pela comunidade científica acerca do melhor curso de ação para lidar com a epidemia. Esse curso se refere desde a quarentenas, sua duração, sua negação, insumos, medicações, metodologias de pesquisa, condições do quadro médico e questões afins. O núcleo extracientífico seria a contaminação do núcleo científico por oportunismos políticos, medos, interesses econômicos, polarização ideológica, jogos partidários e afins.

Para Lakatos, a ciência pode ser compreendida como programas variados de investigação científica e não necessariamente complementares, compostos de um núcleo interior ao que ele chama de cinturão racional, e uma região exterior a este cinturão racional. Pressões contínuas provêm da área exterior ao cinturão racional para contaminar o núcleo racional da ciência. Essas pressões não são anomalias, necessariamente, porque a ciência é uma realidade histórica e social. O esforço é para que o componente racional não se deixe destruir pelo que é exterior a ele, assimilando, muitas vezes, elementos das regiões não racionais da vida científica, sem destruir ela mesma, ou, simplesmente, neutralizando-os.

Na prática, isso significa que a ciência se move num mundo concreto e não num mundo idealizado de métodos sem consequências no plano da vida real em sociedade. Na crise que estamos vivendo, quando um epidemiologista afirma que a quarentena deverá, nalgum momento, ser suspensa, de forma gradual e calculada, porque a maior parte das pessoas tem que entrar em contato com o vírus para estabelecer a imunidade de rebanho ‑ aquela que suplanta a epidemia, antes da vacina‑, muitas pessoas entram em pânico porque entendem, erroneamente, que ficar em casa por meses a fio, as protegeria definitivamente da contaminação viral, num sonho desesperado de que a epidemia passaria, enquanto você se esconde debaixo da cama.

Não, isso não é científico. A humanidade só sobrevive a uma epidemia (antes da vacina), quando a maioria já se tornou imune, e isso só ocorre com a contaminação da maioria das pessoas.

O medo e a ignorância quanto a esse fato são elementos exteriores ao cinturão racional que atrapalham o tratamento epidemiológico do drama. Por outro lado, pressões político-partidárias são outro exemplo de elementos exteriores ao cinturão racional que podem pôr em risco o tratamento epidemiológico do drama.

Mas, o que nos ensina Lakatos, é que a ciência se move nessa realidade e se molda a essa pressão. Por exemplo, cuidando para que a comunicação da necessidade de imunidade de rebanho não seja apresentada como morte certa para a maioria esmagadora da população, e, por outro lado, entendendo que, numa democracia, nada se faz sem composições político institucionais. Normalmente, esta segunda parte é vista como roubar no jogo, mas, dependendo da qualidade dos políticos envolvidos e das instituições existentes, o processo pode ocorrer de forma menos traumática e menos causadora de rupturas no tratamento epidemiológico do drama.

O que podemos concluir, brevemente, é que o medo das pessoas e as pressões político-partidárias, todos exemplos de elementos exteriores ao cinturão racional da epidemiologia, não necessariamente a danificam, se os agentes envolvidos ‑ sejam as instituições técnicas da saúde, sejam os quadros políticos institucionais‑, agirem de forma sem perder o foco que é a manutenção da operação dentro do cinturão racional. Quando o medo e a irresponsabilidade política se tornam majoritários, o risco de dano à racionalidade da ação científica se coloca no horizonte. Logo, bons comunicadores e políticos não oportunistas são, até certo ponto, tão fundamentais quanto o corpo médico e epidemiológico.

Sobre o autor

Luiz Felipe Pondé

Filósofo. Diretor Acadêmico do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.