A Filosofia em Hannah Arendt

O que é banalidade

As gravações recém-divulgadas que “confirmam” o antissemitismo de Adolf Eichmann, sua fidelidade a Hitler e a defesa da Solução Final, ao contrário do que afirmam alguns críticos e pesquisadores, não mostram um “erro” ou, como já foi dito antes, uma “ingenuidade” de Hannah Arendt em seu livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (livro que reuniu cinco textos publicados na revista The New Yorker, no mesmo ano, 1963). Para mim, é curiosa e instigante a enorme dificuldade de se compreender o que significa o termo “banalidade” no modo como foi usado por Arendt.

Banalidade não é falta de consciência, como se Eichmann não soubesse o que estava defendendo ao fazer parte da engrenagem nazista. Não significa que ele não estava convicto em sua fidelidade ao nazismo e ao seu líder. A banalidade está ligada à superficialidade, a algo que Arendt examinará detidamente quase uma década depois, no coroamento de um caminho de anos de mergulho na filosofia moral e na filosofia de Kant, que é A vida do espírito, obra inacabada da autora. A questão é a profundidade do bem em oposição à superficialidade do mal.

O mal não se espalha onde não há inteligência ou conhecimento – muitos nazistas eram inteligentes, detinham saber sofisticado, como o filósofo Martin Heidegger e tantos outros intelectuais antissemitas -, mas onde os indivíduos resolvem se esconder da complexidade da vida em respostas fechadas, lógicas, formais, totalizantes. Arendt definiu Eichmann como uma pessoa incapaz de pensar e de julgar. Podemos dizer que a banalidade é consequência de uma fuga, ou seja, fuga do uso de nossas capacidades mais altas que abrangem o pensamento e a escolha, o que se dá, na concepção de Arendt da vida do espírito, como atualização da conversa com nós mesmos – sua referência maior é Sócrates – e como exercício de se colocar no lugar do outro – sua referência aqui é Kant.

Partindo desse entendimento abrangente que Arendt elabora, aí sim, pode-se questionar se, em termos de filosofia moral, é suficiente estimular o pensamento e o juízo para impedir o mal. Arendt afirma que não. Não é suficiente. Ninguém explicou por que alguns cederam e outros não, ao nazismo. E essa diferença não dependeu de classe, credo, formação ou posição social dos indivíduos.

A dificuldade de comprometer-se com a busca da verdade dos fatos, com o mundo real, e a dificuldade de ter coragem para enfrentar seus desafios sem alcançar respostas definitivas, estão ligadas à crise da democracia, à violência, a muito do que temos assistido no mundo nos últimos tempos. Isso é importante. Não ficar apontando o dedo para uma filósofa. Aliás, ela acharia o fim perdermos tempo com isso (um tipo de fuga?). Os desafios são bem maiores e ainda mais graves, já que temos vários fatores a dificultar tal comprometimento e um arsenal de desvios, mundos digitais paralelos, cada vez mais atrativos, principalmente para os jovens. A banalidade do mal é ameaça do presente.

Imagem: montagem com Hannah Arendt e Adolf Eichmann

Sobre o autor

Adriana Novaes

Pós-doutoranda do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP. Coordenadora do Grupo de pesquisa “A filosofia em Hannah Arendt: significado e experiência viva” do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. É autora dos livros O canto de Perséfone, Hannah Arendt no século XXI e Cultivar a vida do espírito.