
Em uma das conversas no grupo de Comportamento Político, no LABÔ, nosso coordenador, professor Fernando Amed, levantou a notícia sobre o mapa lançado pelo IBGE, quando muitos escreveram ou falaram que o mapa está de “ponta-cabeça”, levantando toda uma discussão enviesada politicamente, como está sendo corriqueiro em nosso país e pediu para alguém do grupo escrever um ensaio para o off-lattes. Como professor de Geografia recebi esta proposta como um chamado e tratei de usar meu arsenal sobre Cartografia que uso para minhas aulas sobre o tema nas instituições de ensino que trabalho.
Este mapa foi lançado na verdade em 2024, como um esboço para ser usado na reunião dos BRICS, ocorrida no Rio de Janeiro e na COP 30, que será realizada na cidade de Belém, no estado do Pará. Isso criou um certo alvoroço em algumas salas de aula, instigando declarações de colegas, principalmente daqueles de viés mais progressista, como discursos anticolonialistas, enaltecendo a postura dos pensadores desta projeção cartográfica. Muitos alunos, para variar, queriam saber minha opinião.
Para tristeza de muitos que queriam escutar uma declaração que elevasse a moral daqueles que estão à frente deste projeto, como mineiro que sou, escutaram assim a resposta: “UAI… onde está a novidade nisso? Desde os primórdios da civilização, quem paga por um mapa tem seus desejos realizados”. E rebati “Astronomicamente, não existe Norte e Sul, porque no espaço, o polo magnético terrestre não interfere na localização. O que existe, sobre a superfície da Terra, são alguns metais que possuem carga elétrica e são atraídos pelo polo que ficava à esquerda do ponto onde nascia o Sol, em dialetos arcaicos europeus. O nome dado foi Ner, traduzindo livremente para a língua portuguesa Norte.”
A Cartografia sempre foi utilizada como uma arma geopolítica, tanto de forma direta, como nos mapas usados para traçar estratégias de guerra ou rotas de navegação, como também, de maneira indireta, conceitos intuitivos utilizados hoje pela psicologia e pelo marketing, colocando a ideia principal no centro da imagem, em alguns casos ocorre distorções de áreas, dando a impressão de que o objeto ou, no caso o mapa, o país central, tem dimensões ampliadas do tamanho real, deste modo, chamando a atenção do observador.
A polêmica do mapa “invertido” do IBGE é de uma futilidade tamanha pois, desde sempre, governos e estados utilizam mapas e outros tipos de projeções como propaganda ou arma ideológica sem mesmo a população perceber, mas como vivemos em uma sociedade abarrotada de informações que, consequentemente, desenvolve paranoias e teorias da conspiração, parcelas da população vão ser a favor ou contra. Podemos relatar o episódio do mapa da América do Norte, feito pelo governo de Donald Trump, que substituiu o nome de Golfo do México, para “Golfo dos Estados Unidos” entre outros muitos exemplos que existem. Outra consequência deste episódio ligado ao capitalismo informacional é o tal do engajamento, porque não basta ser contra ou a favor, tem que gritar aos quatro cantos, lutar até a morte por seus ideais e tentar abafar, diminuir a opinião contrária.
Em sua obra mais conhecida, A geografia: Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de 1976, o geógrafo franco-marroquino Yves Lacoste destaca como os mapas são usados para aflorar discussões, quando países questionam fronteiras, anexações de territórios, a legitimidade de estados. Como todos sabem, território é igual poder e quanto mais áreas conquistadas mais poderosa fica a nação vencedora assim podendo explorar as riquezas minerais, hídricas daquele espaço. Sem esquecer características culturais, um dos pontos nevrálgicos da questão migratória atual, onde podemos fazer uma conexão com os eventos entre portugueses e brasileiros, quando os últimos reagiram contra a pressão dos nacionalistas lusitanos em relação à influência da cultura brasileira no território daquele país, mas qual foi a reação? Utilizando as redes sociais e um humor sarcástico, desenhando mapas do continente europeu e, ao invés de escreverem o nome do país Portugal, colocaram expressões como “Guiana Brasileira”, “Faixa de Gajos”, “Pernambuco em Pé”, dentre outras denominações pejorativas, o que provocou debates e a ira, ainda maior, de muitos portugueses.
Os mapas também são utilizados pela Estatística, não podemos esquecer o significado da sigla IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), como mapas temáticos qualitativos e quantitativos sobre determinada característica física, social e econômica do território estudado. Um dos exemplos são as Anamorfoses, que na tradução livre significa, mapas deformados, quando as áreas e os formatos dos continentes, países e estados são modificadas para passar ao leitor informações sem a necessidade da escrita, deixando subjetivas as interpretações e causando hoje discussões.
Em grande parte dos vestibulares do Brasil, um dos temas mais abordados é a discussão sobre as semelhanças e diferenças das projeções de Mercator e Gall-Peters. Sem querer me aprofundar nas questões conceituais, pois não é a intenção deste texto, vou me prender somente na questão ideológica destas duas formas de representar nosso planeta. Gerard Kramer, o Mercator, fez seu mapa no século XVI, (1569), período das grandes navegações, aí eu pergunto; em qual continente estavam as grandes potências econômicas da época? Quem respondeu Europa, descobriu a principal característica desta representação cartográfica, Eurocentrista. Em contrapartida, Arno Peters, diretor da divisão de mapas da ONU, recebeu a incumbência de seu empregador, em 1973, de confeccionar um mapa que privilegiasse os países do hemisfério sul, foi o que ele fez, destacou os continentes mais pobres do mundo, em destaque o continente africano, como estávamos no período da Guerra Fria e o mundo era dividido em “Três mundos”, esta projeção tem como principal ideia destacar o “Terceiro Mundo”, por isso o mapa de Peters ficou conhecido como terceiro-mundista.
Para tristeza dos entusiastas do mapa do IBGE, a ideia de colocar a imagem da Terra de forma pouco habitual, não foi pioneira. Em 1941, o pintor uruguaio Joaquín Torres-García, fundou a “Escola do Sul”, quando desenhou a América do Sul, com o extremo sul na parte superior da imagem, esta imagem foi abraçada por aqueles que combatiam o “imperialismo estadunidense” como forma de resistência. A Escola do Sul também foi usada por nacionalistas, exemplo na Oceania (Austrália e Nova Zelândia) onde nas escolas os jovens aprendem a ler os mapas com seus respectivos territórios no centro da projeção e isso causou algum problema de aprendizado? Não! Aliás os sistemas de ensino dos dois países apresentam elevado grau de qualidade. Sem esquecer o “Mapa de Origamis”, feito pelo arquiteto japonês Hajime Narukawa, em 2010, colocando seu país natal no centro do mapa, sendo considerado a projeção mais fiel ao formato real da superfície terrestre, uma Geóide, para desespero dos terraplanistas.
Podemos concluir que todo mapa reflete as ideias e interesses de quem pagou pelo projeto. Então, se esta projeção do IBGE, lançada em 2025, fosse realizada entre os anos 2019 e 2022, os grupos que criticam este mapa, estariam aplaudindo, enaltecendo um caráter patriota do mapa. Em contrapartida, os apoiadores deste mapa estariam julgando negativamente, até ridicularizando-o. Enfim, esta discussão sobre esta representação cartográfica é mais um episódio da novela de baboseiras que se tornou o debate político brasileiro, pois não há novidades no mapa, só um ponto de vista diferente e que não está errado, pois qualquer um pode fazer um mapa com as características que quiser, ninguém é obrigado a utilizá-lo, temos inúmeras variações de mapas no mercado, é só escolher, mas como há a necessidade de fazer barulho por tudo, tornou-se até notícia em grandes meios de comunicação nacional.
Referências bibliográficas
ALMEIDA, Rosangela Doin de (org.). Cartografia Escolar. Editoria Contexto. São Paulo. 2007.
LACOSTE, Yves. A geografia: Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Editora Papirus. São Paulo. 1988.
GREENPAN, Allan. O mapa e o território: risco, natureza humana e o futuro das previsões. Tradução André Fontenelle / Otacílio Nunes. Editora Penguin. São Paulo. 2013
KAPLAN, Robert D. A vingança da Geografia: a construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. Tradução Cristina de Assis Serra. Editora Elsevier. Rio de Janeiro. 2013.
Marshall, Tim. Prisioneiros da Geografia: 10 mapas que explicam tudo sobre política global. Tradução Márcio Scarlércio. Editora Zahar. Rio de Janeiro. 2018.
Imagem: montagem sobre original IA
