Comportamento político

Bem-vindos à era da Polarização Afetiva

Polarização é uma palavra que está na ordem do dia de tal forma que observamos a sua presença nas democracias espalhadas pelo planeta. Contribuiu para isso o uso massivo das redes sociais, o exercício constante dos julgamentos e da manifestação de opiniões fora do contexto até então mais conhecido, que era o de se pautar pelas informações legitimadas pelos órgãos de mídia mais tradicionais.

O antagonismo mais radical não é em si um fato novo. A Guerra Fria está aí para nos lembrar disso. No entanto, quando comparamos os dados que revelam o nível de hostilidade entre as pessoas, podemos nos surpreender ao reconhecermos que hoje ela é muito maior.

Some-se a este fato o conhecimento que se tinha em relação à história. Num cenário de Guerra Fria, o norte-americano comum, para se ater a este exemplo, tinha em mente o grande evento da Segunda Guerra Mundial, na qual tinha participado, a popularização das afrontas recíprocas entre os Estados Unidos e a União Soviética, situações embaladas e divulgadas inclusive pelo cinema ou pela TV.

Na atualidade, é difícil supor que haja esse nível de conhecimento mais empírico do passado, o que pode nos ajudar a entender a aceitação das chamadas Fake News, e da luta pela aceitação ou imposição das narrativas. Nada disso, diga-se, é uma novidade, uma vez que a batalha pelas informações, pelo controle delas ou por conta de sua legitimação encontra paralelos no passado mais profundo.

Então, como compreender a polarização que hoje se manifesta? Como caracterizá-la, ao menos para que seja possível mensurar sua importância? Enfim, o que há de novidade em relação a este assunto quando comparado com outros eventos do passado?

Preocupados em não exatamente responder a todas estas perguntas, mas ao menos em lançar luz sobre elas e rumar para um diagnóstico, Shanko Yyengar, Yphtach Lelkes, Matthew Levendusky, Neil Malhotra e Sean Westwood, publicaram, em maio de 2019, os resultados de uma análise de comportamento político, no artigo “The origins and consequences of affective polarization in the United States”.

Mesmo em se tratando de um estudo de caso realizado nos Estados Unidos, conseguimos recuperar nuanças que estão muito próximas do que aqui também ocorre. Por exemplo (i) a identificação pessoal com o grupo ao qual se pertence num partido político, aliado ao fato do aumento superlativo do ódio em relação aos opositores; (ii) aumento significativo da presença de pessoas que no passado não costumavam participar de modo mais intenso das discussões políticas; e (iii) a proximidade e o entrelaçamento das questões de identidade, tais como gênero, religião e raça, com o partido de afinidade.

Os autores perceberam então que a polarização com que hoje tomamos contato diferencia-se daquela que era pautada, de modo mais solene, pela ciência política. Algo que que os levou a forjar o conceito de Polarização Afetiva. Para eles, esse tipo de manifestação antagônica tem vida autônoma inclusive em relação à ideologia, o que pode nos ajudar a entender as recentes dúvidas em nosso país acerca do nazismo ter sido um movimento de direita ou esquerda. Quando o cenário é de indigência intelectual, a polarização afetiva tem solo fértil para se desenvolver. Perceba-se que afeto aqui está remetido à paixão, afecção de alma, no oposto da reflexão que se faz de um modo racional. Para tanto, neste contexto, ódios, emoções, agressões, etc. têm franco desempenho.

Assim, o cenário da Polarização Afetiva se completa com o comportamento mais agressivo nas redes sociais, a expectativa de pronta resposta em relação ao que acabou de ser postado – feedback –, o narcisismo crescente e o desejo de ser identificado pelas boas causas e lutas, sobre pets, dieta vegana, causas raciais ou de gênero, e tudo isto bastante “pilhado” pelos atores políticos de esquerda ou direita. Some-se a esta paisagem a agressividade maior observada na mídia em relação ao noticiário político, a existência das bolhas e câmaras de eco na internet, bem como o uso político-partidário daquilo que se sabe que vai causar indignação nos seus oponentes.

Para os políticos profissionais, aparentemente, quem estiver no centro, estará fora da percepção e do reconhecimento. Sobram somente os polos e, quanto mais antagônicos, melhor. Pode ser que as estratégias com vistas às eleições – alguns pesquisadores entendem que hoje os políticos estão sempre em campanha – levem em consideração somente um itinerário de temas que têm o poder de atormentar os militantes de esquerda à direita. Dentre estes temas, evidentemente, se destacam aqueles que foram mencionados acima: gênero, religião e raça. Assim, andando nos limites das leis relativas aos direitos civis, o que se configura hoje é um novo meio de se fazer política partidária. Parece se sair melhor, do ponto de vista de obtenção de sucesso eleitoral, aquele candidato que tiver maior habilidade em agredir os seus adversários, de tal forma que, nos campos da polarização, um polo parece necessitar do outro de modo recíproco.

Não se sabe exatamente quando esta situação vai se alterar. Contudo, o que podemos perceber desde sempre é que, se as campanhas políticas se modificaram, a ambição por se chegar ao poder e ali permanecer é a mesma já refletida por Nicolau Maquiavel e dramatizada, dentre outros, por William Shakespeare.

Imagem: Heraldo Galan

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.