O Vazio Existencial na Contemporaneidade

Sua responsabilidade na desordem da qual se queixa

Um diálogo possível entre a Maturidade Kleiniana e a Tese do Otimismo Trágico

De acordo com o dicionário, maturidade significa: “estado ou condição daquele que (…) age com reflexão, bom senso”. Nessa linha, maturidade emocional pode ser compreendida como a capacidade de situar e calibrar as próprias emoções de acordo com as situações que se apresentam ao longo da vida, escolhendo a melhor e mais honesta resposta dentro dos limites existentes na realidade que nos cerca.

“Mais fácil dito do que feito”, pensa o leitor em uníssono. Por que então alcançar tal maturidade emocional (e com ela uma vida menos à mercê do pânico, medo, insegurança), independentemente de sua idade biológica, é tão difícil? Existem caminhos ou escolhas que auxiliam a sua conquista?

Autora da Escola Britânica de Psicanálise, Melanie Klein inova e avança o pensamento de Sigmund Freud ao focar seu trabalho psicanalítico em crianças pequenas, uma novidade até então. Dentre tantas contribuições, ela teorizou que existem dois modos básicos de funcionamento mental nos humanos, denominados por ela de “Posições”, que se manifestam desde o primeiro segundo de vida. Elas nos caracterizam enquanto espécie (todo ser humano nasce com ambas), e se intercalam durante a vida, dependendo das situações em que nos encontramos.

O resultado da interação entre as duas posições (que são internas, pulsionais, inconscientes – arrisco dizer genéticas) e o mundo externo, com as experiências diárias, é que possibilitam o amadurecimento biológico e psíquico das pessoas. As relações que estabelecemos com os outros e com o mundo, portanto, influenciam drasticamente nosso modo de ser e os resultados que teremos em uma situação desafiadora.

Filhotes de seres humanos são precários quando comparados com outras espécies, e precisam de cuidados prolongados para que sobrevivam. Talvez você não se recorde, mas ser bebê também foi complicado. Seu aparelho cerebral contava apenas com a ”programação de fábrica”, nada desses milhões de sinapses e arquivos de memória que você hoje possui. E sendo seu diminuto corpo uma massaroca fofinha, sem dentes ou equilíbrio, lidar com itens básicos de sobrevivência, como saciar a fome ou dar fim ao desconforto de uma fralda suja, certamente lhe causou estresse.

A primeira e mais primitiva posição denomina-se esquizoparanoide. Rudimentarmente, se caracteriza, entre outros aspectos, pela ansiedade decorrente da descoberta por parte do bebê de que ele precisa de ajuda para sobreviver. Ele reconhece que há um outro lá fora (que aqui chamaremos de ”mãe”, mas pode ser qualquer pessoa com a função de cuidador), que vem ao seu socorro quando ele precisa, e é somente por isso que ele ainda se encontra vivo. Este ”outro” é, portanto, maravilhoso e salvador. Do alto de seu cérebro ainda imaturo, o dependente bebê enxerga a mãe como ideal e a ama com todo o seu coração.

Algumas vezes, entretanto, a mãe demora um pouco mais para responder (porque uma campainha toca, um feijão ferve, o chefe liga, um outro filho exige atenção), e o bebê, dada a sua limitação biológica para entender a realidade externa, imagina que a mãe boa, amada e por ele idealizada foi raptada, escondida, trocada, e em seu lugar chegou uma impostora: uma mãe ruim, cuja única função no mundo é fazer o neném esperar. Nessa época da vida, não conseguimos integrar nosso objeto de amor em um só: o mundo é fragmentado e entendido separadamente (uma mãe perfeita, que satisfaz as minhas vontades, e uma persecutória, que não se importa comigo). A ameaça de que a mãe ruim tome o lugar da boa tira para sempre o sono do bebê, a ponto dele se utilizar de toda a força existente em seu pequeno ser para primitivamente “mentalizar”, “desejar”, “pedir” que a mãe ruim desapareça.

Conforme os primeiros meses de vida vão passando, ocorre a natural maturação do cérebro e a incorporação de objetos parciais em objetos inteiros. Isso se dá através da experiência de desmame, do desenvolvimento dos canais visuais e auditivos, somados a experiências diárias de cuidado entre mãe e bebê, espera, frustração e saciedade. O bebê mentalmente começa a perceber que não existem duas mães, e sim uma só, que pode ser maravilhosa, mas que às vezes demora, falta, se cansa, e não sabe tudo. O mundo não é tão cor-de-rosa assim.

Klein nomeia a segunda posição de Depressiva – quando o bebê desenvolve uma certa ansiedade ao se dar conta de que a mãe boa e a ruim são na verdade uma só. A ansiedade advém da percepção de que ele desejou que a mãe (ruim) desaparecesse num dado momento, e há um pânico enorme de que seus desejos se realizem e ele perca a mãe para sempre (afinal, ela é uma só). Ora, se a mãe boa e a ruim são a mesma, nem sempre ela estará disponível para responder aos meus caprichos: é urgente que eu faça alguma coisa a respeito. O medo de perder o outro não traz apenas remorso, mas uma urgência de ação, de modificar e reparar o mundo, que passa a ser visto, como consequência, de forma mais rica e realista.

Pode-se concluir que a natural maturação biológica vem atrelada a um certo grau de frustração e desconforto, no sentido de que crescer, avançar na vida, envolve muitas vezes perder (psíquica e fisicamente) um estado familiar de ser no mundo, e vem acompanhado da necessidade de elaboração do estado novo.

A capacidade de o indivíduo se adaptar às novas realidades produzidas diante das perdas naturais e impostas pela vida servem como modelo, compondo um repertório de respostas e comportamentos que mais ou menos norteiam nossas ações.

Diante de uma situação qualquer de maior sufoco, entretanto, calibrar nossas emoções e respostas pode ser bem mais difícil: podemos nos encontrar novamente como o bebezinho de anos atrás, num espaço mental mais esquizoparanoide, de negação, de ansiedade, de medo e de fragmentação da realidade (aquela dificuldade que todos conhecemos de como enxergar o todo e de encontrar uma saída).

É seguro assumir que, para Klein, o conceito de Maturidade se define quando, mesmo diante de tais situações de incerteza, o indivíduo consegue se manter localizado na posição mental Depressiva, que integra a realidade sem permitir que o pânico tome conta, que enxerga a vida de forma menos polarizada e que exige mais responsabilidade para agir e mudar o que pode ser mudado, assim como para aceitar o que não pode ser.

Viktor Frankl, criador da Logoterapia e um crítico ativo da Psicanálise tradicional, é um dos mais influentes e duradouros pensadores do século XX. Sua tese do Otimismo Trágico versa sobre a manutenção de esperança apesar de experiências trágicas na vida, e a ideia de que devemos nos munir de coragem e tenacidade para buscarmos nossos objetivos. É da experiência de ultrapassar desapontamentos e adversidades que aprendemos a importância de abraçar a vida como ela se apresenta, também com seus aspectos negativos.

Partindo-se do pressuposto de que o sofrimento é uma dimensão enorme e inevitável da existência humana, como encontrar esperança? Como a minha vida pode valer alguma coisa, quando sou atravessado pela dificuldade e meu pão nosso de cada dia tem sabor de desespero? Segundo Frankl, a saída encontra-se em exercer a capacidade de se tornar otimista (trágico), ao permanecer positivo ante os três aspectos inevitáveis da existência humana, quais sejam, dor, culpa e morte. Todo ser humano experienciará a tríade. De fato, dela não podemos fugir.

Frankl também pressupõe que, potencialmente, a vida sempre tem um sentido em si – mesmo nas horas mais assustadoras e miseráveis – e ele defende a capacidade humana de transformar criativamente os aspectos negativos da vida em algo construtivo. Em outras palavras, o que importa é o posicionamento pessoal e a atitude perante os desafios colocados em seu caminho, e quanto de responsabilidade assumimos de fazer com que cada um dos nossos tenha sentido. Dias integrados, realistas e maduros.

Para ele, a capacidade de se reerguer na crise se dá quando conseguimos, diante de uma situação delicada, transformar o sofrimento em conquista, em realização, por menor que seja. Está também em retirar daquele sentimento de culpa, que por vezes nos inunda, uma oportunidade de mudar a nós mesmos, e, finalmente, fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis.

Frankl não defende a busca por uma felicidade ilusória e rasa, de comercial de margarina; ele propõe a busca por uma razão para ser feliz sempre, sendo a felicidade apenas um subproduto de escolhas responsáveis. Os caminhos por ele propostos para tal empreitada são o trabalho, experimentar algo ou encontrar alguém (dito de outro modo, o sentido da vida pode ser encontrado no amor). Quando, entretanto, sem muitos recursos, numa situação de desesperança, o que resta é o enfrentamento do destino que não se pode mudar com uma atitude de reconstrução, de erguer-se acima de si mesmo, com o objetivo de transformar a tragédia pessoal em triunfo. A máxima “se não puder mudar a situação que causa seu sofrimento, escolha então sua atitude” nunca fez tanto sentido.

Cada indivíduo deve descobrir seu propósito por si mesmo, o porquê de viver, e aceitar as implicações de sua resposta, arcando com as consequências que ela lhe traz. Viktor Frankl é um pensador que nos lembra, a todo minuto, da responsabilidade que temos em decidir pelos próximos passos, por piores que sejam as circunstâncias, e, principalmente, da nossa responsabilidade em reparar o mundo.

A despeito de sua histórica crítica à Psicanálise clássica, é possível afirmar que ele se mostra coerente com o conceito de maturidade em Klein, condenando a fragmentação do cotidiano e do fazer sem sentido, uma vez que isto seria uma forma de fuga, de negação. Viver fragmentadamente é permanecer na posição esquizoparanoide, evitando viver em completude e com responsabilidade.

Crescer, amadurecer e ser merecedor de uma existência que tenha sentido significa implicar-se, uma vez que, sem enfrentamento e decisão, nao há avanço. Maturidade tambem é entender que a vida possível não vai chegar, ela já está acontecendo. A grande questão, individual e intransferível, é como criativamente vivê-la dentro dos meus proprios limites, com responsabilidade – e por que não? – com alguma alegria.

Bibliografia

Cavalcanti, A. S.; Samczuk, M. L., Bonfim, T. E. (2013) O conceito psicanalítico do luto: uma perspectiva a partir de Freud e Klein. Psicol inf. [online]., vol.17, n.17, pp. 87-105 (acesso em 6 de setembro de 2021)

Cintra, E.M. U., Figueiredo, L. C. (2010). Melanie Klein: Estilo e Pensamento. Editora Escuta, 2ª edição

Frankl, V. (2017). Em Busca De Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Editora Vozes, 1ª edição

Frankl, V. (2010) O que não Está Escrito nos Meus Livros, Editora É Realizações, 1ª edição

Michaelis Dicionário Escolar (2016) – Língua portuguesa, Editora Melhoramentos, 4ª edição

Segal, H. (1991). Klein. Karnac Books. 2nd edition.

Ryan, W. F. (2010). The Elements of Ethics in Viktor Frankl. Acesso em 4 de setembro de 2021

Wong, P. T. P. (2007). Viktor Frankl: Prophet of hope for the 21st century. Appears in: A. Batthyany & J. Levinson (Eds.), Anthology of Viktor Frankl’s Logotherapy. Phoenix, AZ: Zeig, Tucker & Theisen Inc.

Imagem: The Crèche (1890), Albert Anker

Sobre o autor

Beatriz Zanichelli Sônego

Psicóloga Clínica pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Mestranda do programa de Psicoterapia Psicanalítica da University of Essex – Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, e Pesquisadora do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.