Comportamento Político

O que nos leva às ruas?

Por que alguns dentre nós vez ou outra se engaja numa luta, vai pra rua, e participa mais ativamente de manifestações? E, em segundo lugar, por que outras pessoas acham isto interessante e acreditam que esta postura seja indicativa de posse de consciência política? Como definir e auferir o que venha a ser consciência política?

Perguntas muito difíceis de serem respondidas se pensarmos em algum tipo de metodologia, de amparo em dados empíricos, de hipóteses que possam ser verificáveis bem como do isolamento de todas as variáveis.

Pra sondar aqui, poderíamos supor uma série de outros pressupostos, sem que eles pudessem também ser comprovados. Vai-se assim, no voo livre, entendendo não se sabe bem a partir de onde ou embasado em que premissas, quanto a ida às ruas é boa, por si só. Pois é, a coisa pode ser bem menos do que isso. Pode ser uma dimensão erótica, aspectos ligados ao temperamento, à adrenalina provocada em alguns instantes, desafiar regras, muito disso, enfim, que bem se ajusta aos sentimentos que podemos ter nestes eventos. Mas, tudo isto conversando com a chave da politica, sem dúvida, o que corresponde às expectativas, aos sonhos, afetos, às quase catarses no coletivo.

Mas se, de todas estas hipóteses, sobram incontestes aquelas que se remetem à virtude da consciência política, da luta pelo seu país, etc., quem estaria equivocado? Responder desse modo às perguntas do início, não parece mais socialmente aceitável e engrandecedor para quem assim se manifestar? Enfim, não parece haver um tipo de hierarquia nos modos de se explicar, que vão dos mais ou menos admissíveis, por conta de seus índices de grandeza ou virtude, mais exatamente para aqueles que possuem identificação prévia com as atitudes descritas? E como parecemos adentrar um cenário de análise muito próximo da contingência, mesmo as visões negativas para com a ida às ruas costumam também não possuir uma base de averiguação mais segura. Proponho aqui, neste texto que pretende ser curto, recuperar uma situação histórica concreta pra iluminar esta reflexão e, para isso, vamos longe no tempo.

Anos Rebeldes foi uma minissérie exibida pela Rede Globo de Televisão, em 20 capítulos, entre os dias 14 de julho e 14 de agosto de 1992. Escrita por Gilberto Braga e baseada no livro 1968: o ano que não terminou, de Zuenir Ventura. Os episódios, que eram passados às 22h30min, eram iniciados ao som de Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, que tinha como fundo uma sucessão de imagens psicodélicas, bebidas na fase Submarino Amarelo dos Beatles. A trama, em si, focava anos 60 no Brasil, com marcação política remetida aos eventos que se acercaram da participação popular, das manifestações, da queda de Goulart e do Golpe Militar de 1964. Em meio a tudo isto, e embalado por músicas de qualidade e envolvimento, acompanhavam-se amores, sequestros políticos, identificações com causas, lados certos e errados para se estar.

Entre agosto e setembro de 1992, o mesmo ano e quase os mesmos meses, muitas pessoas, aproximadamente da mesma idade dos protagonistas da minissérie, estavam indo para as ruas nas manifestações que desejavam o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello, então envolvido em problemas de corrupção. Nas manifestações dos então chamados caras pintadas, tocava-se e cantava-se Alegria, Alegria. Resta dizer também que elas ocorreram com intensidade nos meses que se seguiram às férias de julho. Lembrando que as caras pintadas eram, em maioria, alunos do ensino médio e das universidades.

Estas hipóteses poderiam ser contadas como possíveis para se explicar a ida de manifestantes para a rua? Poderíamos então estabelecer ligações entre idade média dos participantes das manifestações, escolaridade, audiência da minissérie, linguagem, roteiro, envolvimento na trama, atmosfera política no Brasil, expectativas e juízos políticos das pessoas com mais idade e que poderiam estar na condição de pais destes estudantes? De fato, se tivéssemos a presença das redes sociais naquele contexto, poderíamos procurar por palavras que remetessem a um e outro evento, observando em que medida a emoção provocada pela série se ligaria aos eventos da ida para as ruas. Mas, mesmo sem as redes sociais, outras perguntas poderiam ter sido feitas nas pesquisas junto aos manifestantes, bem como em relação à audiência na TV.

Dados que hoje são produzidos em profusão e que somente necessitam de uma mudança de chave quanto aos modos de tratá-los. Quando a catarse clássica promovida por uma narrativa de ficção, mais exatamente, se cruza com as expectativas de envolvimento nas causas que nos unem coletivamente? Enfim, podemos nos aproximar do estudo de uma política que se faz do ponto de vista afetivo e não simplesmente do ideológico mais clássico?

Estes são os aspectos que podemos levar em consideração numa Análise de Comportamento Político, o que será motivo de uma reflexão mais dedicada nos próximos posts.

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.