Hiper-religiosidade

Fanatismo religioso, cultura e um desencontro de informações

Para o senso comum, a definição de cultura aponta para um conjunto estático de ideias, costumes, comportamentos e crenças morais, que pode ou não ser adquirido e praticado pelos indivíduos. Na academia, no entanto, a noção de cultura é compreendida como configuração social dinâmica, com a qual estamos continuamente nos relacionando, especialmente desde o advento da antropologia.

Nesta rede de relações, a religião é uma importante instituição social, que se mantém em constante movimento de troca com a cultura: a religião agrega valores e significações à cultura, bem como a cultura impulsiona diferenciações e ressignificações à religião. Neste contexto, constatamos no contemporâneo o surgimento de vertentes religiosas extremistas e fanáticas que tendem a enxergar na cultura um elemento potencialmente “corruptor” de suas doutrinas. Mas, será possível estar alheio à cultura em que se está inserido e isentar-se da adaptação às suas transformações?

O processo de compreensão de um indivíduo passa inevitavelmente pela compreensão de seu contexto cultural. Os comportamentos, costumes e modos de vida dos indivíduos estão sempre sujeitos à influência da cultura em que estão inseridos. Desse mesmo modo, as instituições sociais só podem ser devidamente interpretadas quando no seio de suas respectivas sociedades: as instituições sociais servem às sociedades para as quais foram construídas e, como os indivíduos, estão sujeitas às influências e transformações da cultura. Tal como os indivíduos jamais podem estar imunes às influências da cultura sobre si, assim também as instituições não o estão. Tudo aquilo que o indivíduo é e faz só encontra significado no meio em que vive, e suas reações são sempre respostas que tanto se originam como se destinam a este mesmo meio. Da mesma forma, as instituições são edificadas pela sociedade e para a sociedade.

No entanto, este contexto cultural a que nos referimos não deve ser entendido como algo dado e imutável; antes o contrário! Os indivíduos e instituições, como vimos, nascem em um mundo que, de antemão, já existia, mas que, de nenhum modo, está impermeável a trocas com aqueles mesmos indivíduos e instituições enquanto agentes sociais. Claude Lévi-Strauss (1908-2009), conhecido como pai da antropologia moderna, ensina que nossas atividades estruturam a sociedade, assim como também a sociedade estrutura a forma como agimos no mundo. Por sua vez, a cultura também não se apresenta como um todo universal. Antes, cada cultura representa uma totalidade singular, particular de sua sociedade.

Diante disso, a religião surge como uma instituição social marcadamente importante para a história das sociedades de modo geral. Por meio dela, as relações que os indivíduos cultivam entre si, com o meio e consigo mesmos são profundamente influenciadas, não obstante a própria estrutura social também o seja. Ainda na Modernidade – quando o ser humano se vê cada vez mais independente da ideia de uma divindade – o poder de construção e transformação desta instituição não se ausenta. Pelo contrário, é exatamente diante deste cenário de emancipação dos seres humanos, que vemos surgir manifestações fanáticas da religiosidade, encarando a cultura moderna como objeto de seu ódio e rejeição.

A hiper-religiosidade – ou fanatismo religioso – se apresenta, então, como a manifestação da prática religiosa de modo danoso, em que o autor é movido pela máxima de que suas crenças são irrevogáveis e imutáveis e que, por seu caráter universal, devem ser impostas às pessoas de sua convivência. O fanático religioso tende a viver em um cosmos que lhe é próprio, incapaz de se relacionar com a cultura externa, da qual invariavelmente se faz inimigo. Ele enxerga a cultura como uma conspiração essencialmente mundana, que sempre contribuirá para a perversão dos valores morais e sempre progredirá no sentido oposto às suas crenças. Assim, o fanático religioso viverá em inimizade com a cultura e, nos casos mais extremos, em guerra contra ela, buscando destruí-la e interromper seu curso evolutivo. Isso é evidenciado, por exemplo, pela onda de intolerância religiosa contra praticantes da cultura mestiça e afrodescendente no Brasil atual. Além da herança histórica que essa discussão carrega, há nesses eventos uma negação dos elementos culturais presentes nas bases da cultura brasileira. A violência surge, por sua vez, como uma manifestação dessa negação e um ímpeto de se exterminar aqueles elementos que aparecem como contrários às crenças religiosas pessoais do agressor. Há um esforço para impedir a transformação da cultura atual – nesse caso, impedir a valorização da cultura afrodescendente – pela agregação de novos costumes e enriquecimento da diversidade, uma vez que aquela cultura, acredita o fanático, sempre avança no sentido oposto ao de suas crenças e valores.

A noção de cultura, porém, é mais abrangente do que pretendem os fanáticos em sua religiosidade. A cultura não é mais um elemento na sociedade, ela é o próprio palco onde todos os elementos sociais surgem e se desenvolvem e, nesse cenário, a religião aparece não como um agente externo, que pode optar por subir ou não para o ato, mas como um daqueles elementos que compõem o cenário e que só ganham sentido quando dentro de seu contexto de atuação. A religião não está fora da cultura; longe disso, ela se relaciona com os demais elementos sociais e participa da evolução cultural: ela é uma manifestação da cultura, que só pode ser explicada quando posta em seu contexto cultural.

Franz Boas (1858-1942) precursor da moderna antropologia cultural do século XX, ensina sobre a facilidade com a qual os indivíduos e instituições estabelecem trocas com a cultura. O relativismo cultural inaugurado por Boas mostra a evolução como fenômeno que acontece dentro de uma cultura; a religião – como os demais elementos sociais – não deixa de estar inserida nesse processo. A ideia de ser possível resistir às trocas e relações da religião com a cultura não se fundamenta em pressupostos reais. O exercício da religiosidade, quando fundamentado no sentimento fanático, colabora para a construção de uma visão distorcida da noção de sociedade, cultura e da relação dos indivíduos com o ambiente sociocultural. A religião estará sempre em consonância com a cultura – seja agregando a si ingredientes tomados daquela, seja contribuindo com a construção de novos componentes culturais. A religiosidade saudável, por sua vez, estará sempre pronta a servir como meio de comunicação entre os indivíduos e a cultura, à disposição daqueles que dele desejarem fazer uso.

Imagem: autoria indeterminada

Sobre o autor

Emilly Cordeiro

Emilly Cordeiro é Acadêmica de Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo; integrante do Grupo de Pesquisa Hiper-Religiosidade: A Prisão da Fé na Era das Liberdades, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.