O Vazio Existencial na Contemporaneidade

Quando a dor se torna monumento: A literatura de testemunho e o sentido da memória

Esquecer é também enterrar a história da primeira vez que uma bomba de destruição em massa foi utilizada contra a humanidade. É permitir que, um dia, alguém com supostas boas intenções[…] possa repetir esse feito”.
Takashi Morita em A Última Mensagem de Hiroshima, p. 65

A imagem mais comum que temos ao lembrar de Hiroshima são as ruínas que resistiram à explosão da bomba atômica. Quem vai a Hiroshima esperando encontrar uma cidade mórbida terá suas expectativas arrasadas, pois o local consagrado pelo estopim da era nuclear não é como as pessoas imaginam ser. Coroada com uma liga de montanhas, altos prédios e um planejamento urbano magistral, Hiroshima representa hoje o rosto de um povo que escolheu manter intacta a cicatriz de seu sofrimento. No coração da cidade, o Parque Memorial da Paz de Hiroshima registra a contradição humana explicitamente. Ele abriga o fato de que a mesma humanidade, capaz de lançar uma bomba atômica para ceifar a vida de milhares, possui também o poder de transformar um lugar de morte em uma mensagem de esperança e resiliência. 

Os anos que sucederam o desastre em Hiroshima foram marcados por divisões. O monumento conhecido por ter resistido à explosão, A-bomb Dome, carregava as dolorosas lembranças do que havia acontecido, provocando parte da população local a desejar sua completa destruição. Em contrapartida, vozes que clamavam por justiça se reuniram, reivindicando a preservação do monumento a fim de torná-lo um símbolo de paz ao mundo. Em um dos panfletos que circulavam nos anos 1960, Hiroko Kajiyama, uma das sobreviventes da tragédia que inspirou o movimento de preservação, afirmava: “Deixar a Cúpula se deteriorar significa ignorar as últimas palavras desta vítima”. Em 1967, após coletadas doações de várias partes do Japão e do mundo, foi possível implementar o primeiro projeto para preservação do monumento. Preservar o A-bomb Dome no centro da cidade significou manter viva no presente a memória de um passado trágico, de modo a cultivar um futuro de paz.

Da mesma maneira que um monumento é mantido, como um meio para lembrar o que se passou naquele lugar, quem escreve sobre a própria experiência trágica encontra na escrita um caminho para manter ou edificar um monumento. Nos relatos de sobreviventes de tragédias há espaço para refletir sobre a capacidade que o ser humano encontra no sofrimento inevitável. Pessoas que sobreviveram a experiências traumáticas recontam suas memórias com objetivos vários. Além de podermos observar que em cada obra há uma maneira única de lidar com a dor, também um pano de fundo parece surgir em meio às nuances escritas: o desejo de marcar e deixar registrada a capacidade que o ser humano tem de destruir a si e a própria humanidade. Nesse cenário, a intenção de criar um monumento que (re)lembre a todos sobre essa capacidade, serve como um recurso para que a tragédia não se repita.

Desviando do clichê das mensagens de positividade, autores que enfrentaram a tarefa árdua de escrever sobre as próprias dores trazem essa mistura de esperança atravessada por situações de sofrimento inimaginável. No testemunho desses autores percebemos que ninguém está imune, nem preparado, para encarar o trágico do absurdo na própria vida. Viktor Frankl, em sua tríade trágica, já preconizava que ninguém escapa do sofrimento, da culpa e da morte. Continuar vivendo é um ato de resistência que requer a consciência desse existir ambivalente.

A imagem de alguém escrevendo sobre a própria tragédia pode esbarrar na romantização de que o autor viva uma epifania e alcance a capacidade sobre-humana de falar sobre seu trauma a partir de um lugar amoroso e compassivo. Na realidade, nem sempre isso se dá dessa forma, e o processo não é tão poético quanto parece. O próprio Viktor Frankl ditou seu livro mais conhecido, Em Busca de Sentido, durante o que denominou um tipo de catarse, num período extremamente doloroso no seu retorno a uma Viena pós-guerra, onde nenhum de seus entes queridos se encontrava vivo. Edith Eva Eger, também sobrevivente da Shoá, levou décadas para conseguir falar e escrever sobre o assunto. Elie Wiesel, vencedor do Nobel da Paz e sobrevivente da Shoá, deixou um testemunho contundente e infiltrado por questões sem respostas. Primo Levi escreveu que a morte, numa realidade longa e absolutamente cruel, parecia o menor dos problemas no enfrentamento do nazismo. A exposição desses relatos estampa uma vulnerabilidade absolutamente humana e uma ambivalência incontestável para quem é sobrevivente.

Na vida real o testemunho humaniza mais do que romantiza. É uma confirmação de que a tríade trágica existe e não haverá saída coerente na negação de uma tragédia, tampouco em sua apologia. Nesse contexto, a realidade se impõe. Takashi Morita, sobrevivente da bomba atômica de Hiroshima, encontrou no testemunho uma possibilidade de conscientização. Já maduro, escreveu seu livro e até seus 90 anos era o ator principal da peça de teatro que traz o relato de 3 sobreviventes da explosão da bomba atômica. Em seus relatos não há traços de mensagens prontas ou frases de comando sobre a coragem. Morita se compromete num testemunho que pensa na paz como uma missão e não um ideal isento de ação. Ao contrário, é na ação que está o enfrentamento e é na consciência que surge a possibilidade da responsabilização.

Compreender a literatura do testemunho numa chave de dignidade é enxergar em cada relato um monumento erguido em meio a outras experiências que forjam, integralmente, a experiência de um indivíduo. O sentido, aqui, passa pela experiência única e irrepetível de quem se disponibiliza a sustentar o próprio monumento apesar de toda a dor que ele possa representar. Ainda que seja sofrimento, é parte da vida, é parte da história pessoal e coletiva, é um memorial à ambivalência da vida e do viver.

Ao pensar em sentido é comum entendê-lo como uma direção ou como algo pronto que trará realização pessoal, uma explicação para o inexplicável. Contudo, em situações adversas, o sentido pode ser de outra ordem. Nesses momentos, o encontro com o sentido pode surgir como a possibilidade de decodificar o que se viveu e achar ali dignidade, ainda que não haja uma explicação lógica de um motivo para tal. É um traço que se infiltra na literatura do testemunho a indagação: “Por que eu? Por que comigo?”. Essa resposta raramente é encontrada por um sobrevivente, algo inclusive que frustra os mais otimistas. Apesar disso, ao longo dos relatos e experiências, o porquê se afasta gradativamente da linha de interesse e cede espaço ao para quê.

Com o tempo o sobrevivente se vê obrigado a seguir com sua vida e deixar ali, em meio à sua história, a marca do seu sofrimento. Ao incorporar a realidade de sua vida e abraçar sua ambivalência, o sofrimento então ganha ares memoriais. Expor esse monumento é decodificar a experiência, enxergar finalidade e, assim, encontrar com o sentido. A literatura monumental não apela para a espetacularização da experiência ou almeja alguma admiração pessoal. Pelo contrário, sua forma incorpora uma mensagem transformadora, um legado que se torna um alerta para o futuro. Aquele que ergue um monumento o faz ao ouvir o chamado da vida e, corajosamente, responder a sua vocação. 

A literatura de testemunho é um monumento, um apelo à realidade e um voto de fé que visa evitar que aquela tragédia se repita. Manter esse passado vivo lembra o que deve ser levado adiante e o que deve se evitar no futuro. Para cada testemunho e cada relato não haverá sempre um porquê, mas pode haver um para quê. É no memorial, no monumento e no testemunho que encontramos algumas pistas de superações históricas. Para essa reflexão Frankl escreveu: Se é que a vida tem um sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. 

Deixamos nesse texto nosso respeito a Takashi Morita, falecido no último dia 12 de agosto de 2024 aos 100 anos, que, ao escrever A Última Mensagem de Hiroshima, ergueu também um monumento para as futuras gerações: “Vou continuar contando minha história e acreditando na paz. Espero que outras pessoas possam se juntar a mim, pois esse é um caminho longo, o qual não podemos trilhar sozinhos”. (pg. 148)

Referências

Eger, Edith Eva. A  Bailarina de Auschwitz. Rio de Janeiro, Editora Sextante.

Frankl, Viktor. Em Busca de Sentido. São Leopoldo, Editora Vozes. Petrópolis, Editora Sinodal.

Frankl Viktor. Sede se Sentido. São Paulo, Editora Quadrante.

Levi, Primo. É isto um homem?  Rio de Janeiro, Rocco Editora.

Morita, Takashi. A Última Mensagem de Hiroshima. São Paulo, Editora Universo dos Livros.

Wiesel, Eli. A Noite. Rio de Janeiro, Editora Sextante.

Imagem: A-bomb dome – Hiroshima, Japão (Oilstreet/Wikimedia Commons)

Sobre o autor

Kelma Mazziero

Graduada em Direito, com pós-graduação em Ciências da Religião e pós-graduação em Logoterapia e Análise Existencial pela Universidade Católica Argentina (UCA). Pesquisadora do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

Sobre o autor

Samuel Kamohara

Graduando em Psicologia na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). É pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia Humanista e Existencial (UFCSPA) e do grupo O Vazio Existencial na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.