Pensamento público

O futuro de filmes e séries na era do tribalismo identitário

O conceito junguiano de arquétipo, quando aplicado ao processo de criação artística, permite explorar a tese de que a identificação da audiência com os personagens em uma obra ficcional se dá em função dos arquétipos que os compõem. Essa tese foi trabalhada, por exemplo, por Joseph Campbell, nos estudos mitológicos, e Christopher Vogler, no processo de criação cinematográfica.

A audiência não se identifica primordialmente com a cor de pele, a opção sexual ou a religião de um personagem, e sim com o seu padrão de comportamento. Temos geralmente empatia pelo herói e aversão pelo seu antagonista, o monstro. Não importa a etnia, a aparência física ou o sexo biológico do personagem, enfim, não importa a imagem que preenche o arquétipo. É esse mecanismo que faz a audiência ter empatia tanto pelo Super-Homem, um macho branco, heterossexual e poderoso (na sua versão clássica), como pela personagem Celie, em A Cor Púrpura, uma mulher negra, homossexual e pobre. Da mesma forma, temos aversão por monstros, sejam eles brancos, amarelos ou negros, ricos, remediados ou pobres, hétero, homo ou bissexuais, humanos, extraterrestres ou sobrenaturais. No fim, é o arquétipo que importa.

Por isso, ao longo de séculos, leitores e espectadores de diferentes culturas e etnias têm se identificado com protagonistas que muitas vezes não são visualmente, etnicamente ou sociologicamente similares a eles, mas que apresentam um padrão de comportamento que eles entendem como virtuoso. O mais virtuoso dos personagens virtuosos é aquele em que predomina o arquétipo do herói, caracterizado por um comportamento de autossacrifício, uma trajetória de transformação de si próprio e/ou do mundo a sua volta e por levar a cabo uma missão altruísta e pró-social.

Para Carl G. Jung, os arquétipos são elementos primordiais, universais e atemporais, alojados no inconsciente de cada um, que determinam o padrão de comportamento do ser humano. Já as imagens que os materializam nas produções artísticas estão inseridas no respectivo contexto sócio histórico. Nada mais natural então que, à medida que as sociedades se transformem, essas imagens se atualizem em sintonia com tais transformações. Ao longo das últimas décadas, vimos o surgimento, particularmente em filmes e séries de TV, de protagonistas negros, mulheres e/ou homossexuais em que predomina o arquétipo do herói, com suas características universais e atemporais. O processo de atualização das imagens do herói foi, ao longo do século 20 e começo do 21, guiado por uma combinação da imaginação de seus criadores com os interesses de mercado, o que incluiu a incorporação dos ideais oriundos de movimentos sociais, como o feminista, o gay e o antirracista.

Na indústria do audiovisual, o processo criativo de filmes e séries de TV nunca deixou de ser afetado por essa dinâmica, especialmente em relação aos ditames do mercado. Roteiristas sempre estiveram sujeitos a isso. Em alguns momentos, no entanto, os interesses ideológicos se sobrepõem irracionalmente e causam danos. Isso aconteceu, por exemplo, nos anos 1950 com o macartismo, que buscou expurgar de Hollywood pessoas ligadas à esquerda política norte-americana.

A impressão no momento atual é a de que o tribalismo identitário, que ganhou força a partir da década de 2010, pode causar danos ao processo de criação artístico atual e futuro piores que os do macartismo. Os identitários – inspirados por uma cacofonia teórica que mistura a revisão empobrecida do marxismo com ideias sedutoramente obscuras de pensadores pós-modernistas – têm imposto uma agenda de patrulhamento e censura, principalmente nos países anglo-saxões, o que inclui a promulgação de legislações e normas que tratam do uso adequado da linguagem e atitudes de boicote e perseguição àqueles que consideram como privilegiados ou que sejam vozes dissonantes.

Algumas de suas premissas são as de que as tribos identitárias precisam estar representadas nas narrativas e que essa representação não pode ser negativa para não as estigmatizar. O resultado disso já pode ser observado em séries de TV e filmes em que a diversidade de personagens soa artificial e pouco contribui para a trama, mas atende à premissa identitária de representação. Nesses casos, parece que os roteiristas se autoimpuseram uma espécie de política de cotas para representação das diferentes tribos em suas obras – o que pode significar a adesão deles a essa perspectiva identitária e/ou uma tentativa de evitar cancelamentos e boicotes com impactos comerciais negativos no futuro. Já a ginástica criativa para não associar nenhum dos representantes das tribos identitárias a aspectos negativos é mais complexa, e o que pode restar aos roteiristas é adotar como padrão que todos os vilões devem, a partir de agora, ser sempre: homens, brancos, cristãos, ocidentais, heterossexuais, magros e capitalistas.

Ao desenvolver o conceito contemporâneo de arquétipo, Jung buscava desvendar clínica e antropologicamente a complexidade do comportamento humano, fruto das contradições, conflitos, incoerências, virtuoses e vícios que fazem parte de cada um, independentemente da cor de pele, da opção sexual e do status social. Ao aplicar esse conceito ao processo de criação, observamos que personagens compostos por múltiplos arquétipos com suas contradições são os mais interessantes justamente por refletirem nas obras ficcionais essa aproximação com a realidade do que é o humano. Isto é, por sermos o produto de uma mistura de natureza e cultura, os personagens ficcionais que melhor nos retratam são criados a partir de uma combinação de características psicológicas, físicas e sociológicas, conforme nos ensina o texto canônico The Art of Dramatic Writing, de Lajos Egri.

Conexão com a realidade objetiva, no entanto, não é o forte do pensamento identitário. E a irracionalidade das pressões tribalistas pode levar ao pior dos mundos no plano da criação: a autocensura, resultando em narrativas igualitárias, estereotipadas e assépticas para não ofender a sensibilidade de cada tribo. Apesar de já observarmos tal influência em alguns filmes e séries, é cedo para afirmar que ela predominará. O macartismo, por exemplo, teve um efeito limitado e não impediu a ascensão em Hollywood de uma visão pró-justiça social nas décadas seguintes.

O fundamentalismo identitário pode esvanecer, graças a sua própria irracionalidade e insustentável negação da realidade, e seu impacto no processo criativo ser limitado. Ou a capacidade criativa de roteiristas, produtores e diretores pode tirar leite de pedra e superar as pressões identitárias, priorizando a liberdade de se expressar sem amarras ideológicas. Por fim, devemos lembrar que filmes e séries de TV fazem parte de uma indústria que busca ser lucrativa ao atender um mercado global de demanda crescente, e, por mais paradoxal e irônico que seja, é justamente o livre mercado, símbolo maior do capitalismo, que pode definir até que ponto as reivindicações identitárias vingarão.

Referências

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1997.

EGRI, Lajos. The Art of Dramatic Writing. Hawthorne (EUA): BN Publishing, 2009.

JUNG, Carl G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis (RJ): Vozes, 2014.

VOGLER, Christopher. A jornada do escritor. São Paulo: Aleph, 2015.

PLUCKROSE, Helen; LINDSAY, James. Cynical Theories. Durham (EUA): Pitchstone Publishing, 2020.

Imagem: montagem sobre cartaz do filme “The Good, the Bad and the Ugly” de Sergio Leone

Sobre o autor

Sílvio Anaz

Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pós-doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP. Foi pesquisador-visitante na School of the Arts, Media, Performance & Design da York University. Pesquisador dos grupos Comunicação e Criação nas Mídias, da PUC-SP, e MidiAto, da USP. Foi professor no curso de Comunicação e Multimeios da PUC-SP, no Mestrado Profissional em Jornalismo do FIAM-FAAM e professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP.