$aúde 4.0

Verdades custosas (I) – Pandemias

A partir de agosto de 2014, quando começou o surto de Ebola na África Ocidental, produzimos de maneira emergencial uma variedade de versões no português de materiais para os diversos países da CPLP que faziam fronteira com a região afetada. Essa produção durou até mais ou menos o final da Rede ePORTUGUESe da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015.

Algumas das questões mais difíceis de lidar, principalmente no início da epidemia, foram os rituais fúnebres africanos em que os familiares todos abraçavam o morto e, em razão desse contato, morriam em seguida. Há dois documentários[1] feitos por profissionais de saúde e jornalistas que estavam apoiando a resposta in loco. Eles contam sobre a atuação estratégica de antropólogos que estudavam aquelas tribos e que mediaram o contato das equipes de saúde, viabilizando o cuidado oportuno e adequado para evitar que a epidemia se alastrasse para outros países no continente africano, assim como a sua migração para outros continentes.

É importante lembrar duas questões bastante essenciais para quem anda ansioso, depressivo ou em pânico (até fazendo piada com questões culturais por causa de brigas político-partidárias):

  1. muitas das soluções que todos os países estão adotando de forma variada, pois são todos contextos socioculturais, ético-regulatórios e político-econômicos distintos, vieram dessa sistematização de saberes feita pela OMS a partir destas experiências de casos de enfrentamento de adversidades através dos anos, registrada por profissionais e pesquisadores em ciências da saúde e biomédicas, ciências naturais, ciências humanas, ciências sociais, políticas e aplicadas – ou seja: precisamos colaborar e ouvir o que cada área tem a contribuir, para juntos decidirmos o que é mais adequado em cada contexto, para que se garanta sustentabilidade das ações e equidade no acesso a tais ações para o enfrentamento à Covid-19;
  2. o surto começou em 2014 e a vacina só foi produzida, para ser implementada de forma segura e eficaz, em 2019 – portanto: evitar ler muitas notícias sobre o assunto pode ser algo bom neste momento, uma vez que nem todos os pesquisadores e profissionais em saúde tiveram treinamento em comunicação sobre ciência e tecnologia e engajamento social com nossos trabalhos, restando muitos aprendizados para todos nós.

Às vezes, o mais difícil é saber exatamente como e por que alguns eventos acontecem, e aguardar. Não porque as pessoas não sejam capazes de compreender (porque o fornecimento de conteúdos estético-informacionais balanceados e em linguagem acessível, com o nível adequado de tradução de terminologias e conceitos, tornam compreensíveis quaisquer questões, por mais simples ou complexas que sejam, por todos os tipos de audiências), mas porque o conhecimento ainda não está completo o suficiente para que, como especialistas, possamos emitir afirmações consubstanciadas acerca dos fatos – evidências científicas, comprovadas e replicadas em diversos contextos. Portanto, o mais difícil, muitas vezes, é saber e informar apenas sobre as questões para as quais existem soluções e estratégias prontas para implementação, e contextualizá-las com explicações de ordem educativa, já que a maioria da população não entende nada – ou bem pouco – sobre imunologia, virologia, infectologia ou saúde pública. O inverso também é bastante válido. Compaixão é a melhor mensagem que podemos disseminar para todos aqueles que estão passando por jornadas pessoais de desespero, enquanto pesquisadores em laboratórios e hospitais mundo afora ainda estão trabalhando incansavelmente, com base em processos extremamente estritos e protocolares em ciência, medicina e saúde. O fato é que se leva um certo tempo para produzir tecnologias que sejam, ao mesmo tempo, seguras e efetivas para uma gama tão variada de pessoas quanto as nossas comunidades globais. Daí o termo ‘glocal’ para delimitar aquilo que Ilona Kickbusch[2] (Graduate Institute Geneva) claramente especificou como sendo fruto das comunidades locais em contextos globalizados, como é o caso da maioria da população mundial hoje.

Por isso, contamos com sua confiança em nossos incansáveis esforços e trabalhos colaborativos conjuntos para produzirmos informações, remédios e vacinas o quanto antes. Veja bem: já estamos acelerando diversas etapas, o tanto quanto é possível, para que possamos manter a segurança e a efetividade de nossos processos burocráticos e metodologias científicas e, ao mesmo tempo, viabilizar o clamor público pela saída de casa)… Talvez agora algumas pessoas estejam verdadeiramente compreendendo aquilo que sempre fizemos em nossos laboratórios, institutos de pesquisa e universidades por todo o mundo, e por que tudo isso leva tempo, demanda esses tipos de escrutínios técnico e regulamentar, além de verificações protocolares repetidas em diversos contextos sobre o fazer científico.

Talvez, agora, muitos pesquisadores compreendam a urgência de aprimorar suas habilidades de comunicação e trabalho com pesquisadores não profissionalmente treinados, como a ciência de cidadania vem demonstrando que sim: é possível transformar o fazer científico de maneira a torná-lo mais acessível, autovalidado pelos próprios usuários e financiadores, e mais sustentável, por exigir menos recursos de todos os tipos, tornando o processo mais rápido e participativo. O mais interessante, no entanto, é a percepção de que nada disso afeta o fazer científico em seu cerne, pois não há aquilo que muitos gostam de chamar de ‘ciência pura.’ A ciência de cidadania apenas aprimora e populariza os processos científicos, sem que pesquisadores de todas as áreas das ciências naturais, biomédicas, humanas, sociais, políticas e aplicadas tenham que excessivamente enfatizar e resguardar os limites entre suas atuações e a dos outros, ou sobre quem detém ‘a posse’ das tecnologias (informação e conhecimentos também são tecnologias – tecnologias leves/tecnologias sociais – processos)… Wow! Mind-blowing?

Encontramo-nos, agora, perdidos entre adotar medidas de afrouxamento do isolamento social ou manter, e talvez endurecer tais medidas, com a sua obrigatoriedade. Neste momento, precisamos compreender que os coletivos biomédicos – assim como coletivos profissionais de diversas outras áreas do conhecimento e setores produtivos – atuam de forma organizada, seguindo padrões de tomada de decisões informadas por evidências científicas, econômicas e humanísticas (ou chamadas evidências qualitativas de impacto organizacional e/ou social), com base em seus próprios contextos, que delimitam em que momento se torna oportuno que gestores disseminem verdades custosas para poder implementar estratégias que priorizem a saúde pública versus a privacidade em eventos de surtos epidemiológicos. De acordo com Jung Eun-kyeong (Centro Coreano de Controle de Doenças e Prevenção): “uma vez que a doença pode infectar outros, torna-se verdade que interesses públicos tendem a ser enfatizados mais que direitos humanos”[3].

Portanto, não há espaço para mentiras baratas em situações de pandemias, mas oportunidade estratégica e criteriosa para que tomadores de decisões dialoguem e cheguem a conclusões assertivas e consonantes sobre a disseminação de informações de forma balanceada e em linguagem acessível para populações, de acordo com aspectos socioculturais, ético-regulatórios e político-econômicos (g)locais.

Se ainda estiver se sentindo desamparado, lembre-se: há uma hierarquia no trânsito de informações entre os diversos países e organizações multilaterais do complexo das Nações Unidas, como a OMS. Estes fluxos de informações acontecem mais ou menos da seguinte forma:

  1. um serviço de saúde de alguma localidade começa a observar uma questão de relevância para a vigilância em saúde de seu município, região e/ou país e, consequentemente, relata o caso para as entidades de saúde de seu país, de acordo com o esquema de vigilância nacional. No Brasil, isso acontece de forma escalonada para a Secretaria Municipal de Saúde, que reporta para a Secretaria Estadual de Saúde, que, por sua vez, relata os dados agregados dos municípios de sua região administrativa para o Ministério da Saúde do Brasil, especificamente, para a Secretaria de Vigilância em Saúde;
  2. o país com uma situação de saúde de relevância internacional sinaliza para a OMS e, além de solicitar apoio estratégico, colabora com a entidade na gestão de surtos em outros países, no caso de pandemia, como acontece agora com a Covid-19;

III. isto posto, a OMS é o ponto de partida para a redistribuição de informações para potenciais países afetados; logo, se você quer informações bastante precisas e atualizadas sobre o contexto mundial, acompanhe os boletins diários da OMS;

  1. não obstante, todos moramos em uma cidade, numa região administrativa localizada num país, portanto, primeiramente, devemos observar as informações sendo disseminadas pelos Ministérios da Saúde do país onde estamos;
  2. o Brasil, por sua vez, é uma federação de Estados, repletos de municípios, cabendo às Secretarias de Saúde Estaduais a responsabilidade por organizar as ações em cada unidade da federação;
  3. cada cidadão deve, então, procurar as informações e seguir as orientações das Secretarias de Saúde Municipais;

VII. caso haja muitas instituições que ofereçam serviços de saúde em um mesmo município, é pertinente que cidadãos busquem informações precisas na assessoria de comunicação do serviço de saúde mais próximo de sua casa, para saber exatamente onde, quando e como buscar apoio, se necessário.

Se tiver tempo e interesse, leia o blog da Rede ePORTUGUESe desde agosto de 2014. Esse blog contém muitas informações sobre como algo parecido com o que estamos vivenciando já aconteceu em um passado bem recente com o Ebola, na África Ocidental, e sobre como, com paciência e confiança nas ações concentradas de todos, as respostas e soluções vieram em tempo oportuno!

PS: há muitas matérias sobre cultura e datas históricas relevantes para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) da qual fazemos parte – quem sabe você aprende algo sobre nossa história de comunidade global (ou glocal) que nem imaginava e isso não lhe traz novos horizontes sobre o pós-pandemia? É uma opção… Espero que gostem!

Leia a segunda parte deste artigo: Verdades custosas (II) – A $saúde 4.0

[1] THE FORTH. Ebola Virus and other Global Medical Crisis – Doctors without Borders (22 Fev 2020). Acessado em 14/04/2020. Disponível em: https://youtu.be/CKluUwPOP5M

SKY NEWS. Ebola Crisis: Special Report From The Front Line (10 Out 2014). Acessado em 14/04/2020. Disponível em: https://youtu.be/dVPF3SO0trU

[2] Kickbusch I. Global + local = glocal public health. J Epidemiol Community Health. 1999;53(8):451–452. doi:10.1136/jech.53.8.451

[3] VOX. The big lesson from South Korea’s coronavirus response. [10 abril 2020]. Acessado em 14/04/2020. Disponível em: https://youtu.be/BE-cA4UK07c

Imagem: montagem sobre originais NIAID e iStockPhoto

Sobre o autor

Sharmila Sousa

Biomédica, M.Sc. em Medicine, Science & Society pelo King’s College London, Mestre e Doutora em Ciências (Medicina) pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. É Embaixadora no Brasil da Research Impact Academy, e coordena o grupo de pesquisa $aúde 4.0, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.