Pensamento público

A inevitabilidade dos conflitos morais

Isaiah Berlin

Desde o início do ano, o mundo enfrenta um desafio inesperado: uma pandemia que já vitimou 1,3 milhão de pessoas e que continua mobilizando a atenção da maioria dos países do planeta. Diante da COVID-19, muitas nações encararam um dilema real, o de encontrar o ajuste fino entre as medidas de isolamento social e a continuidade da produção de riqueza. De um lado, a saúde pública. Do outro, a economia. Este ainda é um problema concreto, que tem sido objeto de disputas e avaliações de autoridades públicas em todo o mundo, em maior ou menor grau.

Ao longo dos meses, a indagação sobre o que seria mais correto ocupou mentes e corações: manter o isolamento social, para “achatar a curva” do contágio, ou liberar as pessoas para retornarem às suas atividades, impedindo o colapso das economias? Houve quem fosse além no questionamento: evitar a morte por doença, com a contaminação pelo novo coronavírus, ou evitar a morte de fome, em razão do desemprego e da falta de recursos? Foram muitas as perguntas – sem respostas fáceis. De certo modo, toda essa rede de indagações forma um dilema de evidente caráter político, a gestão de desejos em conflito. E questões políticas são, em alguma medida, questões morais.

Involuntariamente, o cenário que se descerra é oportuno para refletir sobre a substância da qual é constituída a nossa sociedade: os inarredáveis conflitos de valor e suas implicações na convivência social. Obviamente, o objeto de tal consideração não é o simples embate entre vontades opostas, mas aquilo a que o economista e crítico social norte-americano Thomas Sowell (1930-) designou como conflito de visões. Mais do que um impulso emocional, a visão é nossa percepção de como o mundo funciona, conferindo coerência à “constante oposição de indivíduos e grupos sobre várias questões sem relação umas com as outras” [1].

Ao longo da história, muitos pensadores de diferentes tradições intelectuais se dedicaram a tentar entender as questões morais. Até na cultura pop contemporânea o tema ganhou notoriedade nos últimos anos, com a série norte-americana The Good Place (2016-2020), exibida em quatro temporadas pela emissora de televisão NBC. Como registrou o poeta britânico Alexander Pope (1688-1744), “o estudo próprio da humanidade é o homem” [2]. A lista de moralistas é longa, mas cabe destacar a figura do filósofo e historiador das ideias russo-judeu Isaiah Berlin (1909-1997). Britânico naturalizado, ele construiu sua trajetória intelectual em Oxford, centrado no estudo das inúmeras ideias referentes às maneiras de encarar a vida. É que, na sua leitura, “a história do pensamento moral, político e teológico é uma história de violentos conflitos entre asserções rivais de especialistas rivais” [3].

Na leitura de Isaiah Berlin, um mundo no qual os valores morais – e, portanto, políticos, religiosos e sociais – sejam inteiramente combináveis é improvável, em virtude da própria natureza humana. É dele a clássica ilustração sobre a concorrência entre elementos tidos em alta conta por nós. A plena liberdade e a plena igualdade não podem ser conciliadas, afirmava Isaiah, do mesmo modo que há conflitos entre justiça e compaixão, conhecimento e felicidade. Somente a partir de critérios particulares de decisão é possível tentar dirimir tais celeumas, critérios que não são necessariamente racionais e objetivos.

É a partir desse pano de fundo que Berlin desenvolve aquilo que se tornou sua principal contribuição ao mundo intelectual: a noção do pluralismo de valores morais. Tal formulação decorre da crítica à ideia de uma sociedade perfeita, na qual todos os ideais genuínos são alcançados. Na sua leitura da história, Isaiah Berlin se insurge contra aquilo que considerava ser o compromisso elementar do pensamento ocidental, que poderia ser resumido em três proposições: 1) todas as perguntas autênticas podem ser respondidas; 2) todas as respostas às perguntas são cognoscíveis; 3) todas as respostas devem ser compatíveis umas com as outras. Daí a noção de que a verdade seria um corpo único e harmonioso de conhecimento. A isso, Isaiah nomeia monismo, ao qual se opõe.

Em seus ensaios, Berlin advertia continuamente quanto ao erro de supor que todos os bens, todas as virtudes e todos os ideais de vida são compatíveis uns com os outros. Ao contrário disso, a observação empírica e o conhecimento histórico apontam para o fato de que os fins humanos estão em conflito. Se a história da humanidade é a história da diversidade humana, “nenhuma massa de cálculos nos pode evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas” [4]. Já que nossa época é essencialmente plural, não há “nada mais destruidor de vidas humanas do que a convicção fanática da existência de uma vida perfeita, aliada a um poder político ou militar” [5]. A consequência trágica dessa afirmação é a existência de uma série de valores que não podem ser reduzidos a nenhum princípio, porque são irredutivelmente diversos.

Ora, se a vida real é assim, não há consolo metafísico aos conflitos experimentados pelos seres humanos. Na leitura berliniana, não se pode falar em consenso sobreposto, pelo menos não da forma como teorizou o filósofo político norte-americano John Rawls (1921-2002) [6]. O que deve haver é a aceitação quase resignada do caráter inevitável dos conflitos e a busca precária por soluções imperfeitas e temporárias. Tal consciência é condição para que os embates morais sejam tratados de maneira mais honesta, sem a criação de espantalhos conceituais que estereotipam aqueles que parecem ameaçadores. “Nossa era não exige mais fé, nem maior liderança ou organização científica; mas menos ardor messiânico, mais ceticismo esclarecido, mais tolerância às idiossincrasias” [7], defendeu o britânico. Para Isaiah, essa boa dose de realidade é muito útil para desfazer alguns dos nossos maiores delírios.

Notas

 [1] SOWELL, Thomas. Conflito de visões: origens ideológicas das lutas políticas. Tradução de Margarita Maria Garcia Lamelo. 1. ed. 2. imp. São Paulo: É Realizações, 2012, p. 17.

[2] POPE, Alexander. The collected major works of Alexander Pope. Overland Park: Digireads, 2010, p. 95.

[3] BERLIN, Isaiah. Limites da utopia: capítulos da história das ideias. Organização de Henry Hardy. Tradução de Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1991c. p. 146.

[4] JAHANBEGLOO, Ramin. Isaiah Berlin: com toda liberdade. Tradução de Fany Kon. São Paulo: Editora Perspectiva, 1996, p. 74.

[5] JAHANBEGLOO, Ramin. Isaiah Berlin: com toda liberdade. Tradução de Fany Kon. São Paulo: Editora Perspectiva, 1996, p. 76.

[6] Isaiah Berlin e John Rawls foram contemporâneos e possuíam uma relação amistosa. Ambos estiveram inseridos em espectro bastante similar: liberdade, liberalismo e pluralismo. No entanto, suas formulações tomaram rumos diferentes. Em uma carta enviada ao amigo Rawls, em resposta a um artigo publicado pelo norte-americano, Isaiah Berlin demonstrou certa discordância com o conceito de consenso sobreposto. Vale o registro de um trecho do comentário: “Minhas únicas dúvidas surgem quanto ao grau de seu otimismo na possibilidade de oferecer seus pontos de vista, com os quais concordo totalmente, como uma base permanente na qual as divergências podem ser resolvidas. […] Não tenho dúvidas de que certos males sociais são tão grandes – vamos dizer, por exemplo, escravidão ou ódio racial – que a violência é justificada em reprimir essas coisas, mesmo que isso mine a base do consenso social, e assim por diante. Mas creio contigo que, enquanto o que você chama de grandes virtudes prevalecerem, nossas propostas podem e devem ser consideradas como certas e devem ser apoiadas. […] Podemos apenas dizer no que acreditamos e esperamos concordar, se não agora, em algum futuro esclarecido.” Cf. BERLIN, Isaiah. Supplementary Letters 1975-1997. Isaiah Berlin Virtual Library, Oxford, 18 nov. 2016a. Disponível em: <http://berlin.wolf.ox.ac.uk/published_works/a/l4supp.pdf>.

[7] BERLIN, Isaiah. Political Ideas in the Twentieth Century. Foreign Affairs, v. 28, n. 3, p. 351-385, abr. 1950. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/20030256>.

Imagem: divulgação


Sobre o autor

Jonathan Goudinho

Jornalista e mestre em Ciências da Religião pela PUC Minas. Pesquisador do Laboratório de Estudos em Religião, Modernidade e Tradição (LeRMOT) da mesma universidade. Coordenador, a partir de 2021, junto com Leandro Bachega, do grupo “Isaiah Berlin: pluralismo e liberdade" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.