Pensamento público

Filosofia da Linguagem

Normalmente, uma questão que emerge em aulas ou bate-papos é a seguinte: o que é a Filosofia da linguagem? Trata do quê?

O que observamos, é que filósofos de linha mais empirista, como os primeiros analíticos, fogem da primeira questão acima, por levantarem dúvidas sobre a sua própria formulação. “O que é”, que em latim se diz “quid est”, e configura-se como uma pergunta acerca de algo permanente e imutável, e faz parte de uma visão metafisica tradicional, que a princípio os analíticos desconsideravam. Por quais razões?

Talvez porque esse algo fundamental buscado através da questão “quid est” (a quididade) não exista, ou não haja uma interpretação comum. Porém, se tentamos substituir essa “quididade” procurada pela indagação pela ideia de “função/estilo”, ou seja aquilo que aconteceu na prática, poderíamos dizer, e não definir, que, inicialmente, Filosofia da linguagem, no sentido que nos interessa, é aquilo que alguns filósofos da tradição analítica fizeram quando se ocuparam de investigar questões relativas aos significados dos termos e das proposições.

Portanto, se alguns filósofos analíticos, que desenvolveram essa Filosofia da linguagem, viam a filosofia como uma atividade/atitude cognitiva empenhada na “busca pelo significado”, então sua definição é a sua função operacional. Nessa primeira visão, a “Filosofia Primeira” seria esse trabalho, essa busca pelo significado; e o esclarecimento do significado dar-se-ia pela análise lógica da linguagem. Como dizia Schlick: “A filosofia é uma atividade, não é uma ciência, mas essa atividade, obviamente, está continuamente em curso em toda ciência específica, porque antes das ciências poderem descobrir a verdade ou a falsidade de uma proposição, elas devem obter o significado da mesma”. (M. Schlick in O Futuro da Filosofia, p. 119).

A tradição analítica, iniciada nos primeiros anos do século XX, recorreu a Frege, Russell, Wittgenstein e Moore, com o intento de rejeitar as pretensões iluministas/idealistas fortemente dominantes naquele momento. Ela buscou seu refúgio na lógica simbólica, na análise da linguagem e nos métodos científicos.

Mas o que faziam e pensavam esses filósofos da linguagem? À primeira vista, nada que pudesse ser considerado um bloco monolítico de interesse ou traço doutrinário comum. Porém algumas considerações metodológicas seriam importantes. Os primeiros filósofos da linguagem manifestavam certo mal-estar e desprezo à prática filosófica de seu tempo, especialmente a defesa arraigada da tradição no campo da lógica e da metafísica, como um predomínio do hegelianismo e também a desconsideração aos novos avanços nos campos das ciências naturais e matemáticas.

A chamada “Linguistic Turn”, que se deu no início do século XX, possuía antecedentes que nos ajudam a entender seu desenrolar na filosofia.

Na passagem do século XIX para o XX, alguns pensadores – entre eles, Frege, em sua obra Fundamentos da aritmética, e Russell e Whitehead, em Principia Mathematica – trabalhavam sobre os fundamentos da aritmética/matemática.   Irresistivelmente, eles foram levados para a Lógica e defendiam o Logicismo. Russell atribui o mérito logicista à Frege, dizendo que estestrou em detalhes como a aritmética pode ser deduzida da lógica pura” (Russell in Atomismo Lógico). Para os logicistas, toda a matemática seria redutível aos princípios lógicos e essa investigação trouxe uma inovação notável: a Lógica Simbólica/Matemática. Frege, Russell e também Wittgenstein foram dos fundamentos da matemática para a Lógica, e desta para as questões relativas à Linguagem, especificamente às teorias da natureza e do significado das proposições e nomes próprios.

A linguagem sempre foi um tema de interesse constante da Filosofia, mas por qual motivo? Provavelmente pelas fortes razões da relação entre linguagem/conhecimento e realidade/verdade. Não há dúvida de que esse interesse nem sempre foi o mesmo. Poderíamos dizer que, em um primeiro momento, essa inclinação centrava-se na relação linguagem-Ideias, depois Linguagem-Significado, e mais recentemente Linguagem-Sentenças. (vide Ian Hacking, “Por que a linguagem interessa a filosofia?”). Entretanto, será que apenas nesse último momento podemos propriamente falar de uma Filosofia da Linguagem?

O Tema do Significado (Sinn: sentido) já estava em voga em diversas filosofias no final do século XIX. Tanto a Filosofia Analítica nascente, como na Hermenêutica de Dilthey e na Fenomenologia de Husserl.

Questões como: o que exatamente é o significado? O que faz com que um som emitido seja entendido? Como a linguagem se relaciona com a realidade? O significado de uma palavra/proposição é um objeto/fato por ela apontada? Frege partiu para uma solução dessas questões em seu artigo “Sobre o sentido e a referência de 1892.

Sua reflexão começa ao se perguntar que tipo de relação é a igualdade: seria uma relação entre nomes ou objetos? Suas conclusões o levaram à distinção entre Significado, Referência e Ideia associada (representação). Esta descoberta, junto com suas inovações em Lógica Simbólica, irão traçar um percurso para a nascente Filosofia Analítica da linguagem.

A proposta de Frege de antecedência lógica do Significado, como condição de verdade, sobre a Referência, como valor de verdade, colocou a investigação sobre o sentido como algo mais fundamental do que as investigações epistemológicas dos modernos – já que o sentido de uma proposição independe de seu valor de verdade.

Portanto, o que começou como uma investigação sobre os fundamentos lógicos da matemática, e se desdobrou em uma nova forma de lógica, ampliou-se para um grande debate sobre o significado e suas teorias antigas e recentes.

Essa Filosofia da Linguagem, de tradição analítica, possui hoje um amplo cenário de investigação presente em todo o mundo. Nessa filosofia, diversas questões, posturas e abordagens, bem longe de poderem ser reunidas num único bloco, são marcadas por um interesse ímpar pelas ciências, pelas lógicas e pela análise (semântica ou pragmática) da linguagem.

Imagem: reprodução Dicionário Aurélio (segunda edição, impressa)

Sobre o autor

Carlos Sousa

Graduado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Docente do curso de Filosofia do Seminário Maria Mater Ecclesiae e pesquisador do Núcleo de Estudos Agostinianos do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.