Revista Laboratório 1

Nelson Rodrigues e a inimiga pessoal da mulher

Resumo: A partir da crônica escrita por Nelson Rodrigues em 1971, intitulada “A inimiga Pessoal da Mulher”, faz-se um diálogo entre a análise de algumas mulheres (sob a perspectiva da Psicologia Analítica)  e a obra Rodrigueana, mostrando que as observações apontadas pelo autor, há quase cinquenta anos, ainda perduram e estão mais atuais do que nunca.
Palavras-chave: Nelson Rodrigues; Psicologia Analítica; feminismo; análise.

Introdução

O Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ abriu espaço para que pudéssemos começar a estudar Nelson Rodrigues. Em nossos encontros, além de discutirmos e aprofundarmos os inúmeros questionamentos que a obra Rodrigueana nos traz, vimos que tais temas ainda estão fortemente presentes no momento atual, mesmo decorridos 38 anos de sua morte.

Este artigo tem por objetivo propor um diálogo entre suas obras e a clínica psicanalítica, que é um dos poucos lugares, dentro do mundo politicamente correto vigente, em que a vida se mostra como de fato ela é.

A divergência entre Nelson Rodrigues e Betty Friedman

O recorte da análise de algumas pacientes gerou uma reflexão sobre o lugar da mulher na atualidade a partir da crônica “A Inimiga pessoal da mulher”, que Nelson publicou no jornal O Globo, após conhecer Betty Friedman em uma entrevista coletiva.

Naquele ano, a então líder do movimento feminista, veio ao Brasil para divulgar o lançamento de seu livro através de palestras e entrevistas. “A Mística Feminina” discorre sobre a crise de identidade feminina, ao analisar os processos de submissão a que as mulheres estavam sujeitas para se encaixarem dentro dos modelos socialmente aceitos, como o cumprimento dos papéis de mãe e esposa, por exemplo (Duarte, 2006). Dentro deste contexto, que a autora denominou por “crescente desumanização”, muitas mulheres tornaram-se um conceito glorificado e mistificado da dona de casa, que vivia única e exclusivamente para os outros, jamais para si mesma e suas possíveis realizações. Desta forma, a mulher reduzia-se a uma vítima da sociedade de consumo.

A ideia do livro surgiu após encontros com colegas de escola, onde percebeu que as mulheres, assim como ela, estavam extremamente insatisfeitas com suas vidas. A autora também observou tal descontentamento no contato que teve ao entrevistar inúmeras mulheres enquanto trabalhava como repórter de uma revista feminina.

Através deste trabalho, onde pôde conhecer, discutir e debater sobre as dificuldades enfrentadas na criação dos filhos, cuidados com a casa, e o relacionamento com o marido e a comunidade, Betty identificou e mapeou o “mal sem nome” que acometia as mulheres das décadas de 50 e 60, de diversas classes sociais, credos e etnias: um misto de sensação de vazio, sintomas de depressão e constante irritabilidade.  A partir de então, teceu uma forte crítica à forma como a imprensa lidava com a problemática feminina, atribuindo apenas aos excessos de afazeres domésticos e questões matrimoniais a causa de sua infelicidade. Para agravar a situação, as revistas dedicadas a este público ofereciam soluções simplistas e superficiais para sanar tais dilemas (DUARTE, 2006).

Friedman contestou tais explicações reducionistas e apontou a “mística feminina” como à causa maior de tais problemas, que precisariam ser encarados de maneira séria pela sociedade:

“A mulher que sofre deste mal, e em cujo íntimo fervilha a insatisfação, passou a vida inteira procurando realizar seu papel feminino. Não seguiu uma carreira (embora as que o façam talvez tenham outros problemas); sua maior ambição era casar e ter filhos. Para as mais velhas, produtos da classe média, nenhum outro sonho seria possível. As de quarenta ou cinqüenta anos, que quando jovens haviam feito outros planos e a eles renunciado, atiraram-se alegremente na vida de donas-de-casa. Para as mais moças, que deixaram o ginásio ou a faculdade para casar, ou passar algum tempo num emprego sem interesse, este era o único caminho. Eram todas muito “femininas” na acepção comum da palavra, e ainda assim sofriam do mal” (Friedman, 1971, p.27).

Em seu livro, ela constatou que as mulheres americanas casavam-se cada vez mais jovens e iam cada vez menos à universidade. Em contrapartida, preocupavam-se, cada vez mais, em adaptar seus corpos à moda vigente.

“A cozinha configurava-se como habitat ‘natural’ da mulher, daí decorrendo todo o esforço de decoradores e da indústria de eletrodomésticos para convertê-la em um lugar agradável. O lar, como referência maior, era o lugar de onde as mulheres saíam apenas para comprar, levar as crianças à escola ou acompanhar seus maridos a reuniões sociais. As mulheres viam esses problemas, quase sempre, como falhas no seu matrimônio. Que espécie de mulher se era, se não sentia uma mística realização encerando o chão da cozinha?, provocava Friedman. Não se ajustar ao papel de feminilidade, ao papel de mãe e esposa, era o tal “problema sem nome”, afinal” (DUARTE, 2006, p.289).

Frente a tantas descobertas, indagações e ressignificações sobre o universo feminino, o livro tornou-se um best-seller e foi um dos principais propagadores da segunda onda do movimento feminista. Um de seus muitos desdobramentos foi o surgimento de associações de mulheres que tinham por objetivo denunciar ideias sexistas e preconceituosas, em busca por direitos iguais entre os sexos (DUARTE, 2006).

Na crônica em questão, Nelson relata as suas impressões sobre uma entrevista da autora da “Mística Feminina” a um grupo de jornalistas, do qual também faziam parte, ele mesmo e uma profissional ainda adolescente. Neste encontro, deu-se o embate entre Betty e a jovem: por um lado, a “líder do antifeminismo” (RODRIGUES, 2018, p.217) afirmava que a feminilidade não existia, que era apenas uma impostura inventada pela sociedade de consumo. Portanto, todas as formas de vestimenta e embelezamento serviam apenas para agradar aos homens. De modo enfático, frisava que a mulher deveria sair de tal condição de submissão, negando os comportamentos de consumo. Por outro lado, a jovem argumentava que gostava de ser vaidosa e trabalhar, que não tinha necessidade de excluir a vaidade (como parte da feminilidade) de sua vida, em prol apenas das conquistas e crescimento profissional.

Outro argumento defendido por Friedman que também chamou atenção do jornalista foi, além da negação da feminilidade, a não existência de quaisquer diferenças entre homens e mulheres, sejam simbólicas ou anatômicas.

“Diz mais que a mulher para viver dignamente precisa estar acima de definições sexuais como mãe e esposa. Para a pobre senhora a maternidade é um fato apenas físico, como se a mulher fosse uma gata vadia de telhado. Nem desconfia que sexo, para o ser humano, é amor” (RODRIGUES, 2018, p.220).

Creio que Nelson não desvalidava os questionamentos levantados pelo feminismo, como direito ao voto, trabalho, etc., mas criticava o posicionamento ressentido da líder que, em busca pela ascensão social da mulher, massacrava o feminino em prol da igualdade, considerando-a, assim, a inimiga pessoal da mulher.

Graças ao movimento feminista, muitas conquistas foram alcançadas, como o voto, ocupação de cargos públicos, salários mais justos, acesso à educação, direitos iguais dentro do casamento, licença maternidade, entre outros.

Porém, da mesma forma que o movimento trouxe inúmeros ganhos, projeções e discussões acerca de um universo até então restrito apenas a rodas de amigas e comadres, ele também trouxe uma forte carga sombria[1], que afeta não somente as mulheres, como também os homens.

Na busca pela igualdade, podemos observar o “embrutecimento” feminino, ou seja, a apropriação de qualidades masculinas como força, autonomia e independência elevadas à enésima potência. Tais características, vivenciadas de forma extrema e rígida, as tornam cada vez mais duras e têm, como consequência, o “enfraquecimento” do homem. Enfraquecidos e amedrontados, encontram-se perdidos no mundo por terem sido destituídos de sua função de macho provedor. Tal busca obsessiva dificulta o encontro entre homens e mulheres, pois eles correm o risco de serem taxados de abusivos caso cortejem uma mulher na rua, por exemplo. Foi-se o tempo em que passar na frente de um canteiro de obras mexia com o brio da mulher…

Citando Nelson (2018):

“Outro dia, remexendo nos meus velhos papéis, descobri uma crônica de dois anos atrás, em que eu próprio escrevia: “nunca a mulher foi tão pouco mulher, nunca o homem foi tão pouco homem”. O raciocínio é simples: se a mulher é menos mulher, o homem é menos homem” (p.218).

Um filme que ilustra essa situação é “Eu não sou um homem fácil”, produzido pelo Netflix no ano de 2018. Nele, o personagem principal, Damien, é um Don Juan padrão: solteiro, com emprego bem remunerado e inúmeros casos amorosos. Até que um dia, caminhando com um amigo pelas ruas, bate a cabeça num poste e desmaia. Ao acordar, se depara com um mundo às avessas, pois homens e mulheres estão com seus papéis invertidos:

Agora, as mulheres eram o sexo “forte” e exerciam o comando, ocupando os cargos de confiança e liderança dentro da sociedade. Com os corpos mais cobertos, as garotas estavam distanciadas do romantismo e possuíam a fama de serem infiéis. Também podiam andar nas ruas sem a preocupação em serem assediadas. Já os homens assumiam a função de donos de casa, além da responsabilidade do cuidado com os filhos. Seus corpos tornaram-se extremamente sexualizados, e a depilação era uma condição básica. Para desespero do protagonista, a mulher por quem tinha se interessado tornou-se uma versão feminina dele mesmo, que objetificava os homens, tratando-os apenas como um pedaço de carne.

Curioso observar que, na trama, a mulher forte era nada mais que um homem, com todos os seus atributos. Já os homens eram retratados com os alguns dilemas femininos, como: submissão, assédio e objeto sexual. O filme termina com a namorada de Damien batendo a cabeça e acordando em outra realidade, na qual as mulheres marchavam em busca por direitos iguais. Teríamos uma sequência?

A Psicologia Analítica de C.G. Jung

Na Psicologia Analítica, sombra é o conteúdo da psique que está oculto e reprimido, logo, desconhecido pela consciência do indivíduo. Ela possui uma parcela significativa na dinâmica psíquica, pois contém as capacidades e sentimentos rejeitados pelo ego (centro da consciência), tanto positivos quanto negativos, reconhecidos como estranhos ao eu. A sombra surge como uma compensação à identificação desenvolvida pelo ego com as características ideais da personalidade, que foram influenciadas pelo meio e cultura.

O psicanalista Murray Stein (2006) explica que o conteúdo da sombra, por ser inconsciente, é projetado em terceiros. Por exemplo:

“Quando uma pessoa se sente extremamente irritada por outra que manifesta ser realmente egoísta, por exemplo, esta reação é usualmente um sinal de que está sendo projetado um elemento inconsciente da sombra. Naturalmente, a outra pessoa tem que apresentar um “gancho” para a projeção da sombra e, assim, existe sempre uma mistura entre percepção e projeção em tais reações emocionais fortes” (p.100).

Os conteúdos com que a consciência se identifica e que absorve tornam-se partes integrantes de si e da persona, já aqueles que rejeita tornam-se sombra, pois possuem qualidades que são incompatíveis com o ego. Por persona, compreende-se a pessoa que passamos a ser devido ao resultado dos processos de aculturação, adaptação e educação, ocorridas em nosso meio social (STEIN, 2006).

O autor ainda alerta que:

“Se a pessoa rechaça totalmente a sombra, a vida é correta, mas terrivelmente incompleta. Ao abrir-se para a experiência da sombra, entretanto, uma pessoa fica manchada de imoralidade mas alcança um maior grau de totalidade”. (STEIN, 2006, p.100).

Para Jung (1971), os conteúdos e as tendências do inconsciente e da consciência raramente estão de acordo, isto porque o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência.

A rotina da vida diária exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, assim, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais nos afastamos dele, devido a um funcionamento dirigido, maior é a probabilidade de surgir uma forte contraposição que, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis.

É através do tratamento construtivo do inconsciente que temos a base para a compreensão da função transcendente, pois, quando se consegue formular o conteúdo do inconsciente e compreender o sentido desta formulação, surge a questão de saber como o ego se comportará frente a esta situação. Desse modo, dá-se início à confrontação entre o ego e o inconsciente. Esta é a segunda etapa do procedimento, pois da aproximação dos opostos resulta o aparecimento do terceiro elemento, que é a função transcendente. Neste estágio, a condução do processo não está mais com o inconsciente, mas com o ego (JUNG, 1971).

Este confronto com o oposto gera uma tensão carregada de energia, que produz algo vivo, um terceiro elemento, que leva a um novo nível de ser, a uma nova situação. Esta é a característica primordial da função transcendente, em que a consciência é ampliada continuamente, ou – para sermos mais exatos – pode ser ampliada através da confrontação com os conteúdos até então inconscientes, e integrar este novo conteúdo à consciência (JUNG, 1971).

A função transcendente cria passagem de uma atitude para outra:

“A matéria-prima elaborada pela tese e pela antítese e que une os opostos em seu processo de formação é o símbolo vivo” (JUNG, 2013 §917).

O símbolo[2], enquanto transformador psíquico de energia tem caráter de cura, pois é capaz de restaurar a inteireza e a saúde do indivíduo. Para Jung, a transformação da libido[3] é a resultante da contínua separação e união entre dois elementos opostos, que também se exprime como a síntese do confronto entre o material consciente e inconsciente:

“Em sua dupla capacidade de, enquanto vívida expressão da carga de energia acumulada de um “cerne de significado” do inconsciente coletivo psicoide, produziu um alívio da tensão e, pelo seu significado, alcançar uma nova impressão sobre os eventos psíquicos e, assim, provocar nova concentração de energia, o símbolo pode avançar de síntese em síntese e transformar a libido incessantemente, redistribuí-la e conduzi-la a atividades significativas” (JACOBI, 2016, p.119).

O desenvolvimento do ser humano implica em uma vivência total da vida, que contém os aspectos sombrios da psique. Diante disso, o processo de individuação pode ser realizado mediante o conflito e união dos opostos, que gera a ampliação do campo de consciência.

Dá-se início a este processo através do confronto com a sombra, que implica em reconhecer e assimilar alguns aspectos desconhecidos, muitas vezes desagradáveis e dolorosos, de nossa personalidade.

Em geral, o processo de individuação é o desenvolvimento do indivíduo psicológico distinto da psicologia coletiva. Nele, ocorre um processo de diferenciação que visa o desenvolvimento da personalidade individual. A individuação está diretamente vinculada à função transcendente, pois é ela quem traça as linhas de desenvolvimento individual que não poderiam ser adquiridas pelos caminhos ditados pelas normas coletivas. Dessa forma, a individuação significa uma ampliação da consciência e da vida psicológica consciente (JUNG, 2013).

“O conhecimento dos símbolos é indispensável, pois é nestes que se dá a união de conteúdos conscientes e inconscientes. Da união emergem novas situações ou estados de consciência, isto nada mais é que a função transcendente”. (JUNG, 1976, §524).

Segundo Stein (2006), a individuação ocorre através do mecanismo da compensação. Sua função consiste em introduzir o equilíbrio ao sistema psíquico. Por exemplo, a tendência do ego é tornar-se unilateral e excessivamente confiante em si mesmo. Quando isso ocorre, o inconsciente compensa essa unilateralidade, geralmente através dos sonhos. Com o tempo, estas pequenas e frequentes compensações somam-se e convertem-se em padrões, que estabelecem a base espiral de desenvolvimento para a totalidade, a qual Jung denominou individuação.

O processo de individuação não é um tranquilo processo de incubação e crescimento, mas sim de um forte confronto entre os opostos. Este embate consiste em unificar o ego com o inconsciente, o qual contém a vida não vivida da pessoa e seu potencial não realizado. O propósito da individuação é tornar-se o que a pessoa já é individualmente, mas de um modo mais profundo e consciente. Esta tarefa requer o poder capacitador de símbolos que tornam acessíveis os conteúdos do inconsciente.

Discussão

Na clínica, noto o sofrimento, angústia e sensação de deslocamento de algumas mulheres que, para serem “fortes”, afastam-se dos homens, adotando posturas “auto-suficientes”, tentando encontrar acolhimento dentro da tal sororidade.

Essa postura, sempre alerta e desconfiada, esconde a fragilidade da mulher, que não pode mostrar sua vulnerabilidade (para si e para o parceiro) e necessidade de acolhimento. Para elucidar melhor esta situação, trago o exemplo da relação de uma paciente de 50 anos com seu namorado. Ela o descreve como mesquinho, pois quando saem, ela o busca em casa e paga o estacionamento:

[Paciente] – “Ele nunca se oferece para pagar, e quando vem a conta do jantar temos que dividir igualmente! Isso é um absurdo!!!”.

[Analista] – “Absurdo? E o que você faz com isso?”.

[Paciente] – “Fazer o quê? Eu fico quieta, imagina… É óbvio que ele tem que ao menos pagar o estacionamento!”.

A partir destas e outras situações, atravessadas por diversos não ditos e interdições do tipo “mas é obvio”, “está na cara”, “imagina o que ele pode pensar de mim e seu fizer/pedir tal coisa?”, assistimos, placidamente, à guerra dos sexos e à continuidade do ressentimento entre ambos: Mulheres “fortes” + homens acuados = sem integração, não há relação.

Após algum tempo em análise, desarmando um campo minado, conseguimos começar a baixar sua guarda. Vimos a necessidade de falar o óbvio, a importância da comunicação com o parceiro, e de que uma mulher pode sim, ser cuidada e acolhida, seja através de um buquê de flores ou jantar pago, pois tais fatos não irão sucumbir com todas as suas conquistas.

Outro caso que baseou estas reflexões foi o de uma jovem mulher, com cerca de 30 anos, que tem como tema de sua análise, questões ligadas ao feminino. Vale ressaltar que as descrições dos casos clínicos, em andamento há pelo menos três anos, são feitas de modo superficial, para que o sigilo do processo seja mantido. Apenas recorro a alguns recortes para que o diálogo com a crônica em questão possa ser realizado.

A paciente encontrou no movimento feminista força e amparo no auxílio de questões que lhe eram delicadas, como a igualdade no trabalho e divisão das tarefas domésticas e da maternidade, por exemplo. As palavras mais recorrentes em suas sessões são: sororidade, empoderamento e opressão. Outro ponto em comum com o discurso feminista era a culpabilização do “homem branco classe média”, tendo culminado com a frase: “toda mulher é vítima do patriarcado”.

Em análise, investigamos o que poderia estar projetado na figura expiatória do tal “homem branco”, quais conteúdos eram realmente factuais e externos (como o machismo ainda predominante em nosso meio e a lenta mudança de comportamentos que viemos construindo), distinguindo-os daqueles que lhe eram individuais, frutos das suas experiências de vida e da forma que foram internalizados em sua psique. Em resumo: pegamos os conteúdos levantados pela bandeira e pelo movimento e os diferenciamos para saber quais eram, de fato, os da paciente.

Mais uma vez, com a baixa das defesas, conseguimos trabalhar alguns pontos, até então muito inflamados, logo, de difícil acesso. Neste momento, a paciente em questão pôde expressar o quanto sentia vontade de pintar os cabelos, fazer procedimentos estéticos definitivos, cuidar do próprio corpo, manter a estabilidade do emprego e se dedicar às tarefas mais lúdicas.

A conscientização e expressão de seus desejos, aparentemente banais, foram de grande valia para seu crescimento e fortalecimento psíquico, pois até então, a jovem não conseguia vivenciá-los devido ao fato de encontrar-se presa a inúmeras regras e interditos proclamados pelo meio.

Conclusão

Sendo assim, estes casos resultaram na reflexão sobre o legado, em parte, negativo, deixado por Betty Friedman: o massacre do feminino em si, como se fosse algo frágil, errado, a ser combatido a qualquer custo. No que a mulher atual acabou se transformando? Existiria, de fato, uma democracia no feminismo radical?

Notamos o sofrimento de inúmeras mulheres que, para serem iguais, desconsideram sua origem e ignoram sua verdadeira força. Seriam elas vítimas do patriarcado ou vítimas de si mesmas?

“…há bastante tempo, a masculinização psíquica da mulher vem trazendo conseqüências indesejáveis. Ela pode talvez ser uma boa companheira para o homem, mas sem encontrar o acesso aos sentimentos dele. A razão é que o animus[4] dela (isto é, seu racionalismo masculino, e que nada tem a ver com a verdadeira racionalidade!) fechou o acesso aos seus próprios sentimentos. Pode ficar frígida, como defesa contra um tipo sexual masculino que corresponde ao seu tipo sexual masculino. Mas se a reação de defesa falhar, pode aparecer, no lugar da sexualidade disponível da mulher, uma forma de sexualidade agressiva e exigente, própria do homem. Também esta reação é um modo “prático” de lançar, a todo custo, uma ponte para forçar de volta o homem que vai se afastando paulatinamente. Uma terceira possibilidade, que parece a favorita dos países anglo-saxões, é a opção pela homossexualidade, passando a mulher a viver o papel masculino” (JUNG, 2013, § 246).

Por fim, tais reflexões apontam para a urgência de uma conexão entre os mundos (força, potência, vulnerabilidades) masculino e feminino. A busca pela igualdade não implica em uma constante e interminável guerra entre os sexos, mas poderia se dar através da comunicação e integração das diferenças entre ambos.

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Notas

[1] Conceito esclarecido em: “A Psicologia Analítica de C.G. Jung”, nas páginas a seguir.

[2] De origem grega, a palavra símbolo é derivada de synballein (syn, junto + ballein, atirar), que tem como significado a união dos opostos, unir conhecido com desconhecido (Ramos, 2006). Na Antiguidade grega, quando dois amigos se separavam, quebravam uma moeda ou um anel ao meio. Ao retornar, o amigo, ou alguém de sua família, deveria apresentar sua metade. Se esta metade se completava à outra, ele era reconhecido como amigo e ganhava o direito à hospitalidade. Apenas quando as metades são unidas, forma-se o símbolo, que passa aqui a significar alguma coisa. O símbolo é o sinal visível de uma realidade imaterial, invisível (KAST, 2013).

[3] Termo utilizado na literatura junguiana para indicar a energia psíquica. Deve ser compreendido como um valor energético que pode se transmitir a qualquer área de atividade como, por exemplo: poder, fome, ódio, sexualidade, religião, sem ser, necessariamente, fixo a um instinto específico. (PIERI, 2002).

[4] “A usual definição sintética diz que anima é o feminino interno para o homem e o animus o masculino interno para uma mulher. Mas também se pode falar simplesmente delas como estruturas funcionais que servem um propósito específico na relação com o ego. Como estrutura psíquica, anima/us é o instrumento pelo qual homens e mulheres penetram nas partes mais profundas de suas naturezas psicológicas e se adaptam a elas… a anima/us está voltada para o mundo interior da psique e ajuda uma pessoa a adaptar-se às exigências e necessidades dos pensamentos intuitivos, sentimentos, imagens e emoções com que o ego se defronta” (STEIN, 2006, p.120)

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Referência Bibliográfica

DUARTE, A. R. F. Betty Friedan: morre a feminista que estremeceu a América. Revista de Estudos Feministas, Universidade Federal de Santa Catarina, v.14, n.1, p. 287 – 293, 2006.

Eu não sou um homem fácil. Direção: Eleonore Pourriat, Produção: Eleonore Dailly, Edoward de Lachomette. França (FR), 2018, Netflix

FRIEDAN, Betty. Mística feminina. Petrópolis: Vozes, 1971.

JACOBI, J. Complexo, Arquétipo e Símbolo na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2016.

JUNG, C.G. A Natureza da Psique. In: Obras Completas, vol. 8/2. Petrópolis: Vozes, 1971.

JUNG, C.G. Civilização em Transição. In: Obras Completas, vol. 10/3. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. In: Obras Completas, v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, C.G. Símbolos da Transformação. In: Obras Completas, v. 5. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos. In: Obras Completas, v. 6. Petrópolis: Vozes, 2013.

KAST, V. A dinâmica dos símbolos – Fundamentos da psicoterapia junguiana. Petrópolis: Vozes, 2013.

PIERI, P.F. Dicionário Junguiano. São Paulo: Paulus, 2002.

RAMOS, D. G. A psique do corpo – A dimensão simbólica da doença. 5ª ed., São Paulo: Summus, 2006.

RODRIGUES, N. O melhor de Nelson Rodrigues: teatro, contos e crônicas. 1.ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

STEIN, M. Jung, o mapa de alma. 5ª ed., São Paulo: Cultrix, 2006.

Sobre o autor

Ludmilla López Lessa

Psicóloga clínica, com abordagem Junguiana. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Nelson Rodrigues do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.