Pensamento público

Atualidade e desafios de Hannah Arendt para o Brasil

Recentemente, foi a vez do presidente do Supremo Tribunal Federal citar Hannah Arendt. Jornalistas, políticos, diplomatas já fizeram menção a suas concepções, e ela permanece uma referência, geralmente em textos e discursos que têm por objetivo retomar conceitos caros à vida política. A relevância de sua obra para entendimento e estímulo à resistência ao mal se deve a alguns fatores que pretendo apresentar e esclarecer a seguir.

Arendt se dedicou à compreensão de um dos maiores horrores da história da humanidade, o totalitarismo (nazismo e stalinismo), fenômeno político do século XX que se caracteriza pela exclusão administrada de todos que possam atrapalhar seu projeto de domínio total. O estado policial de desconfiança generalizada define e elimina inimigos que ameaçariam a prosperidade à qual o país estaria destinado. É estabelecida uma ordem burocrática de uniformização dos seres humanos, de submissão absoluta a uma ideologia.

O problema é que, apesar da derrota dos regimes totalitários, os elementos que os constituíram e a estrutura social e econômica que tornou possível seu surgimento ainda moldam nossas sociedades ocidentais. Na era moderna, o desenvolvimento científico e tecnológico fez da ideia de progresso o sentido maior de toda ação e resolução. A lógica expansionista do imperialismo do século XIX se sobrepôs aos Estados e, na esteira do colonialismo, pavimentou a disseminação da desumanidade da escravidão nos campos de trabalhos forçados, de internação e de extermínio. A lógica de exploração e de expropriação de nosso sistema produtivo e de consumo desenfreado condena muitas pessoas à indigência e as afasta do acesso a direitos. Uma das piores coisas que pode acontecer a um cidadão é a perda dessa sua condição, ou seja, a impossibilidade de usufruir realmente das garantias legais que seu Estado deveria lhe proporcionar. Esse ser solitário e indesejável, sem quaisquer direitos, surgiu após a Primeira Guerra Mundial: o refugiado.

Arendt foi refugiada, apátrida por dezoito anos por ser judia. Foi crítica da assimilação, a negação que o indivíduo faz de sua própria condição religiosa, étnica, cultural para ser aceito em uma comunidade ou país. Pensem o que é abandonar origens e identidade – língua, costumes, crença, história – para ser considerado “alguém”, uma pessoa digna de alguns direitos.

Um dos conceitos mais importantes da obra de Arendt é o de pluralidade, que significa compreender a essência única de cada ser humano, consequentemente, o respeito necessário a cada membro de uma comunidade política. Somos todos iguais na diferença, diz Arendt, cada um de nós é único, tem sua natureza e lida com as condições específicas em que nasceu, cresceu e aprendeu. Da consciência de nossa unicidade, devemos reconhecer a de todos os outros. É pelo reconhecimento e respeito mútuo acerca das diferenças entre os indivíduos em uma sociedade plural, que é possível estabelecer uma prática política equilibrada e justa. Não é o pertencimento a grupos o que nos define, afirma Arendt. O que nos define é o uso único do conjunto de faculdades pelo qual podemos nos responsabilizar: as capacidades de agir, criar, pensar e julgar. E a consciência e o bom uso dessas capacidades são fundamentais para nossa vida política. É pelo entendimento de quem somos e pela extensão desse entendimento aos outros que agimos conjuntamente, politicamente, usando nosso poder e nossa liberdade.

Vejam como Arendt nos desafia, porque, no atual cenário, é muito difícil enxergar a possibilidade do exercício pleno dessas nossas capacidades. A questão é que ou nos dedicamos a essa consciência, a essa compreensão e a essa prática, ou temos a barbárie. O que assusta é imaginar a que proximidade devemos chegar dessa barbárie para que muitos despertem. E por que tantos se deixam levar pelo embotamento de suas potencialidades, pela antipolítica, pela violência?

As conspirações, as palavras de ordem e demais recursos simplificadores da realidade têm um enorme apelo, especialmente para quem se sente injustiçado. Esse sentimento de ter sido deixado de lado tem gradações e diferentes pesos: do pai que não consegue levar seus filhos pela quarta vez à Disney ao indignado com os malfeitos de um governo no qual confiou; do profissional desempregado ou falido que não consegue se reerguer ao indignado com a lentidão da justiça. Há desconhecimento e incompreensão das leis, cansaço com o ritmo complexo e por vezes lento, com os ritos e as omissões dos tribunais. Há um distanciamento crônico, no Brasil, de seus cidadãos em relação aos direitos, à clareza acerca da legitimidade da representação e à participação na vida pública. A maioria da população vê que há privilégios demais e direitos de menos.

Nesse cenário, a mentira deita e rola, engana com muita facilidade. Qualquer “político” que a utilize largamente, criando um mundo fictício, de simplificação absoluta, se agarrando a algum ponto de nossa desigualdade e desequilíbrio, ganha adeptos rapidamente. Quanto mais xingar e ameaçar com gestos violentos, mais parecerá “se indignar” “por nós”. Trata-se de uma prática de governo contrária ao discurso e ao debate, portanto antipolítica por definição, já que aposta no tumulto, na agressão, não na verdade dos fatos como pressuposto necessário à liberdade de opinião, ao embate sadio próprio da democracia. Daí seu desprezo também pela vida e pela dignidade humana, pelo conhecimento, pelo acordo criativo da fala, pelas linguagens que nos humanizam, as elaborações complexas, as soluções claras para os problemas que surgem.

O desafio que Arendt nos faz é retomar e não esquecer as capacidades que temos e pelas quais nos dispomos aos fatos e ouvimos os outros. Se não assumimos essa responsabilidade, se não praticamos essas atividades, temos mais seguidores de grupos, pessoas incapazes de pensar e de julgar, motivo dos horrores do mal que surgem das atitudes automáticas, superficiais.

Arendt também lança outro desafio específico àqueles que se dedicam a esclarecer e criticar. A atividade do intelectual – quem se comunica, cria, lida com conceitos e significados, fala a muitos – é o exercício da função de, segundo Arendt, “ajudar o autoconhecimento e a consciência política do país como um todo e criticar as ações de seu governo a partir de uma sólida base de filosofia política”. No trecho dessa citação, Arendt comenta a razão do anti-intelectualismo nos Estados Unidos: a falha de muitos intelectuais em exercer essa função. Acadêmicos, jornalistas e artistas precisam agir com responsabilidade (gosto de me lembrar da extraordinária atriz Laura Cardoso, que, em entrevista a Antônio Abujamra, falou da importância do estudo para o ator, já que lida com símbolos, com a emoção, e se dirige a muitas pessoas). Para Arendt, o que mais prezamos é o que mais exige nossa crítica alerta e constante.

Que tenhamos a clareza de afirmar o valor da consciência e da prática dessas atividades de nosso espírito. Sem pensamento, criação e escolha conjunta, sucumbimos à desumanização. As engrenagens desse processo de destruição estão a girar. É preciso pará-las.

>> Ouça o podcast com Adriana Novaes e Luiz Felipe Pondé sobre Hannah Arendt

Imagem: autoria indeterminada

Sobre o autor

Adriana Novaes

Pós-doutoranda do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Projeto “Bolsonarismo: o novo Fascismo Brasileiro” do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. É autora de O canto de Perséfone e de Hannah Arendt no século XXI: a atualidade de uma pensadora independente.