1) Introdução
O Centro Aletti é um ateliê de arte sacra localizado em Roma, Itália, dedicado à preservação e promoção da tradição artística cristã através de sua produção de obras, formação de artistas e difusão cultural. Influenciado pela tradição da arte sacra bizantina e pelo patrimônio cultural e espiritual da Igreja Católica, os projetos do Centro Aletti incluem a restauração de igrejas e monumentos históricos, a produção de arte sacra para uso litúrgico e a realização de exposições e eventos culturais.
No Brasil, a arte do Centro Aletti vem recebendo importante reconhecimento. Citamos, por exemplo, os mosaicos feitos para a Catedral de Castanhal, no Pará (Figura 1) e a parceria feita com a Basílica de Aparecida, no estado de São Paulo, em que as fachadas estão sendo revestidas com mosaicos.
Neste artigo, pretendemos explicitar quais são as bases teóricas que marcam essa produção artística. Iniciamos apresentando a base espiritual e teológica do Centro Aletti, amplamente calcada na espiritualidade oriental. Destacaremos, sobretudo, a relação entre o artista e a vida, de modo especial a vida em comunhão. Compreende-se, sob tal luz, que só na vida comunhonal o artista é capaz de produzir. Finalmente, falamos sobre o ateliê Centro Aletti e destacamos como ele procura encarnar tais princípios.
Figura 1 – Centro Aletti. Ressurreição. Mosaico da Catedral de Castanhal – PA
2) Por uma “nova” arte sacra
A arte do Centro Aletti possui uma grande influência espiritual do Pe. Tomás Špidlík Sj (1919-2010). Pe. Špidlík tornou-se pai espiritual de vários dos membros do Centro Aletti e passou a morar no local, onde permaneceu até a sua passagem em 2010.
No método espiritual de Pe. Špidlík não havia reação, confronto, mas criação, propostas que eram acolhidas amorosamente pelo discípulo. Sob sua orientação, os membros do Centro se aprofundaram no conhecimento dos Padres Gregos e dos russos Vladimir Solov’ëv (1853-1900); Pavel Florensky (1882-1937); Nicolai Berdiaev (1874-1948), Vjačeslav Ivanovič Ivanov (1866-1949), entre outros. Vladimir Solov’ëv, no entanto, ganha um certo destaque, por manifestar uma visão mais profunda e completa sobre a arte, cuja verdadeira vocação é fazer manifestar as coisas no seu estado definitivo, no cumprimento. Esse é o verdadeiro alcance da arte, quando se faz tão eclesial que entra na liturgia, onde se realiza o todo – as coisas e o homem – como comunhão em Cristo.
A compreensão de arte sacra do Centro Aletti pode ser apresentada a partir de uma compreensão histórica. Quando os cristãos entraram no campo da cultura, da arte, o Mediterrâneo tinha sido povoado pela segunda, terceira e quarta ondas da arte grega, depois romana. No entanto, os cristãos não foram atraídos por essa arte. O clássico não lhes interessava de todo. A perfeição formal, os cristãos justamente a ignoraram, não lhes interessava e apareceram com uma arte formalmente muito pobre. Os cristãos teologicamente compreendiam que a forma perfeita não consegue conter o Verbo, o Logos. A forma perfeita não suporta o conteúdo do Logos. É cosmética, é falsa.[1]
Espiritualmente entendiam, como muito mais tarde, vinte séculos depois, Nicolai Berdiaev explicará, que a arte formalmente perfeita é uma arte de ilusão, é falsa, ilude, não é verdadeira:
As formas realizadas pelas obras do século seguinte, refiro-me ao magnífico Renascimento romano, dão a impressão de um acerto mais completo. Não serão, todavia, essa perfeição formal e essa consecução, senão aparências de classicismo. No mundo cristão, nada de verdadeiramente clássico, de perfeitamente realizado sobre a terra é possível. Não foi por acaso que a arte do décimo sexto século se deixou conduzir para um academismo sem vida e assim degenerou. Do ponto de vista espiritual, com o décimo sexto século italiano, o desdobramento se tornou uma decadência, uma desagregação da alma cristã.[2]
Não se pode, com fantasia, atingir as formas clássicas da perfeição formal para interpretar a perfeição escatológica. Para Berdiaev, essa é uma operação puramente fantasiosa, de total falta de senso da verdade, porque a escatologia não consiste na perfeição da carne, mas na perfeição da pessoa, na koinonia (comunhão), na Igreja levada à salvação na comunhão da vida Trinitária. Em nenhuma obra podemos ler a frescura da vida nova, porque esta é prejudicada. Não é possível fazer tal relação. O homem não precisa mais buscar a Deus, pois Deus se fez Homem. A união divino-humana se faz em Cristo, não há mais nada a se indagar no campo religioso, há uma religião como união, eu e Deus, isto é absolutamente resolvido em uma união livre entre Deus e o homem.
A arte sacra, serviço litúrgico, expressa a espiritualidade e diz respeito a conteúdos como a transfiguração da humanidade sob a ação do Espírito Santo, o conhecimento experiencial do Pai, a sinergia com o Espírito Santo na filiação e na transfiguração da humanidade e do mundo. Também a experiência da realização no Escathon, a cada eucaristia há uma experiência da escatologia, da praça de ouro, do Corpo de Cristo, da eclesialização da vida[3].
A partir dessa concepção, conclui-se que uma arte totalmente antropocêntrica, idealista, como a renascentista, o barroco e a neoclássica (como a apresentada na figura 2), não pode exprimir nada disso. Em consequência, não se encontram nesses dois últimos séculos igrejas dedicadas à Transfiguração, nem cenas da Transfiguração. Segundo Rupnik[4], isso se dá porque na própria teologia católica desapareceu o conceito de transfiguração, assim como o da divino-humanidade. Esta só existe em Jesus Cristo, Pessoa divina que como tal une a humanidade e a divindade de modo livre e agápico. A divino-humanidade demanda a experiência, e para isso é preciso estar em Cristo. Só assim se pode experimentar a divino-humanidade que dá acesso à redenção[5]. O ponto central, questionado pelos artistas do Centro Aletti, é que a perfeição formal, tão almejada por certos movimentos artísticos, é uma ilusão, dada a fragilidade da vida biológica, que se encerra com a morte. Os primeiros cristãos, ao elaborarem as suas artes, sabiam que essa perfeição não existe, que é uma ilusão. Para eles, o Logos, o Verbo era Cristo, compreenderam o Logos como Cristo, Filho de Deus, Verdadeiro Homem[6].
Figura 2 – Rafael. Ressurreição. Óleo sobre Madeira. MASP
Como pode um cristão amar uma forma perfeita, se o conteúdo é o Logos, o Cristo, que é uma união livre, no amor, do divino e do humano e que é a revelação permanente do Pai? E onde se realiza isso? Na Páscoa. Os cristãos, por quatro séculos, procuraram uma expressão capaz de exprimir “morte e ressurreição” ao mesmo tempo, isto é, o amor. Procuravam “o divino e o humano” ao mesmo tempo. E eles entendiam que essa forma não pode ser criada pelo homem, é dada com Cristo, e só o Espírito Santo pode comunicá-la, não há outro modo. Só o Espírito Santo nos une a Cristo e nos revela o Cristo. Por isso, a questão da forma, para os cristãos, se torna uma questão da pneumatologia do Espírito Santo. Sem o Espírito Santo, o Verbo não se torna carne. A imagem é uma questão do Espírito Santo. Em uma só página de Santo Efrém, o sírio, século IV, há mais imagens do que em três séculos de teologia moderna. Após o Renascimento, isolamos totalmente a “matéria, o “corpo” e a “ideia” e o “espírito”, como divinos.
Os cristãos conceberam e perceberam a perfeição de um modo completamente diferente. Basta observar uma obra românica, ou o primeiro gótico, ou o primeiro bizantino. A perfeição da arte dos cristãos do Primeiro Milênio era esta: o homem frágil, mortal, não formalmente perfeito, que se abre à ação de Deus que age nele, salvando-o. Essas duas coisas juntas são a perfeição. Por isso se dizia que essa arte torna presente o Mistério.
Não se representa, nem se descreve o Mistério, mas o torna presente porque inclui, acolhe, esta interação divino-humana que é o sentido da vida do homem, é o sentido da vida espiritual, é o sentido do matrimônio, é o sentido do trabalho, é o sentido social. Tudo é Uno. A perfeição que a arte exprime vale para todas as dimensões da vida do homem. A unidade é a Beleza.
Para Paul Evdokimov (1901-1970), discípulo de Berdiaev, o homem nunca é um meio para Deus. Se a existência do homem pressupõe a existência de Deus, a existência de Deus pressupõe a do homem. A pessoa humana é um valor absoluto para Deus, ela é seu “outro” e seu “amigo”, de quem Deus espera uma livre resposta de amor e criação. A solução é teândrica: “a coincidência dos dois Pleromas em Cristo”. “Nós somos cooperadores (synergoi) de Deus” (1Cor 3:9). Trata-se de uma sinergia criadora divino-humana. É porque o homem escatológico não vive uma espera passiva, mas a preparação mais ativa da Parúsia[7].
O nosso tempo não é parecido com os séculos do Segundo Milênio, mas é semelhante ao Primeiro Milênio. Assim como no Primeiro Milênio, quando a Antiguidade pagã desmoronou, florescia a vida dos cristãos. A vida, não a biológica, nem a psíquica, mas a vida zoé, a vida enxertada no Cristo, a vida EM Cristo. “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).
Uma pergunta constante dentre os artistas no Centro Aletti é: “Como estamos vivendo, por que a Igreja não atrai mais as pessoas?”. A resposta desenvolvida dentro do Centro é “há uma absoluta necessidade de união entre a fé e a vida”. A vida dos cristãos era o apetite, suscitava desejo, era este o ponto de chegada: a vida. O que aconteceu? Para Berdiaev, abriu-se a porta para o ingresso das formas perfeitas na Igreja, afastando-a da perfeição do Espírito. Abriram-se as portas ao paganismo com o Renascimento, e tem-se muito orgulho disso, mas deve-se também assumir a responsabilidade. Com isso, voltou-se a considerar o Logos não como uma Pessoa, mas como uma ideia, como uma razão, como a mente, como inteligência racional. Voltou-se a fazer justamente o que os primeiros cristãos recusaram, a perfeição da forma![8].
A ideia de perfeição é concebida pela razão, percebe-se que o mundo não é assim, pega-se uma rocha e tira-se dela a perfeição. Começamos a embelezar o mundo, a corrigir o criado, idealizá-lo, isto é, fazê-lo segundo a ideia. Desde então, temos uma forte separação entre a matéria e a ideia, entre a realidade e a ideia.
Temos sempre esta forma mentis: primeiro a ideia, depois, a realização. Sempre. Mas a consequência foi danosa quando essa ideia, o ideal, se tornou praticamente “deus”. Fizemos um esquema mental praticamente gnóstico: “isto é o ideal e, agora, devemos realizá-lo.” E Deus tornava-se uma ditadura, a religião um moralismo com uma lista de preceitos.
A vida nos escapou, ficaram coisas secas. Por isso, “precisamos” do mundo para nos sentirmos vivos, para ter um pouco de sensualidade. E ainda permanecemos apaixonados pela perfeição formal, pela grandeza da ideia moderna, e continuamos a partir sempre da ideia. Contudo, quando Deus criou o mundo, disse a Adão: “Agora, eu farei um desfile, de toda a criação. Tu olharás e darás os nomes segundo a essência”, “segundo a essência”, ou seja, Adão era contemplativo (Gn 2,20). Então, partindo da imagem, passou pela essência e deu o nome. O pecado desfez completamente isso, inseriu a minha ideia, meu filtro. Nós explicamos tudo em chave de uma ideia.
O problema dos últimos séculos da arte é uma questão espiritual. Não é de todo artístico, nem cultural, mas espiritual, “é uma questão espiritual”. Pelo simples fato de ter sido criado por Deus, não posso rezar o Pai Nosso e olhar o mundo, é preciso renascer do alto. É preciso estar redimido para poder dizer “Pai Nosso”, só posso rezar o Pai Nosso depois do Batismo. Hoje, diante dessa crise, queremos encontrar um caminho miraculoso, queremos que a arte nos abra uma estrada, mas não acontecerá assim. Só os artistas que fizerem uma experiência de uma vida nova, que forem redimidos, percorrerão esse novo caminho, da Vida Nova.
A humanidade, após a Encarnação de Jesus Cristo, Deus e Homem, não pode mais pensar o homem sem Deus. Não existe mais somente o humano, existe só o divino-humano. “Nós pudemos realizar o humano sozinho.” É preciso humildade de pedir redenção, humildade de começar a rezar. Sem isso, nenhum conhecimento significativo se dará. É preciso humildade de dizer: “Preciso ser salvo!”. Mas nós ainda pensamos que, trabalhando o humano, desaguaremos no divino. Cristo diz a Nicodemos: “Nunca ninguém subiu ao céu” (cf. Jo 3,13); porque não é o homem que se faz Deus, mas é Deus que se fez homem.
A proposta fundamental do Centro Aletti é que se o artista não tem a experiência de ser redimido, de nascer do alto, de ser perdoado, de ter uma participação na vida de Deus, não pode exprimir a vida em Cristo. Fará ilusões dos seus pequenos produtos, pois “não posso dar o que não tenho!”. É preciso uma experiência de redenção. Enquanto o artista não viver a Vida Nova, não pode acontecer uma mudança significativa na arte.
Distinguiam-se três níveis na arte: a arte, como tal, reconhece-se porque suscita admiração. Há a arte espiritual ou religiosa, que quer evocar, suscitar o sentimento espiritual, e há a arte litúrgica ou a arte sacra, que deveria ser aquela que leva a fazer o sinal da cruz, que leva a ajoelhar, que leva a falar com Deus, porque nos une a Deus.
Recorda-se, nesse aspecto, a tradição monástica oriental (cf a Figura 3). Quando chega um jovem monge ao monastério oriental para aprender a iconografia, traz consigo os pinceis, tábuas, gesso, as tintas, e se dirige ao mestre, o velho monge, e lhe diz: “Pai, estou pronto!”. O velho monge lhe responde: “Muito bem, comecemos.” Então, o jovem, todo entusiasmado, “comecemos a fazer a técnica!”. Não! A vida, a vida. Durante quantos anos? Três, quatro anos, vive ao lado do velho monge, para aprender a vida no Espírito. Quando a tiver, ela sairá por si mesma.[9] Se uma mulher está grávida, dá à luz, não há alternativa. Se não estiver grávida, é absurdo preparar o berço e o enxoval, dá à luz o vento. Primeiro, há a arte da vida e, depois, haverá também, uma arte dos cristãos. Mas, enquanto procurarmos competir, correr atrás do mundo, não teremos nenhuma proposta. Hoje, precisamos de uma coragem enorme, uma solidez que nos leve a que nos levantemos sozinhos, sem nenhuma corrente, sem apoios, para fazer o que o Espírito manda e pede. Então, as coisas mudarão.
Figura 3 – Ressurreição de Jesus. Igreja de Chora – Istambul
Para Rupnik, a coisa mais extraordinária que a arte cristã criou está ligada à afirmação de Cristo “Eu sou a Luz”. Todos os materiais usados na arte destinada à igreja, formam parte do corpo de Cristo. No Monte Athos, a prova final para um monge ser iconógrafo é escrever o ícone da Transfiguração. Por quê? Porque os apóstolos viram na Transfiguração a antecipação do mundo futuro, do que há de vir depois da ressurreição dos mortos. Ao pintar esse mistério, o iconógrafo deveria provar que era capaz também de ver o Cosmo com os olhos da fé́, a visão iluminada pela graça de Deus na contemplação espiritual transfigurada.[10]
No final dos séculos o sol escurecerá porque Cristo, o verdadeiro sol, se manifestará em toda sua plenitude (Mt 24,29). Transfiguração, em grego metamorphosis, significa mudança de forma, mas na Transfiguração não foi a forma de Cristo que mudou, mas a luz. A fonte de luz é o Cristo. Se a luz vem de fora, não há como revelar o outro, só́ a si mesmo, mas Cristo diz “Eu estou no Pai e o Pai em mim” (Jo14,6) “Permanecei em mim e eu em vós” (Jo 15, 4). Isso confirma que temos a verdadeira vida se estamos “enxertados” em Cristo na acolhida ao Espírito Santo.[11]
O Cristo sobre o Tabor é retratado em vestes brancas para indicar que Ele é a verdadeira luz. A luz de Cristo que passa pelas suas vestes as faz tão brancas! Branco no Apocalipse é a cor do Ressuscitado. As cores são as primeiras testemunhas da luz, sem luz não há cor. A luz é a vida de Deus. Se a luz de Deus se manifesta no homem, ele vive a vida transfigurada, como diz São Paulo “[:] quando Cristo, que é vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados na gloria” (Col 3,4). Cristo é toda a beleza, porque é o Logos encarnado, a imagem do invisível, n’Ele nosso olhar é orientado para a fonte de toda a Luz, o Pai. “Aquele que me vê, vê o Pai”, diz Jesus a Felipe (Jo 14,9). Esse é o princípio da beleza: ver uma coisa na outra.[12]
Ver através do visível o invisível que se manifesta, testemunhar a transfiguração do material, confessar a contemplação espiritual transfigurada. Essa é a essência da arte litúrgica, da arte revelada: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” (Jo 1-14). A função da arte é profetizar, falar do invisível, evocar com formas e cores, o que é inexprimível, mais íntimo, mais precioso, a divino-humanidade. O artista, visto assim, tem uma missão profética, vai contra a corrente, mas está sempre na vanguarda, tendo o passado perfeitamente presente e à frente o futuro nele já realizado, o cumprimento, o Escathon. A arte, antecipação ou prefiguração da vida perfeita, estabelece uma relação com o futuro e dá sentido ao presente: trabalha a transformação, a transfiguração da vida física em vida espiritual, cuida da realização da beleza absoluta e, por fim, participa da criação de um organismo espiritual universal, ou seja, a Salvação do homem e do Cosmo do Todo.[13]
3) Uma vida em comunhão
É importante perceber que o Centro Aletti, ao ocupar-se da arte da liturgia, não se compreende como uma escola de arte, mas um ateliê. A diferença é, principalmente, a ênfase na comunhão e na espiritualidade, que ultrapassa, e muito, as meras técnicas artísticas que são transmitidas nas escolas. E os que vão lá estudar devem estudar por quatro anos, e viver em comunidade.
A vida em comunidade é um pilar fundamental na prática do Centro Aletti, como podemos depreender a partir do que já foi exposto. Os artistas mais experientes transmitem o que sabem: como se parte a pedra, como se faz o mosaico, o estudo da parede, a tecnologia do mosaico, do desenho… Mas têm a consciência de que a coisa mais importante a se aprender não pode ser ensinada, só pode ser iniciada – isto é, a Vida Nova, a vida verdadeira, a vida em Cristo, porque quem tiver a vida em Cristo também terá a sua cultura, o seu pensamento, o seu sentimento. É a vida que tem a precedência, não o pensamento.
Então, os artistas devem viver juntos. O exame de admissão dura dois meses, porque é preciso viver um pouco juntos. Depois, se for aceito, fica por quatro anos. Nunca é dito aos artistas que devem se confessar, que devem rezar, rezar por algumas horas, que devem fazer todos os anos oito dias de Exercícios, que não devem ir à discoteca, não devem beber ou ouvir certas músicas. Há a prioridade em compartilhar a vida com os artistas da comunidade. Compartilham o alimento, o que ouvem, como vivem. Se querem fazer arte litúrgica, entrarão. Se não, não entram. Mas é preciso participar da vida. O mestre tem a tarefa de suscitar a partilha de vida, que transborda em vida comunitária.
Ao confeccionar uma imagem de Nossa Senhora, diante da qual uma pessoa chegará com muito sofrimento – e que não pode ter sido realizada copiando algum rosto, mesmo que extraordinário –, o artista não pode ter passado a madrugada anterior na discoteca . Por quê? Porque aquela pessoa perceberá isso. Por isto, diante de certas perfeições, ninguém se ajoelha. Mas, nos lugares de grande peregrinação, onde há figuras “estranhas”, as pessoas rezam.
Falamos, pois, em um ateliê em que há artistas ortodoxos, greco-católicos, católicos latinos; a diferença não é somente na denominação religiosa: são mais de dez nações na equipe, pessoas com diferentes estados de vida e idade. Numa diversidade tão grande, é realmente impressionante que a tônica da comunidade seja o amor. É um milagre! Principalmente se levarmos em consideração que em alguns momentos o trabalho acaba sendo extenuante, com prazos que os levam a dedicar mais tempo ao ofício, ou longas viagens de carro por toda a Europa. Mesmo assim, os choques, a inveja e o ciúme não prevalecem, a tônica é sempre outra, a da partilha de vida. Se há o amor, Deus aí está. Pavel Florenskij disse assim:
Meu conhecimento de Deus percebido pelos demais em mim é amor pela coisa percebida; e o amor contemplado objetivamente — por um terceiro — no outro é a beleza. Aquilo que para o sujeito do conhecimento é verdade, para o objeto do conhecimento é amor, ao passo que para quem contempla o conhecimento (do objeto por parte do sujeito) é beleza. “Verdade, bem e beleza”: essa tríade metafísica é um único princípio, uma única vida espiritual, examinada sob vários pontos de vista. A vida espiritual, enquanto procede do Eu e tem no Eu sua base, é a verdade: percebida como ação imediata do outro é o bem; contemplada objetivamente por um terceiro como irradiação até o exterior é a beleza. A verdade manifestada é o amor. O amor realizado é a beleza. Meu próprio amor é a ação de Deus em mim e minha ação em Deus; esta atuação comum é o princípio da minha comunhão com a vida e com o ser de Deus. Essa coatuação é o princípio da minha participação na vida e no ser divinos, isto é, no amor substancial, porque a verdade absoluta de Deus se desvela justamente no amor.[14]
Destacamos, desta longa citação, a frase: “A verdade revelada é o amor; o amor realizado é a beleza.” Essa beleza se refere, dentro da dinâmica cotidiana do Centro Aletti, na caridade vivida. A força da arte do Centro Aletti não é a forma, mas o modo como se faz a obra de arte. Um exemplo simples, mas que consegue captar toda a essência dessa vivência fraterna: quando, a vinte metros de altura, alguém corta uma pedra durante quinze minutos, depois, lhe cai, e você ouve alguém dizer: “Deixe que eu vou pegá-la”, isso é caridade. É ubi caritas Deus est. Por isso, acredita que essa arte é habitada por Deus, porque é feita desse modo. Rupnik insiste muitas vezes com sua equipe que as coisas são feitas ao modo de Deus, de determinado modo, ou não são.
A arte do Centro Aletti é bela porque é expressão do amor, vivido em relações reais e concretas, e isso só se realiza no Espírito Santo. A espiritualidade da unidade é fundamental: o pecado separou o ser humano do Criador, mas Cristo redimiu o mundo para criar, de novo, a unidade. Somos nós que sempre separamos tudo. A beleza está na unidade. A arte vivida na caridade expressa essa vida em comunhão e unidade, porque não só as pedras, mas os artistas também formam um mosaico. A Luz, a beleza, o símbolo indicam à teologia o lugar privilegiado que a atividade artística ocupa no mundo da arte, a redescoberta de novas formas de transmissão da mensagem cristã.
Referências
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Notas
[1] Marko Ivan RUPNIK. A arte como expressão da vida litúrgica. Conferências do 11º ENAAS. p. 122 e seguintes.
[2] Nikolai BERDIAEV. Uma Nova Idade Média: Reflexões sobre os destinos da Rússia e da Europa. Edição do Kindle.p. 134.
[3] Cf. Marko Ivan Rupnik. L’autoritratto della chiesa, arte, bellezza, spiritualità. EDB Lampi, Centro Editoriale Dehoniano, Bologna, 2015, pp. 35-36.
[4] Marko Ivan Rupnik (1954-) Diretor do ateliê de arte espiritual e preside o ateliê de teologia do Centro Aletti.
[5] Cf. Marko Ivan Rupnik. L’autoritratto della chiesa, arte, bellezza, spiritualità. EDB Lampi, Centro Editoriale Dehoniano, Bologna, 2015, p. 36.
[6] Idem.
[7] Cf. EVDOKIMOV, Paul. L’art de l’icône: théologie de la beauté. Paris: Desclée de Brower, 1972. p 59.
[8] Nikolai BERDIAEV. Uma Nova Idade Média: Reflexões sobre os destinos da Rússia e da Europa. Edição do Kindle. p. 134.
[9] ŠPIDLÍK, Tomáš; RUPNIK, Marko Ivan. La fede secondo le icône. p 41.
[10] ŠPIDLÍK, Tomáš; RUPNIK, Marko Ivan. La fede secondo le icône. p. 41.
[11] Marko Ivan RUPNIK. Il giorno al giorno ne affida il raconto:l’esperienza del padre. p. 114.
[12] Marko Ivan RUPNIK. Il giorno al giorno ne affida il raconto: l’esperienza del padre. p. 114.
[13] Michelina TENACE. La BELLEZZA unità spirituale. pp. 110 -111.
[14] FLORENSKIJ, Pavel. La columna y el fundamento de la verdad: ensayo de teodicea ortodoxa en doce cartas. p 95.




