Pensamento público

Entrevista: John Kekes

Junho de 2021

No início da introdução de sua obra The Human Condition, o senhor afirma que o principal argumento do livro é que “the secular view of the human condition is the most reasonable approach to our well-being”. O que quer dizer com essa afirmação?

Temos que buscar o nosso bem-estar nas condições do mundo que conhecemos. Isto é o que a visão secular faz. O que está além do mundo que nós conhecemos é uma questão de especulação. Há várias especulações sobre isso. Todos os grandes sistemas metafísicos, as perspectivas religiosas, as visões poéticas vão além do mundo natural que conhecemos. Sobre o resto, somos ignorantes. As especulações sobre o que está além do que sabemos talvez sejam uma irresistível disposição humana. Mas elas são, eu repito, especulações não fundamentadas pela razão ou por evidência. A busca pelo nosso bem-estar não deve estar baseada nessa premissa especulativa incerta.

Também na Introdução da obra citada, o senhor fala que sua visão “é pluralista, não absolutista”. O que significa ser pluralista na tradição de pensamento à qual se filia?

A resposta longa está no meu livro The Morality of Pluralism. O que eu quero dizer com pluralismo é que há uma grande variedade de valores: estético, histórico, moral, pessoal, político, religioso, além de modos de avaliação. Esses valores frequentemente entram em conflito. Seguir um é também, frequentemente, incompatível com seguir o outro. Há razões para muitos desses valores, mas a força das razões varia dependendo dos contextos e condições – e contextos e condições mudam. Exceto em conflitos trágicos, há sempre respostas plausíveis, mas o quão plausível é uma resposta depende de condições e contextos predominantes. O contexto ocorre em um período de guerra ou de paz, em uma sociedade próspera ou pobre, em uma sociedade criminosa ou cumpridora da lei, no meio de alguma adversidade natural, como uma epidemia, ou quando a vida está prosseguindo naturalmente? Os absolutistas reivindicam e os pluralistas negam que exista um valor ideal que seja sempre, em todos os lugares, em todas as circunstâncias, mais importante do que qualquer consideração. Isto é uma visão pluralista, que rejeita tanto o relativismo – que nega que o que é de valor depende de nada mais sólido do que a opinião de uma pessoa que tem de tomar uma decisão – e também rejeita a visão absolutista de que haja somente um valor absoluto que anula qualquer consideração que com ele possa colidir.

O que caracteriza a contingência, central na sua reflexão sobre a condição humana? Somos vítimas de forças cegas e incontroláveis? Estamos completamente rendidos à contingência?

A contingência significa que, embora nós possamos controlar muito da nossa vida e da nossa sociedade em termos de lei, moral, política, prudência, ciência e tecnologia, nosso controle é limitado. Não podemos prever quantas de nossas vidas podem mudar. Nem podemos prever quais condições, adversidades e crises podem ocorrer no futuro. Nossas fontes são sempre limitadas e frequentemente precisamos agir com base em nossas informações e conhecimentos imperfeitos. Nós não somos vítimas. Nós somos seres falíveis, imperfeitos, que quase sempre erram por ignorância ou falta de atenção. Nem todas as forças são incontroláveis. Há muita coisa no mundo natural que podemos controlar através de planejamento, do estudo de nossos erros e sucessos do passado e usando o que sabemos. Estamos sujeitos à contingência, mas não somos governados por ela. Nós temos controle, mas ele é imperfeito.

Qual o lugar da religião nesse horizonte? Ela serve ainda algum propósito na lida com a contingência?

A religião é uma questão privada de como enxergamos o sentido da vida. Ela dá esperança a inúmeras pessoas e dá direções de como viver. O conservadorismo é uma visão política. A maioria dos conservadores é religiosa. Eu não sou, enquanto alguns dos meus amigos mais próximos são. É perigoso misturar religião e política, como sabemos a partir da história terrível de guerras e conflitos religiosos. A separação entre política e religião é parte da Constituição Americana e protegeu a sociedade americana das crises que ocorreram e continuam a ocorrer no mundo.

Franz Kafka teria dito que “Existe esperança, esperança infinita – mas não para nós”. O senhor concorda? O que e até onde podemos esperar?

Não conheço essa citação de Kafka e eu não sei o que significa. Como o universo pode ter esperança? Os seres humanos podem certamente ter esperança. Algumas esperanças humanas são razoáveis, outras não. Depende daquele que tem esperança, qual, e em quais circunstâncias. A mesma coisa em relação ao amor, amizade, aventura, riscos etc.

Como o tema do mal, que também é objeto de seus estudos, se relaciona com a sua reflexão sobre a contingência?

Eu escrevi dois livros sobre o mal: Facing Evil e The Roots of Evil. Eu não posso dar uma reposta completa para a sua pergunta. Eu realmente acho que os atos de maldade são frequentes, assim como são as pessoas. Pessoas e ações se tornam más pela combinação de causas psicológicas e sociais. Eu não acho que os seres humanos sejam basicamente ou bons ou ruins. Eu acho que os seres humanos são ambivalentes e se eles ou suas ações são basicamente boas ou más, depende do contexto em que vivem, de experiências de suas vidas e de sua vontade de refletir sobre o que interessa na vida que estão vivendo.

Imagem: divulgação

Sobre o autor

Rodrigo Coppe

Historiador e professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas. Pós-doutor em Filosofia social pela Universidade de Varsóvia (2020). É presidente do Conselho Científico da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião - ANPTECRE (2018-2020). É membro do Institut d’Étude du Christianisme (Strasbourg, França), investigador associado da rede de pesquisa Direitas, História e Memória. Coordena o GT Religião e Espaço Público na SOTER e o ST Catolicismo e política: entre conservadores e progressistas na ANPUH. É líder do Laboratório de Estudos em Religião, Modernidade e Tradição (LeRMOT) e um dos líderes da Rede de Pesquisa História e Catolicismo no Mundo Contemporâneo. Pesquisador do Projeto “Bolsonarismo: o novo fascismo brasileiro” do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.