O Vazio Existencial na Contemporaneidade

Tu tens um medo de acabar e acabas por não viver: uma ode ao sentido da vida

Cântico VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles  (MEIRELES, 2001, p. 124)


À medida que a História da humanidade se constrói, assim também se faz a Literatura, ora se debruçando em novas questões, ora lançando um novo olhar sobre velhas questões históricas. É nesse último caso que se encaixa o poema “Cântico VI” de Cecília Meireles, que trata justamente de um fato existencial ao qual todos nós estamos sujeitos, alguns mais cedo e outros mais tarde: a morte. Em tempos de pandemia e de um “novo normal” sobre o qual ainda pouco sabemos, há também aquilo que permanece e sobre o qual podemos nos debruçar um pouco mais, qual seja, a vontade de sentido do ser humano, em meio a sua condição de finitude e a relação com as redes sociais.

Não restam dúvidas quanto à fala da poetisa Cecília Meireles, quando afirma a cada um de nós que “tu tens um medo: acabar”. Mais do que nunca, vivendo no atual contexto da pandemia da Covid-19 e de distanciamento ou isolamento social, está claro para nós que fomos impelidos a estar cara a cara com a morte. Abandonados à própria sorte, longe dos entes mais queridos, por tantas vezes desamparados pelo poder público e, no caso dos mais privilegiados, restritos ao ambiente familiar e ao trabalho em home office, é impossível fecharmos os olhos e não enxergarmos que nós de fato acabamos todos os dias. É justamente nesse momento de vulnerabilidade que pode emergir uma atitude fugidia, de tentativa de correr contra o tempo, de virar a ampulheta de cabeça para baixo a qualquer custo ou até mesmo ignorar que, enquanto temos tempo, é tempo para se realizar.

Nessa perspectiva, a pandemia apenas escancarou o enclausuramento em que temos vivido, imersos nas redes sociais dias e noites, noites e dias sem cessar, pois agora temos que admitir para nós mesmos que há muito vivemos em distanciamento pessoal. Se nos sentimos presos nesse tempo pandêmico que insiste em não passar, o jeito aparentemente mais fácil é uma forma também aparentemente despretensiosa de passarmos o tempo, que nada mais é do que o uso das redes sociais. 

O filósofo Martin Heidegger, em sua obra Os conceitos fundamentais da Metafísica faz uma extensa elaboração sobre o fenômeno do tédio existencial e distingue três formas: o “ser entediado por algo”, que acontece quando um objeto ou situação nos é entediante e tentamos “matar o tempo” com algum passatempo qualquer; o “ser entediado junto a”, quando não sabemos exatamente o que nos deixa entediados, porque na verdade nós mesmos somos entediantes, sendo o passatempo uma fuga de si mesmo; e, por fim, o “é entediante para alguém”, o tédio profundo, em que tudo se torna vazio e no qual nos deparamos com o fato de pertencermos ao tempo e experimentamos nossa indeterminação ontológica que é o nada-de-si-mesmo. Esse último tipo de tédio é, sem dúvidas, o que menos experimentamos, já que não damos conta em nossa cotidianidade de encarar que estamos sempre abertos para fazer escolhas e para poder-ser – não é à toa que o ser humano é o único animal que tem um verbo no nome, é preciso agir.

Todavia, é quando sentimos esse tédio existencial – esse sentimento de que o tempo se alonga e a cada instante sempre hesita novamente em passar – que a “sociedade hipermoderna” descrita pelo filósofo Gilles Lipovetsky tenta nos vender que precisamos preencher nossos vazios com excessos, e, infelizmente, é muito comum comprarmos essa ideia. Assim, a hipermodernidade é a era do hiperconsumo e da hipervelocidade, na mesma medida em que é a era do vazio existencial, da tentativa desesperada de renovar a existência cotidiana. Daí nossa voracidade em rolar a tela do celular horas e horas a fio, de novo, de novo e mais uma vez. Daí também nos instigarmos a consumir o próprio tempo de maneira virtual, ainda mais quando ele ousa se alongar. 

Há um ditado popular que resguarda tamanha sabedoria em tão poucas palavras: “para morrer, basta estar vivo”. Enquanto sentimos tédio de nós mesmos e nos entorpecemos de redes sociais, porque queremos que a pandemia, o expediente e às vezes até o fim de semana acabe logo, também fazemos com que acabemos em breve, muito embora acreditemos que ainda temos tempo para passar. Entretanto, essa é uma nítida recusa ao fato de que o tempo não nos pertence, quando, verdade seja dita, somos nós que pertencemos ao tempo. O tempo do “depois” ou do “mais tarde” não é nosso, mas ele pode ser se assim desejar. Ser hipermoderno não é sinônimo de ser senhor do tempo. Para nós, fazer escolhas no tempo presente possivelmente é o que mais se aproxima disso. 

Embora esse seja um esboço do cenário atual – medo da morte, tédio existencial e hiperconsumo das redes sociais – de forma alguma isso é uma declaração pessimista de algo já determinado, especialmente se levarmos em consideração o pensamento de Viktor Frankl, neuropsiquiatra sobrevivente a quatro campos de concentração nazistas e fundador da chamada Terceira Escola de Viena, a Logoterapia. Frankl elaborou a sua tese do “otimismo trágico”, segundo a qual é possível dizer sim à vida apesar da “tríade trágica” inerente à existência humana – a dor, a culpa e a morte. Quanto a esse último ponto, a morte, Frankl considera que a cada instante da vida estamos morrendo e, portanto, pode ser que essa transitoriedade seja justamente um impulso para aproveitarmos da melhor maneira possível o tempo existencial que ainda temos.

De modo geral, se sentimos um vazio e frustração existencial, é porque criamos projetos, fazemos planos, queremos algo que não conseguimos – no entanto isso não quer dizer que não podemos tê-lo. Enquanto seus antecessores, Freud e Adler, consideravam a vontade de prazer e a vontade de poder norteadoras da vida humana, na bússola frankliana é o sentido da vida que nos guia. Então, a frustração existencial dos hipermodernos nada mais é do que um sinal e um efeito colateral da corrida desesperada em encontrar o sentido por meio da autorrealização, pelo prazer incessante da satisfação de si mesmo enquanto tentam segurar o tempo nas próprias mãos, quando na verdade ele segue escoando por entre os dedos. Por essa razão, a Logoterapia critica esse ideal de um estado livre de tensões e porque não o slogan da sociedade hipermoderna – aquele tal prazer repetitivo alcançado nas telas para fugir do tédio e da morte – ao considerar a noodinâmica, algum grau de conflito, fundamental para a existência. 

Em outras palavras, na concepção frankliana o ser humano é dotado de vontade de sentido, contudo, a forma que temos vivido nossa existência cotidiana somente nos desvia dessa busca pelo sentido. Afinal, enquanto estamos vazios de sentido, a sociedade dita hipermoderna nos vende e entorpece com doses diárias de prazer, numa vida virtualmente programada para nos manter em um ciclo vicioso. Mas não há como criar somente na velocidade das redes, não há como preencher um vazio do tédio de mim mesmo ou do mundo num scroll contínuo, não há como de fato encontrar pessoas só na impessoalidade de um chat. Toda a sua melatonina sugada pela luz azul é toda a sua energia drenada para realizar qualquer possibilidade de sentido. Então, como realizar sentido em tempos de pandemia? A resposta frankliana é a autotranscendência, ou transcender a si mesmo, o movimento de estar para fora, de enfim estar no mundo. 

Dessa maneira, o que Frankl quer dizer com o sentido se realizar na autotranscendência é que ele não está no próprio sujeito que o vivencia, mas no mundo. É preciso romper com esse looping de aprisionamento em si mesmo nessa experiência de prazer estendido através das redes sociais. Mais do que nunca, se ainda temos tempo, é tempo de realizar os valores nas três formas que Frankl aponta: criatividade (dar algo ao mundo, uma obra, um trabalho); vivências (receber algo do mundo, encontrar algo ou alguém); e atitudes (posicionar-se diante do sofrimento inevitável). Na sua visão, o sentido da vida é uma exigência objetiva e está no mundo. Como ele nos lembra, buscar o sentido da vida não é interrogar a vida para descobrir onde ele está, mas buscar responder as perguntas que a própria vida lhe faz.

Aqui é importante retomarmos o poema de Cecília Meireles, que, ao dizer que morremos todos os dias, também traz o outro lado da mesma moeda da nossa própria existência: nos renovamos todos os dias por meio das nossas escolhas e experiências. Tendo isso em vista, quando a médica especialista em cuidados paliativos Ana Claudia Quintana Arantes diz que “as pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido” (ARANTES, 2016, p. 26), se torna muito mais claro que o medo de acabar é também o medo de acabar sem sentido algum. Essa é a importância crucial das escolhas na visão frankliana.

Não morremos somente no dia da nossa morte. Morremos a cada dia que vivemos, conscientes ou não de estarmos vivos. Mas morremos mais depressa a cada dia que vivemos privados dessa consciência. Morreremos antes da morte quando nos abandonarmos. Morreremos depois da morte quando nos esquecerem (ARANTES, 2016, p. 29, grifo nosso).

Outra importante reflexão a partir de “Cântico VI” é sobre a questão de fazermos escolhas e, em relação a esse ponto, Frankl diferencia a “liberdade de” da “liberdade para”. A primeira está atrelada à ideia de que somos livres de todas as coisas e, por essa razão, tudo podemos fazer; já a segunda diz respeito ao binômio inseparável para a Logoterapia, a liberdade com responsabilidade. Quer dizer, a noção frankliana de liberdade entende que somos livres para realizar e isso necessariamente pressupõe responsabilidade em relação às consequências. É a responsabilidade de respondermos àquilo que a vida nos convoca. 

A era hipermoderna e as contínuas tentativas de “matar o tempo” representam um processo de desresponsabilização pela própria existência, sob o imperativo da “liberdade de”. Ora, se somos livres de todas as coisas, assim também somos para ignorar nossas escolhas enquanto consumimos nosso tempo no feed do Instagram. De outra forma, se agirmos sob a lógica da “liberdade para”, viveremos o tempo para realizar sentido. Nesse contexto, é preciso resgatar a responsabilidade pela própria vida e tirar o melhor que podemos do tempo existencial que ainda temos. E então cada um de nós será eternizado em memórias como aquele que buscou e viveu com sentido.

Nós temos tanto medo de acabar que no fim das contas acabamos por não viver. É dessa forma que, versando sobre a morte, Cecília Meireles também versa sobre a vida e, para os leitores mais atentos, sobre o sentido da vida. A vida não é tão somente o que acaba todos os dias, mas especialmente o que se renova todos os dias. Se a hipermodernidade nos faz máquinas, nosso combustível é o prazer encontrado nas redes sociais; nossa engrenagem consome tempo; tédio e medo da morte nos estagnam. É preciso nos fazermos seres humanos, uma vez que, se temos vontade de sentido, o que nos falta é aceitarmos nosso pertencimento ao tempo para escolhermos com responsabilidade e aproveitá-lo buscando nosso sentido no mundo. É, pois, nesse panorama que, como fala Ana Arantes já no título de sua obra, “A morte é um dia que vale a pena viver: E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para vida”, porque ela acontece todos os dias – assim como a vida é o que fazemos durante o nosso tempo, enquanto houver vontade de sentido, como nos lembra Frankl. E a autora complementa “quando chegar a minha vez, quero terminar a minha vida de um jeito bom: quero estar viva nesse dia”(ARANTES, 2016, p. 53), porque busquei viver e morrer com sentido.

Para usar uma analogia, pense num filme que consista em milhares e milhares de fotogramas individuais. Cada um deles vem carregado de sentido e traz um significado, mas o sentido do filme todo não pode ser visto antes que sua última sequência seja mostrada. Não obstante, não podemos entender todo o filme sem ter compreendido antes cada um dos seus componentes, cada uma das imagens individuais. Não será o mesmo com a vida? Será que o significado último da vida não se revela também (quando se revela) só no seu final, a um passo da morte? E será que também este sentido final não depende de o sentido potencial de cada situação particular ter sido realizado da melhor maneira possível, de acordo com o conhecimento e as crenças do indivíduo? (FRANKL, 2006, p. 54)

Rerefências bibliográficas

ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver: E um excelente motivo para se buscar o novo olhar para vida. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 2006.

FRANKL, Viktor Emil. Sede de sentido. 5. ed. São Paulo: Quadrante, 2016.

GIOVANETTI, José Paulo. O tédio existencial na sociedade contemporânea. In: FEIJOO, Ana Maria Lopes Calvo De. Tédio e Finitude: da filosofia à psicologia. Belo Horizonte. Fundação Guimarães Rosa, 2010.

HEIDEGGER, Martin. Os conceitos fundamentais da Metafísica: mundo – finitude – solidão. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.

LIPOVETSKY, Gilles. Os Tempos Hipermodernos. São Paulo. Barcarolla, 2004.

MEIRELES, Cecília. Poesia Completa.Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2001.

ROEHE, Marcelo Vial. Psicologia e Filosofia na abordagem fenomenológico-existencial: um estudo sobre Frankl e Heidegger. Phenomenological Studies – Revista da Abordagem Gestáltica, [s. l.], p. 323-330, 2019. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-68672019000300011&script=sci_abstract&tlng=pt

Imagem: bússola chinesa do século 19 (autor: Rama/Wikimedia Commons)

Sobre o autor

Bárbara Luzia Barbosa Martins

Graduanda em Psicologia pela PUC Minas. Pesquisadora do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.