Pensamento público

Um autor menosprezado e seu lado desconhecido: Pierre Charron e “As Três Verdades”

Mencionado nas notas de rodapé das obras destinadas ao comentário das filosofias montaigniana e pascaliana, Pierre Charron é um daqueles autores injustiçados pela história – já que a quantidade de estudos dedicados a seu pensamento não reflete a grande influência que este exerceu ao longo de todo século XVII[1].

Nascido em Paris no ano de 1541, Pierre Charron pertencia a uma família de livreiros. Após reconhecerem seu talento, seus pais o enviaram à Universidade de Paris. Lá, apesar de ter recebido uma típica educação escolástica, Charron entraria em contato com um certo antiaristotelismo (e mesmo com um certo antiescolasticismo) bastante em voga à época. Em 1571, receberia seus títulos de licenciatura e doutoramento em Direito Canônico e Civil.

Apesar de sua notável eloquência, Charron não se agrada de atuar como advogado na Corte do Parlamento de sua cidade natal. Torna-se padre. Dedica-se ao estudo da filosofia patrística. Vai para Bordeaux, onde vive por mais de uma década e trava amizade com Michel de Montaigne e sua família – a ponto de incluir Leonnor de Montaigne em seu testamento e de receber do autor dos Ensaios o direito de portar suas Armas. Finalmente, de 1588 até 1603 – ano de seu falecimento em decorrência de problemas cardíacos –, Charron adentra em seu período mais ativo, tanto do ponto de vista prático (pronunciando seus disputados sermões em várias cidades e chegando a envolver-se em desconfortos políticos), quanto do ponto de vista teórico, escrevendo suas quatro obras: As Três Verdades, Da Sabedoria, Pequeno Tratado da Sabedoria e Discursos Cristãos[2].

Bem mais famoso que seus outros trabalhos, seria o Da Sabedoria que viria a tornar o nome de Charron comum entre seus contemporâneos. A crítica recorrente – segundo a qual o Da Sabedoria não passaria de um plágio enfadonho dos Ensaios – não poderia ser mais injusta. Que há inúmeras passagens da obra charroniana que foram copiadas do livro de Montaigne, ninguém pode negar. Aliás, nem o autor o fez. De fato, no prefácio à primeira edição do Da Sabedoria, Charron confessa que a melhor parte do material de seu livro provém de Sêneca, Plutarco e de “autores modernos”. A organização do material, no entanto, é completamente sua – e enquanto Montaigne não vê sua obra senão como um modo de (dar a) conhecer a si próprio, Pierre Charron pretende ter produzido um guia para o homem de sua época, já bastante “laicizado”, alcançar a virtude mesmo na ausência de religião.

Nem é preciso dizer que foi exatamente a validação da suficiência humana no processo de consecução de certa “perfeição” que tornou a obra de Charron um verdadeiro “Breviário” dos polêmicos libertinos do XVII. Garasse o atacou. Ogier o defendeu. O grande Mersenne o colocou sob suspeita. Espíritos tão distintos entre si, como Saint-Cyran, La Rochefoucauld e Pierre Gassendi reconheceram seu valor. Quantos, entretanto, realmente compreenderam o Da Sabedoria, este misto de agostianismo, ceticismo e estoicismo? Difícil determinar…

Até aqui, duas palavras a respeito do Charron “oficial”, relativamente conhecido – se bem que menosprezado. Contudo, aprofundemo-nos agora em seu lado desconhecido, e ousemos perscrutar algo de sua obra apologética – As Três Verdades[3].

Ao longo dos séculos, foram sensivelmente distintos os “adversários” a serem convencidos pelos apologetas católicos. Na época do cristianismo nascente e da patrística, tratava-se, antes de mais nada, de converter os judeus e os pagãos romanos; ao longo da Idade Média, o gentio era sobretudo o islâmico. O panorama no qual Charron se move é, porém, totalmente novo: pela primeira vez, os apologetas defrontar-se-ão não só com homens que negam qualquer tipo de religião (deístas ou ateus), mas também com a necessidade de reaproximar os irmãos desviados da Igreja (protestantes).

Em 1578, Philippe Duplessis-Mornay havia publicado o Traité de l’Église,uma defesa do cristianismo huguenote. Instado por amigos preocupados com o sucesso da obra, Charron resolve escrever, com mais de uma década de atraso, uma réplica ao livro do reformado. Nascia, assim, a terceira parte do As Três Verdades – ou, caso se queira, tomava corpo, assim, a terceira verdade proposta por Charron, qual seja, que o catolicismo é preferível a todas outras formas de cristianismo. Pensada inicialmente para ser publicada de modo autônomo, Charron acabou preferindo que a chamada “terceira verdade” fosse precedida da defesa de duas outras teses que, do ponto de vista lógico, a antecedem: que Deus existe (primeira verdade) e que o cristianismo é, dentre todas as religiões, a única divina (segunda verdade).

A primeira parte de As Três Verdades é, certamente, a mais original de toda a obra[4]. Lá, por exemplo, Charron desenvolve toda uma taxonomia do ateísmo, ou melhor, dos motivos que levam ao ateísmo. Segundo o filósofo, a primeira das cinco causas que levam à descrença seria de teor cognitivo. Por um lado, há homens que, demasiadamente brutos, são incapazes de crer por lhes faltar o mínimo de luzes necessárias – tal como se passa com os animais. Por outro lado, há indivíduos que, cheios de vã ciência, fazem profissão de só crer em coisas inequivocamente demonstradas – pensando “que são e que se mostram muito hábeis por crerem e aceitarem tão pouco quanto conseguem[5].

Além desses, há aqueles que não creem por conta de sua baixeza moral. Estas almas “desnaturadas” e cheias de faltas não desejam crer que um dia serão julgadas – no que acabam sendo bem-sucedidas, porquanto, de acordo com Charron, o homem é feito de tal modo que, com algum esforço, consegue acreditar no que lhe aprouver. Ademais, há indivíduos que, inconformados com o mal do mundo, preferem crer que este é fruto do acaso a crê-lo criação de uma divindade. Há também aqueles que deixam de crer por não se sentirem atendidos em suas preces: “por terem batido à porta e solicitado Deus por votos e orações e por não terem percebido os frutos e os efeitos do que fizeram, se impacientam e se irritam, dizendo que não há ninguém escutando[6]. Finalmente, há homens que, estupefatos adiante da constância e da antiguidade do mundo, passam a crê-lo autossuficiente – o que espanta Charron, uma vez que, de seu ponto de vista, tal constatação, ao invés de os submergir no ateísmo, deveria inspirá-los a “formular uma conjectura e tirar um argumento a favor da existência de um sapientíssimo autor[7]. Concordemos ou não com ele, a perspicácia e o poder de investigação psicológica de nosso filósofo são indiscutivelmente admiráveis, antecipando a profundidade que, mais tarde, seria a marca distintiva dos moralistas franceses e de seu herdeiro longínquo, Friedrich Nietzsche.

Pois bem. Terminando aqui estes breves parágrafos, espero ter conseguido aguçar, por pouco que seja, a curiosidade do leitor no diz respeito a esse escritor controverso que, soterrado pela história, foi, no entanto, leitura obrigatória de todas as cabeças pensantes do século XVII. Onipresente nas obras daqueles que o sucederam, tanto as reflexões pascalianas sobre a desproporção e a aposta quanto o “ateu virtuoso” de Bayle (apenas para citar alguns casos), foram, em grande medida, sorvidos dos escritos de Pierre Charron, o que, por si só, mostra a grandeza e ambiguidade de sua empreitada filosófica: cuja devida compreensão – ainda em vias de se concretizar – se confunde com a compreensão da aurora da Modernidade.

Notas

[1] Dentre os pouquíssimos trabalhos dedicados exclusivamente ao estudo da filosofia charroniana, destacam-se o de René Kogel – Pierre Charron (Genève: Librairie Droz, 1972), e o de Michel Adam – Etudes sur Pierre Charron. (Bordeaux: Presses Universitaires, 1991). No Brasil, é digna de nota a análise do pensamento charroniano desenvolvida por Flávio Loque, em Ceticismo e Religião no início da Modernidade (São Paulo: Edições Loyola, 2012).

[2] Les Trois Vérités (1593/95); De la Sagesse (1601/1603); Petit Traité de la Sagesse (1602) e Discours Chrestiens (1601/04).

[3] Até onde sei, a última publicação do As Três Verdades se deu na França, em 1970, numa edição que se limita a reproduzir a impressão de 1635. Cf. CHARRON, P. Oeuvres. Tome II. Genève: Slatkine Reprints, 1970. Até o presente momento, não tenho qualquer notícia da existência de uma obra que se dedique a analisar, de maneira exclusiva, a argumentação do As Três Verdades.

[4] Atualmente, procedo a uma tradução comentada da referida seção de As Três Verdades, que deverá ser apresentada ao programa de pós-doutorado do LABÔ/PUC-SP no primeiro semestre de 2022. No que concerne a traduções das obras charronianas para o português, há uma edição do Pequeno Tratado da Sabedoria (Petit Traité de la Sagesse) publicada pela UFMG em 2006.

[5] CHARRON, P. Les Trois Vérités. Genève: Slatkine Reprints, 1970, cap. 3, p. 8.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem.

Imagem: retrato de Pierre Charron (autor não identificado)

Sobre o autor

Ricardo Mantovani

Pós-doutorando em Filosofia pelo LABÔ/PUC-SP, licenciado, bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Especialista em Filosofia da Religião e Filosofia Política, coordenador e professor do curso de pós-graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI, coordenador do Núcleo de Apologética e Ateísmo do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ e membro do Núcleo de Estudos Agostinianos do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.