
Como psicólogo clínico, atendo pessoas em sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais, que afetam negativamente o dia a dia e as relações interpessoais.
A dificuldade de encontrar um diagnóstico/Psicodiagnóstico e, consequentemente, a dificuldade que o paciente encontra no acesso a profissionais aptos a oferecer esse serviço ocorrem com muita frequência, dificultando o início do tratamento. Qual a importância de um diagnóstico/Psicodiagnóstico? Sem diagnóstico (dos psiquiatras) e/ou Psicodiagnóstico (dos psicólogos) não é possível propor um atendimento em saúde mental, é necessário compreender o que acontece com o paciente. Outro problema muito comum é o autodiagnóstico, por exemplo, o aumento de indicações de TDAH, ou de algum nível de autismo na idade adulta, entre outros. Muitas vezes, esse autodiagnóstico é reflexo de um problema sociocultural contemporâneo.
Uma das ferramentas mais utilizadas para caracterizar esses transtornos é o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que aponta uma série desses transtornos apresentando critérios diagnósticos, que vão desde dificuldades de aprendizado passando por transtornos de ansiedade e depressão.
O Brasil foi mapeado como o país mais ansioso do mundo em 2024. Tenho alguns pacientes jovens que se encontram ansiosos para decidir se saem de casa para estudar, fora da cidade ou até do país, ou se permanecem em casa sem perder o mundo que conhecem. Percebo recorrentemente relatos de um medo do fracasso e de ter que se responsabilizar pela própria vida. Enfrentar as demandas da vida é muito difícil. Como você está lidando com isso ultimamente? Você pode dividir essas dúvidas com alguém? Você se sente só?
Existe uma discussão muito ampla do que é normal e do que é patológico. Por isso, o tratamento só pode acontecer quando se tem um diagnóstico/psicodiagnóstico minimamente definido. Como podemos cuidar de alguém sem um caminho responsável? Num mundo em que parece que todas as respostas estão nos sites de busca, nas redes sociais ou nos aplicativos de Inteligência Artificial (muitas pessoas já estão fazendo “psicoterapia no chatbot), quem regulamenta esse processo? Precisamos tomar cuidado com as respostas sem um mínimo de filtro. Não dá para acreditar em tudo que se lê, é necessário afinar a consciência a todo momento.
Existem tratamentos eficazes, passando pelos consultórios de Psicologia e Psiquiatra e, em alguns casos, a necessidade de internação, sendo necessário o acesso aos serviços de saúde que sejam capazes de proporcionar tratamento adequado. Muitos desses casos podem ter uma ampliação pelo uso indiscriminado de medicamentos ou drogas sintéticas.
Um dos principais problemas que encontramos para realizar um tratamento em saúde mental é o estigma. Quadros de depressão, por exemplo, costumam ser julgados como fossem um padrão emocional escolhido pela pessoa. O estigma gera impactos profundos na saúde mental tanto do paciente, da família e da sociedade. Medos e estereótipos acabam marginalizando as pessoas que enfrentam o problema, o que gera tantas restrições na hora de buscar ajuda. Por outro lado, percebo também a outra polaridade do estigma: a busca eterna para preencher um checklist de saúde mental que nunca se cumpre. Nesse caso, a pessoa, em vez de estigmatizar, identifica-se com algum diagnóstico como se fosse a própria identidade… Alguns pacientes chegam no consultório com essa identificação.
Tanto a conduta de internalizar o estigma quanto o excesso de autodiagnóstico podem agravar os sintomas. Por isso, é necessário ensinar sobre saúde mental nas escolas, no trabalho e, principalmente, nas famílias.
Ao mesmo tempo nunca se falou tanto em saúde mental. Vemos esse tema o todo o tempo e recebemos notícias de vários projetos acontecendo em escolas, instituições religiosas e organizações. No entanto, continuamos doentes. Será que estamos falando ainda com pouca qualidade de implicação?
Apenas a comunicação não é efetiva. Precisamos de ações mais concretas. No nível individual, as ações começam com questionamentos. Perguntas como estas, quando respondidas com implicação, já podem mobilizar ações: Como está a sua capacidade de estudar? De trabalhar? Amar de uma forma madura? Ser útil para a sociedade? Como você cultiva os seus pensamentos?
Outro problema da busca de saúde mental desenfreada é o uso indiscriminado de medicamentos psiquiátricos. A automedicação é um perigo para a saúde global do indivíduo. Em cada esquina, encontramos uma farmácia para comprar remédios. Os medicamentos procuram melhorar os sintomas, por exemplo, diminuir o nível de ansiedade, mas é fundamental tratar a causa desse quadro clínico que podem ser muitas, por exemplo, os traumas.
Depositar a responsabilidade da cura no medicamento e/ou em um profissional específico também é muito perigoso. É importante não se submeter ao domínio de outra pessoa, como um instrumento passivo. O profissional não tem tudo para te “curar”. Evite a todo custo a cura distorcida – “uma melhora súbita e radical no paciente baseada em mágica” (Yalom, 2006, p. 102).
Uma série de sintomas tem-se apresentado a cada ano. Aumento de sequelas de memória, falta de concentração, hipersensibilidade, mais choros e menos sorrisos. Dificuldade de prestar atenção durante as tarefas do dia a dia e também não organizar tarefa alguma. Principalmente se precisar de um esforço mental prolongado, distrai-se o tempo todo, mexe-se o tempo todo na cadeira, não consegue relaxar e age como se estive ligado 24h/dia – não consegue ficar parado(a) -, não consegue esperar, não consegue ler e compreender textos e acaba apresentando dificuldade de raciocínio.
Em muitos casos, há pessoas que apresentam quadros de delírio, de riqueza ou fama, com crenças fixas, como se alguém o estivesse prejudicando, também quadros de alucinações auditivas, desorganização do pensamento.
O quadro de ansiedade aparece com muita frequência, gerando um sofrimento excessivo, uma preocupação intensa, a possibilidade de perder algo ou alguém, que possa ocorrer algo indesejado, e com isso se recusam a sair de casa, o medo excessivo de ficar sozinho, os pesadelos sempre frequentes. Transpiração intensa, palpitações, uma série de tremores, uma sensação de falta de ar, ou de que está sendo sufocado ou asfixiado, um desconforto na região do peito, enjoo, náusea, tontura, calafrios, vertigens onda de calor, desmaios. Muitas vezes expostos a eventos traumáticos, as lembranças que não saem da cabeça de forma angustiante, um sofrimento psicológico intenso e prolongado.
É importante ao analisar esse quadro patológico do nosso tempo e levar em consideração o sentimento de falta de sentido, como aponta Viktor Frankl (2003, p. 9). A psicoterapia é um caminho importante, dentro de um espaço protegido para lidar com as angústias e encontrar novos caminhos para a sua vida.
Estamos em busca de saúde mental. Frankl, no século XX, estava propondo uma busca de sentido, ou seja, a finalidade da busca estava em encontrar sentido. Agora, parece que a finalidade está em preencher um checklist de saúde mental – será que é por isso que estamos cada vez mais ansiosos e sem encontrar sentido? A saúde mental como fim é mais difusa ainda que o sentido. Porque sentido é individual, você se questiona e vai experimentando para encontrar. Já saúde mental tem critérios científicos (OMS), sociais e culturais: o que é saúde mental para um brasileiro de classe média, e para uma brasileira periférica negra, por exemplo? Aí entramos no campo das complexidades.
A busca de saúde mental está vinculada a um lucrativo mercado de saúde, quem tiver melhores condições financeiras e assim desejar poderá ter acesso aos melhores profissionais e aos melhores remédios disponíveis, mas a maioria da população não tem este acesso. Precisamos formar melhores profissionais que levem em consideração o aspecto social. Enquanto o ter valer mais do que o ser, a busca por qualidade mental de vida está em risco.
Referências bibliográficas
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 [American Psychiatric Association. tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento et al. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 948p.
Frankl, Viktor E. Sede de Sentido. Introdução, tradução e notas de Henrique Elfes. 3 ed. São Paulo: Quadrante, 2003.
Yalom, Irvin D. Os desafios da terapia. Tradução Vera de Paula Assis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
Imagem gerada por IA: pessoa com três braços, segurando smartphone e aparentando ansiedade
