O Vazio Existencial na Contemporaneidade

Entrevista: Aureliano Pacciolla

Aureliano Pacciolla é um dos mais renomados Logoterapeutas e Analistas Existenciais conhecidos. É formado em “Psychological Counselling”, em Innsbruck, numa das afiliadas da Associação Europeia de Terapia Comportamental, e Doutor pela Pontificia Università Lateranense. Atualmente é Psicólogo Forense, Psicoterapeuta com consultório particular em Roma, Instrutor de Psicologia Clínica e professor de Psicologia da Personalidade (LUMSA). É também perito do Tribunal Eclesiástico da Diocese de Roma e do tribunal criminal de menores (Itália). Teve uma relação próxima com Viktor Frankl, tornando-se especialista em Logoterapia e Análise Existencial em 1982, em Viena. Possui expertise no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), é autor de 9 livros, coautor de 11 livros e publicou mais de 50 artigos. Ministrou muitos cursos no Brasil sobre a prática clínica e também proferiu palestras e conferências em vários continentes. No Brasil, publicou o livro Logoterapia e Psicologia Contemporânea, editado pela Cidade Nova.

Viktor Frankl é seguramente um desses autores nos quais podemos encontrar uma impressionante coerência entre pensamento e vida. O que o senhor poderia nos dizer da sua experiência pessoal com ele? Como o conheceu?

Conheci Viktor Frankl por nome no início da década de 1970 e, em particular, quando comecei a escrever a tese para o doutorado em teologia moral.

O meu professor e orientador de tese, Bernhard Häring, conhecendo a minha paixão pela psicologia, me havia me sugerido desenvolver a tese doutoral sobre um tema de psicologia. Acolhi com entusiasmo esse convite e ele propôs abordar a Logoterapia e o seu fundador V. Frankl, que eu conhecia somente de nome, graças a algumas notas de rodapé em algum livro do próprio Häring. Naquele tempo, a literatura em italiano sobre Logoterapia e sobre V. Frankl era ainda muito pequena, quase inexistente e foi por este motivo que o próprio professor Häring sugeriu que eu escrevesse uma carta diretamente ao professor Frankl.

Fiquei muito encantado e impressionado, porque não pensei que uma personalidade ilustre como Frankl poderia ler uma carta minha e responder-me. Foi o próprio prof. Häring quem me passou o endereço de Frankl, como também foi aquele que me encorajou a escrever-lhe. Naquele tempo não havia internet, muito menos e-mail, por isso escrevi em inglês uma carta em papel normal, em uma máquina de escrever. Fiquei muito surpreso e extremamente feliz quando depois de dez dias recebi a resposta do professor Frankl. Não podia acreditar no que tinha diante dos meus olhos e com grande felicidade mostrei a carta ao Prof. Bernhard Häring. Meu primeiro conhecimento de Frankl, depois da troca de algumas cartas, ocorreu através da leitura de alguns de seus livros sobre a Logoterapia em inglês.

Naqueles anos eu costumava passar o verão italiano nos Estados Unidos, onde também fiz o meu primeiro tirocínio clínico. Em uma das primeiras cartas, Frankl me disse que havia um psicólogo e pesquisador na Itália que estava se aprofundando em Logoterapia, tratava-se de Eugenio Fizzotti. Foi dessa forma, através de V. Frankl, que conheci Eugenio Fizzotti, com quem tive uma longa e fortíssima amizade, com muitas colaborações até poucos meses antes de sua morte.

Como ele se tornou uma inspiração tão grande para o Sr. até se transformar, em suas palavras, “parte do seu DNA existencial”?

Porque a pessoa e a história de Frankl me fascinou imediatamente! O primeiro impacto com sua pessoa e história se deu através de uma espontânea identificação entre meu pai e ele. De fato, os relatos de Frankl correspondiam exatamente com os do meu pai, que também esteve recluso em um campo de trabalhos forçados em Graz, na Áustria, próximo a Viena. Contei esse detalhe a Frankl em um jantar, no qual também estava presente a Sra. Elly, e, como um sinal de solidariedade, no dia seguinte, ele me presenteou com um livro sobre Graz e com uma dedicatória ao meu pai.

O segundo motivo que me fez me apaixonar pela Logoterapia foi a universalidade da sua mensagem, pois todos os seus conteúdos são válidos e aplicáveis para todas as pessoas, de qualquer idade, cultura, raça, nação e religião. É como se os princípios da Logoterapia fossem universais e aplicáveis a todos, assim como no contexto da psicoterapia. Posteriormente me convenci sempre mais dessa realidade, sobretudo à medida que gradualmente ampliava minha experiência clínica.

Por esses dois motivos, Frankl e a Logoterapia se transformaram em parte do meu DNA existencial.

Isso se acentuou depois de algumas trocas de cartas e de certa convivência pessoal (quase sempre junto com Eugenio Fizzotti), ou porque me convidava para ir a Viena, ou porque nos encontrávamos quando ele e Elly visitavam a Itália. Cada ocasião era uma boa oportunidade para ser diretamente influenciado pela fonte da Logoterapia e aprofundar sempre mais meu conhecimento nesta área.

A minha experiência com Frankl, antes de tudo, foi como a de um discípulo diante de um mestre, e um mestre incansável, sempre muito paciente para explicar e supervisionar os casos clínicos. Posteriormente posso dizer também que houve uma experiência de um amigo familiar. Isso foi para mim algo importantíssimo, porque ele me deu a oportunidade de conhecer toda a sua família e alguns de seus amigos, especialmente os de Viena. Privadamente nos tratávamos por Viki e Nini, o que pode ser confirmado por algumas caricaturas que Frankl fez de mim enquanto, eventualmente, estávamos almoçando em algum restaurante.

Ainda uma outra experiência inicial foi muito significativa, motivadora e inspiradora para que eu seguisse adiante: foi justamente poder ter participado de uma aula (em inglês), sendo o único italiano, no segundo congresso mundial de Logoterapia (22-25 de abril, Hartford, Connecticut, EUA).

Especialmente nesse tempo de pandemia mundial, talvez ninguém tenha permanecido igual. Podemos notar, mais do que nunca, a necessidade de aprender ou reaprender o caminho da autotranscendência. Em sua experiência de escuta clínica nesse período, o que mais o impressionou e como a Logoterapia o ajudou?

Frankl me ensinou uma das mais belas definições da vida: a vida é oportunidade. A vida é uma oportunidade para realizar alguma coisa para si e para os outros. A vida é uma oportunidade para realizar uma missão, uma tarefa e realizá-la até o fim. A vida é uma oportunidade para afirmar um valor no qual se crê.

Dessas premissas decorre que todas as situações da vida constituem oportunidades. De fato, cada situação (positiva ou negativa, bonita ou feia) é sempre uma oportunidade para ser mais egoísta ou mais altruísta; a cada um de nós cabe a decisão de escolher por qual oportunidade seguir em cada situação particular.

Também para os criminosos, cada situação é boa para ser e para afirmar-se como criminoso. O mesmo ocorre com outra pessoa que acredita em valores positivos ou negativos. A partir de como nós reagimos às oportunidades é possível descobrir a nossa personalidade e o nosso nível de maturidade. Não basta crer que a vida seja uma oportunidade e que cada ocasião esconda em si mesma uma oprtunidade. Obviamente, é importante entender “por que” algo é uma oportunidade para mim. Para os egoístas, cada situação é uma boa oportunidade para serem mais egoístas. É possivel, no entanto, considerar cada situação uma oportunidade para amadurecer. Para mim, “amadurecer” significa empenhar-se em crescer e fazer crescer. Essa é a síntese da autotranscendência.

Um campo de concentração e uma condição de pandemia e todas as condições negativas podem ser consideradas sempre como uma oportunidade. Portanto, também esta pandemia foi e é uma oportunidade para sermos mais autotranscendentes ou mais egoístas, mais maduros ou menos maduros, mais problemáticos ou menos problemáticos. Para a Logoterapia não existe nenhuma situação, nem mesmo a mais extrema ou desesperadora, que não possa ser transformada em oportunidade.

Acredito que seja essa uma das mensagens mais importantes da Logoterapia e que todos os logoterapeutas poderiam aplicar a si próprios e ajudar os outros a fazerem o mesmo na situação atual.

Frankl costumava dizer que depois da época de Freud e dos problemas “sexuais” a humanidade se encontrava diante das inquietudes existenciais (na segunda metade do século 20). Para o senhor, depois de uma nova revolução produzida pelo fenômeno das redes sociais, essa ainda é a questão fundamental do homem do século XXI?

Para mim, a questão fundamental do homem do século XXI tem como referência a evolução entendida como capacidade de crescer juntos. O verdadeiro desafio deste século em curso é a capacidade de entrarmos em acordo sobre dois pressupostos: 1) como entender o bem comum; 2) como colaborar para gerir sempre melhor o bem comum. Para mim, para a Logoterapia e para Frankl, o bem comum não significa somente o bem de uma família ou de um povo (isso as organizações criminosas também fazem), mas o bem da humanidade. Para mim, o bem comum inclui não somente a humanidade, mas todo o ecossistema em que habitamos. Nós e as gerações futuras seremos capazes de envolver e nos orientarmos cada vez mais na direção de um bem comum global?

A mudança poderá ocorrer se começarmos a pensar como podemos sobreviver sem prejudicar os outros e o ecossistema. A Logoterapia tem um papel central nessa evolução da espécie humana e do ecossistema. Nessa questão fundamental do século XXI, os logoterapeutas, mais do que os outros, possuem uma formação adequada à percepção do λόγος (logos, como sentido e significado da vida).

A mensagem de Frankl e da Logoterapia indica a direção e a qualidade da sobrevivência: não sobrevive o mais forte (como pensava Darwin); também não sobrevive aquele que se adapta melhor ao ambiente (como se acreditava depois de Darwin). Sobrevive quem percebe melhor o λόγος (sentido e significado da vida) e esforça-se em aplicá-lo. A consciência e a realização do λόγος, mais do que outro elemento, melhora a qualidade da vida pessoal própria e dos outros. O λόγος existencial é aquilo que mais ajuda a viver e a sobreviver. A salvação da humanidade e do ecossistema está no λόγος.

Para sobrevivência e qualidade de vida, a realização do λόγος existencial (expresso na autotranscedência) é mais eficaz, não sendo necessária apenas a força física indispensável para sobreviver, mas também a força psicológica essencial para a adaptação. Os logoterapeutas devem ser conscientes do papel muito importante que apresentam nesse desafio do século XXI. Se as redes sociais caminham nessa direção, então são eticamente e psicologicamente saudáveis. Se não forem utilizadas nessa direção autotranscendente, então são patológicas.

Frankl afirmava sempre que o sentido da vida não deve ser dado, mas encontrado (descoberto). Isso poderia também ser dito da Logoterapia, uma vez que o seu interesse e pesquisa crescem cada vez mais, porém, aqui no Brasil, geralmente fora dos cursos regulares de psicologia.

Justamente para tentar ajudar e oferecer alguma luz para essa questão de dar um λόγος, ou descobrir um λόγος, que eu, nas minhas últimas publicações, procurei distinguir o λόγος como sentido e o λόγος como significado da vida. Essa distinção é necessária. Para mim, o sentido de alguma coisa é descoberto, enquanto o significado deve ser atribuído, dado. O “sentido” se refere ao porquê causal, enquanto o “significado” se refere ao porquê como valor.

O sentido é aquilo que todos os entes existentes possuem um motivo de existência, cada coisa existe e traz um sentido a partir da causa que o fez existir, assim como os mecanismos que os mantêm na vida; ou seja, a partir da lógica que os fez existir e a partir da lógica que tende a mantê-los vivos. Também um vírus maléfico (assim como qualquer entidade benéfica) possui o seu porquê causal, um sentido próprio e isso deve ser descoberto. Também um campo de concentração ou um problema psíquico ou social negativo e outras coisas negativas têm a sua própria lógica, que inclui uma causa e lógica específica de funcionamento.

Não existe nada sem um sentido. Tudo tem um λόγος sentido, que geralmente nos escapa, sobretudo no que se refere ao mal e à maldade. É necessário reconhecer o sentido das coisas e tal reconhecimento (descoberta) não é uma aprovação ou concordância, antes é uma tomada de decisão e uma tomada de consciência.

É necessário reconhecer o sentido do mal, dos maldosos e da dor (causas e efeitos) e desaprová-los. Por isso, eu afirmo que o λόγος sentido da vida já está dado no simples fato de existirmos e deve ser buscado e aceito. O sentido horroroso e negativo, ainda que possa existir (como um campo de concentração, uma doença etc.) não deve ser negado, mas prevalentemente aceito, no sentido de ser reconhecido para poder ser transformado.

O λόγος significado da vida é um ato criativo, pois consiste numa atribuição de valor seguida de uma interpretação. Somente depois de interpretar uma realidade é que será possível atribuir um significado correspondente a um porquê como valor. O porquê vivo é relativo ao modo como interpreto a minha vida. O “como interpreto a minha vida” se relaciona também a “que valor posso atribuir a minha vida”. O λόγος significado da vida indica o “porquê vale a pena” viver. A percepção da tarefa e da missão da vida emerge sobretudo (mas não exclusivamente) no λόγος significado.

Para mim, a interpretação, entendida como processo cognitivo, predispõe a atribuição de significado e isso torna Frankl um precursor do cognitivismo. O processo cognitivo de interpretação está também no centro da Logoterapia na resolução de vários problemas. De fato, a Logoterapia – como psicoterapia centrada no λόγος – não se refere somente ao λόγος da vida (sentido e significado existencial), mas também ao λόγος dos sintomas. É tarefa dos logoterapeutas ajudar os pacientes a tomar consciência do próprio λόγος sentido (porque causal), como também do λόγος significado (porque valor) dos próprios sintomas.

Os pacientes começam os seus processos de autocura muito melhor quando são conscientes, seja do λόγος causal (porque estou doente e porque continuo a sofrer), como também quando são conscientes do λόγος qual valor (qual valor posso atribuir e qual oportunidade posso ter). Uma abordagem psicoterapêutica poderia correr o risco de somente se fixar no λόγος causal: a consciência que os próprios distúrbios e os próprios sofrimentos têm sentido nos traumas do passado e na consciência dos mecanismos que mantêm a sintomatologia. Tal abordagem corre o risco de apresentar uma eficácia limitada. Uma maior eficácia terapêutica pode ser conseguida com uma abordagem mais completa que inclua também um λόγος de valor, que corresponda à pergunta “Qual valor ou significado devo atribuir a esta minha condição clínica?” ou “Qual oportunidade poderia ser inerente a esta minha condição clínica?”

Não basta ser conscientes da origem ou dos mecanismos de retenção dos sintomas (λόγος de sentido) para poder efetuar uma abordagem de mudança terapêutica.

A este λόγος de sentido é necessário acrescentar um λόγος de significado que permita uma mudança de atitude em relação ao sintoma, através de uma reinterpretação da realidade em direção à oportunidade para realizar um valor.

A Logoterapia, justamente por caminhar na direção do λόγος (como sentido e significado seja da vida, como também dos sintomas) apresenta mais possibilidades de ajuda aos pacientes, a fim de que possam afrontar os seus sintomas. Os logoterapeutas, justamente por serem formados através da consciência do λόγος, estão entre os mais indicados para tratar dos casos graves, como obstinação suicida e outras patologias graves.

É necessário considerar que o λόγος de valor (ou significado) pode ser mudado, quando muda a interpretação da realidade. Por isso, a primeira interpretação desesperadora pode induzir o pensamento de suicídio, mas depois, através da tomada de consciência da possibilidade de mudança e de interpretação da realidade, pode-se mudar também a direção do pensamento, isto é, com uma reinterpretação da realidade pode-se mudar também o significado. É assim que um falimento pode se converter também em oportunidade. Os logoterapeutas são predispostos a ajudar através do modo socrático, a fim de elevar a consciência do λόγος, seja como sentido a ser descoberto, seja também como significado a ser atribuído ou reatribuído.

A diferença entre sentido e significado existencial poderia ainda ser entendida através de um episódio importante da vida de Viktor Frankl, que, como todos os outros judeus do seu tempo, havia entendido que, mais hora ou menos hora, seria enviado para um campo de concentração. Como tantos, ele também tinha solicitado visto para os EUA e esperava a resposta ansiosamente, mas também com algum titubeio, porque teria que deixar seus pais com outros familiares e amigos também destinados ao campo de concentração. “Não sabendo o que decidir, saí de casa para passear e pensar; essa é a típica situação em que desejamos um sinal do Céu! Já tendo retornado para casa, meu olhar se recai sobre um pequeno fragmento de mármore apoiado sobre uma mesa. O que é isto? Perguntei ao meu pai. Aquilo? Recolhi hoje de um punhado de ruínas, no lugar onde um dia estava erguida uma sinagoga, agora destruída num incêndio. O fragmento de mármore fazia parte da Tábua dos Mandamentos. Se te interessa posso também dizer a qual dos dez mandamentos se refere a letra hebraica que está esculpida nela. Porque existe somente um Mandamento que inicia com esta letra. E qual? Perguntei ansioso ao meu pai. Respondeu: honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias sobre a Terra. Assim permaneci sobre a Terra com os meus pais e deixei que o visto vencesse.”

Isso poderia ser um exemplo da diferença entre o sentido e o significado de um objeto. Um pedaço de mármore com uma letra hebraica tem um sentido em uma casa de um judeu. Nesse episódio, Frankl atribuiu um significado pessoal que o ajudou a resolver um dilema moral. Mais uma vez é a interpretação que permite atribuir um significado. O sentido preexiste ao significado, tudo que existe tem um significado, de outro modo não existiria. Também o mal – como por exemplo, um campo de concentração – não é verdade que não tenha um sentido. Os campos de extermínio, como todas as aberrações, não possuem um sentido racional porque têm um sentido maléfico e de morte. Também o mal, antes que comece a existir, tem uma causa, uma finalidade, logo possui um sentido (talvez diabólico).

O significado que atribuímos, seja ao bem ou ao mal, é uma atribuição correlata à nossa personalidade. Isso nos permite colher um significado positivo de uma situação injusta, com um significado maléfico; ou tirar vantagens também de derrota injusta.

Na cotidianidade, o termo sentido é usado como sinônimo de significado e isso é compreensível. Coloquialmente, falando do sofrimento causado por um fato ruim, podemos dizer que não tem sentido. Expressões como “isso não faz sentido!” (it does not make sense) ou outras semelhantes, na prática, querem dizer: “não concordo com sua lógica ou finalidade”; ou ainda significa “esta realidade tão negativa não deveria existir!”

Frankl desejou dar estatuto e consistência filosófica para a Logoterapia. Após quase 25 anos de sua morte, podemos identificá-lo como um filósofo da existência, ou ainda como um filósofo do personalismo (como M. Buber, E. Monier, K. Wojtyla)? Em qual corrente de pensamento filosófico contemporâneo podemos classificá-lo?

Para mim, a corrente filosófica mais apropriada para Frankl é a fenomenologia, em continuidade com o existencialismo de Max Scheler e de Martin Heidegger. A peculiaridade da filosofia (mas também da Logoterapia clínica) de Frankl está sobretudo na autotranscedência e na espiritualidade inconsciente. Esta peculiaridade pode ser encontrada, ainda que com terminologia diversa, também em Edith Stein, Martin Buber, Martin L. King, K. Wojtyla, Jorge Bergoglio e outros que compartilham a abordagem humanístico-existencial da qual Frankl é o máximo expoente para aplicações clínicas.

Quando foi perguntado, Frankl disse que encontrou o sentido de sua vida ajudando os outros a encontrar o próprio sentido de suas vidas. Depois de tantos anos nessa estrada iniciada por ele, o que poderia dizer aos estudantes de psicologia e aos psicologos profissionais?

Se me recordo bem, essa frase foi pronunciada a primeira vez num contexto informal entre Frank e Joseph Fabry. Compartilho totalmente que isso poderia ser o λόγος para mim e para todos os logoterapeutas, assim como foi para Frankl. Esta é uma das expressões mais autênticas da autotranscedência que pode ser aplicada à vida cotidiana e na prática clínica. De fato, Frankl estava plenamente de acordo como a ajuda que se dá a um paciente, em termos de λόγος, nesses mesmos termos volta para nós, clínicos. E, sempre nesses mesmos termos, os pacientes são predispostos a transmitir aos outros uma abordagem de autotranscedência. 

Depois de todos estes anos, qual o melhor conselho que poderia dar aos apaixonados pesquisadores de V. Frankl e da Logoterapia?

Experimente em vocês mesmos, no próprio âmbito afetivo e profissional, a eficácia da autotranscedência e acompanhe estas experiências com o estudo do pensamento de Frankl e de suas aplicações clínicas.

O compartilhamento entre pesquisadores e a colaboração com um supervisor logoterapeuta poderá ajudar a melhorar as próprias habilidades terapêuticas.

Imagem: divulgação

Sobre o autor

Gilberto Lombardo Jr

Mestre e Bacharel em Filosofia, com especialização em Metafísica e Ciências pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma). Docente e Diretor da Faculdade de Filosofia do Instituto São Boaventura. Docente do curso de Filosofia do Seminário Maria Mater Ecclesiae do Brasil. Pesquisador do grupo de pesquisa "O Vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido", do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.