Pensamento público

Hannah Arendt: a crítica independente contra o equívoco dos extremos

Uma das principais características da obra de Hannah Arendt é o exame de nossa tradição em busca de elementos constitutivos que, pela afirmação ou negação, por desvios e repetições, nos trouxeram até aqui. O “aqui” de Arendt foi a Segunda Guerra Mundial e a Shoah, o assassinato sistemático de vítimas inocentes que caracteriza os totalitarismos – nazismo e stalinismo –, regime e movimento político inéditos que ela explicou na obra Origens do Totalitarismo, de 1951. Por causa do crescimento do antissemitismo no final dos anos 1920 e começo dos anos 1930, no contexto de falência da República de Weimar e ascensão do Partido Nacional Socialista, Arendt, que era judia e se dedicava ao estudo do filósofo cristão Agostinho de Hipona, se viu compelida a atuar contra a perseguição aos judeus, e colaborou com o movimento sionista, grupo surgido no final do século XIX com a reivindicação de uma terra, um território próprio para o povo judeu. Ela foi presa em 1933 por alguns dias e fugiu da Alemanha assim que saiu da prisão. Empreendeu uma luta e fuga pela Europa até chegar aos Estados Unidos, em 1941. Só voltaria à Alemanha depois da guerra, como uma das responsáveis por um grande esforço de recuperação de documentos e objetos de famílias judias que haviam sido roubados e escondidos pelos nazistas.

Mesmo tendo trabalhado em várias instituições judaicas na Europa e nos Estados Unidos, Arendt sempre foi, por meio de numerosos artigos, dura crítica dessas instituições e de seus dirigentes, geralmente porque seus posicionamentos eram marcados por um compromisso perigoso entre reivindicação de representação política legítima, que os judeus nunca tiveram e por isso foram muito facilmente perseguidos, e a quase imposição de um Estado sem qualquer negociação ou cuidado em um território já hostil. Ela alertou para o recrudescimento do conflito árabe-israelense e suas palavras foram proféticas. Também foi contundente e duríssima ao condenar a colaboração de alguns líderes judeus com os nazistas no livro que criou uma longa polêmica, Eichmann em Jerusalém.

Destaco esses dados de sua biografia e trajetória para enfatizar sua postura muitas vezes incompreendida, incompreensão que vem sendo repetida atualmente, o que não é revisionismo moralista, mas apenas mais um sintoma de nossos tristes tempos.

Arendt criticava sem dó. Incomodava, claro, e tinha coragem suficiente para não ceder em sua independência. Seu esforço de compreensão parece hoje tão difícil porque dissociado de grupos, agremiações e partidos. Criticou quando percebia que reivindicações legítimas de alguns desses grupos se perderiam facilmente por causa de posicionamentos equivocados, logo, enfraquecedores de suas pautas justas. Sempre escreveu e se posicionou contra o totalitarismo a partir de sua condição de judia, e, por isso mesmo, pela consideração ao seu povo, pela maior dor ao ver seus erros, é que foi uma crítica incisiva, constante e coerente. Criticou os Panteras Negras e Frantz Fanon porque, para ela, a violência – legítima se pontual para chamar a atenção de uma sociedade para injustiças – é contraproducente ao se estender, pois também justificaria a resposta violenta que esvaziaria reivindicações. Há quem chame isso de postura de uma racista, assim como a chamaram de nazista por ter criticado judeus. Os extremos sempre são mais confortáveis para quem não admite que, no fundo, não é afeito aos desafios da democracia.

Outra incompreensão de sua independência, para quem só sabe viver sob ideologias, diz respeito aos Estados Unidos. Arendt fez praticamente toda a sua carreira nos Estados Unidos. Enaltece com razão a fundação da República americana, pois é impossível não se encantar e se assustar – como fez Tocqueville – com o fenômeno de surgimento desta que é a mais antiga das democracias modernas. Até hoje causam espanto sua confusão e seus absurdos: ao mesmo tempo em que elege um presidente negro por dois mandatos, tem uma voz vigorosa e extraordinária como Angela Davis, leva milhares de pessoas às ruas para protestar contra a violência inacreditável sofrida pelos afro-americanos e elege uma vice-presidente negra, filha de uma indiana e de um jamaicano, tem grupos de supremacistas brancos, um histórico assassinato dos índios de seu território e uma desastrada, nefasta e também assassina política externa. Bem-vindos ao mundo real, que não se encaixa em compartimentos simples e exige uma mentalidade alargada. É bom lembrar, Arendt também foi uma crítica duríssima da Guerra do Vietnã. É só ler, por exemplo, os textos “A Mentira na Política: Considerações sobre os Documentos do Pentágono” e “Tiro pela culatra”.

Tantos exemplos de contradições desconcertantes da história poderiam ser dados. Vamos ao tema desencadeador de muitos ataques a Arendt: Joseph Stálin. Sempre cito o historiador Eric Hobsbawm, marxista, que dava suas aulas no período noturno para ter operários como alunos, que, em seu livro Era dos Extremos, afirma ser Stálin um dos maiores e mais cruéis assassinos da história. Os que o defendem dizem que se trata de “demonização”, porque, afinal, as mortes de milhões foram necessárias para construir a União Soviética e fazer frente ao mundo capitalista-liberal. Bem, se é para atacar o liberalismo, vamos lembrar que o nazismo era antiliberal. Mas Arendt fez várias críticas ao liberalismo e a Marx. E agora?

Seria excelente se houvesse um despertar desses extremismos tolos e um entendimento de que nossas mazelas são mais complexas, nossos desafios maiores, do que as meras oposições reconfortantes. Como declarou Angela Davis, não se trata de fazer uma olimpíada de oprimidos. A maior opressão é causada pela recusa a usar nossas capacidades honestamente. Ser independente é um fardo dos que entendem e fazem valer em suas ações a plenitude de sua vida do espírito. O resto é polêmica estridente fantasiada de esperta para ter mais seguidores ou, como sabiamente escreveu Millôr sobre o jornalismo que não é oposição, é armazém de secos e molhados.

Imagem: Hannah Arendt em 1935 (autor não identificado)


Sobre o autor

Adriana Novaes

Pós-doutoranda do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Projeto "Bolsonarismo: o novo Fascismo Brasileiro" do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. É autora de O canto de Perséfone, Hannah Arendt no século XXI: a atualidade de uma pensadora independente e Cultivar a vida do espírito.