Hiper-religiosidade

Da cultura do diálogo à cultura do grito

Basta uma visita ao Itamaraty para apreciarmos obras singulares da cultura brasileira em seu acervo. Entre tantas artes e mobiliários, uma conversadeira feita em jacarandá e telas nos fazem refletir sobre a importância do diálogo. Composta de três lugares dispostos em hélice, quando ocupados, possibilitam uma conversa confortável entre os três ocupantes sem ficarem de costas entre si. Uma breve pesquisa no site do Ministério das Relações Exteriores, nos mostra que o móvel era uma peça importante nos domicílios brasileiros no século XIX. Não podemos relegar esta importância ao simples fato decorativo, antes, refletiam ou projetavam um ideal de comportamento social valorizador de uma boa conversa. Em tempos de tablets, smartphones e celulares, pode soar estranho que em algum momento na linha do tempo os dias fossem preenchidos com diálogos e relacionamentos marcados pelo olho no olho. Tempos estes em que os relacionamentos não iniciavam ou terminavam com um simples clique ou o deslizar dos dedos sobre uma tela.

Com o tempo, o advento de ferramentas de comunicação como o rádio e a televisão começaram a substituir a conversadeira pelo sofá, o diálogo pelo silêncio e a empatia pelo entretenimento. Chegamos ao mundo contemporâneo, isolados em nossos quartos, ocupados demais conosco para nos preocupar com o próximo e com o meio. Sendo assim, pouco importa o que o outro sente ou pensa. Em uma sociedade líquida, podemos moldar as coisas a nosso bel-prazer. Chegamos a um ponto em que as ferramentas de comunicação foram aprimoradas e massificadas, ao passo que a arte do diálogo mudou. Neste novo tempo, não lutamos com espadas, mas digladiamos com palavras, somos ávidos em rechaçar a desonestidade dos que nos governam, mas nos valemos da arte da mentira e das fake news para golpear quem ousar questionar nossas convicções. Em nenhum ambiente estes fatos ficam tão evidentes como nas redes sociais. Esta ferramenta de comunicação moderna nos mostra que muitos parecem conseguir encontrar no mundo virtual a versão mais fiel de si, mesmo que a disfarce na realidade, e tais revelações nem sempre são agradáveis.   

A internet trouxe benefícios à humanidade, mas também desafios. A luta contra as novas modalidades da velha intolerância é uma dessas grandes questões. De repente, o cidadão distante ou desinteressado pelos temas sociais se vê arrastado para o meio de uma arena de debates onde a voz do leigo pode ser ouvida ao lado da opinião do especialista; as palavras do iletrado podem ter o mesmo alcance das do intelectual; e o povo pode ser ouvido tão altissonante quanto seus governantes. Neste cenário de simetria online das vozes, ninguém se entende, e, como em uma torre de Babel contemporânea, deduz-se que pra ser ouvido é preciso gritar. Gritamos para que nos escutem e nada ouvimos porque não silenciamos. A cultura do grito, neste caso, manifesta-se em forma de agressão, desrespeito, deselegância, autoritarismo, egocentrismo, intolerância e extremismo, que encontram terreno fértil não apenas no mundo virtual, mas também em outras esferas da sociedade.

No cenário sócio-político brasileiro, tais manifestações nunca foram tão evidentes, e este fato parece contradizer o conceito de “homem cordial”, descrito por Sérgio Buarque de Holanda no seu clássico “Raízes do Brasil”, que define o brasileiro como um ser dotado de virtudes, como a hospitalidade e generosidade. Tal paradoxo é abordado no livro “Sobre o autoritarismo brasileiro”, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, que apresenta um contraponto à ideia da “cordialidade” brasileira:

O suposto é que esta seria uma nação avessa a conflitos, pacífica na sua índole, democrática no que se refere à convivência de gêneros, raças e etnias, em suma: uma espécie de “paraíso da tolerância” em meio a um mundo inclemente. Essas definições generalizantes não sobrevivem, porém, a um enfrentamento no campo, a uma batida da polícia nas cidades, a uma discussão entre políticos, a um assalto a mão armada, a uma briga no trânsito, a um censo étnico que revela a desigualdade estrutural que persiste por aqui (SCHWARCZ, 2019, p.207).

O fato é que nosso “espírito cordial” tem se revelado menos dócil do que supúnhamos e avesso ao diálogo. A ausência do diálogo é como fertilizante para a semente da intolerância e do fanatismo germinar na sociedade. Amós Oz, em seu livro “Como curar um fanático” afirma que “O fanatismo, é, infelizmente, uma parte onipresente da natureza humana; um gene mau, se preferir” (OZ, p.62, 2010). Sendo assim, para que ele se manifeste, basta sermos rápidos em falar e tardios em ouvir. O próprio escritor ainda afirma que “muito constantemente, o fanático só sabe contar até um; dois é uma cifra grande demais para ele ou para ela” (OZ, p.69, 2010), ou seja, olhar apenas para nós mesmos, nossas próprias opiniões, convicções e princípios, sem considerar o ponto de vista alheio, nos torna potenciais agentes de disseminação do ódio.

O caminho que aponta para o nosso entendimento como nação requer reflexão. No processo de amadurecimento social, o fundamentalismo, seja ele religioso, político-partidário, esportivo ou de qualquer outra natureza, não deve ser uma opção. Precisamos abandonar o monólogo e voltar a apreciar uma boa conversa, despida do medo e da vaidade. Se a conversadeira já não nos serve mais, temos formas modernas e eficazes para ensejar o debate público. O caminho pode ser longo e não tão simples quanto parece, mas, como já ouvimos de um filósofo chinês “o caminho de mil passos, começa com o primeiro”. 

Referências bibliográficas

OZ, Amós. Como curar um fanático: Israel e Palestina: Entre o certo e o certo.

Trad. Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Imagem: Maxvis/iStockPhoto

Sobre o autor

Ismael Marques

Acadêmico de Teologia na Faculdade Refidim de Joinville; integrante do Grupo de Pesquisa em Hiper-Religiosidade: A Prisão da Fé na Era das Liberdades, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.