Pensamento público

Do mundo que queremos ao mundo possível

O caos biológico provocado pelo novo coronavírus é sentido na política, nas relações sociais e na economia. Em momentos como esse, a realidade nos força a pensar. Quando perdemos o chão e nos sentimos ameaçados, o intelecto não fica apático. Assim aconteceu, por exemplo, após o terremoto de Lisboa, em 1755, ocasião em que surgiram inúmeros escritos sobre a causa da catástrofe: Deus teria enviado o terremoto? A causa do terremoto é natural? Também hoje, nesse momento de crise pandêmica, buscamos nos orientar diante do mundo que vagueia a passos lentos, tateando a realidade a fim de compreender o presente, mas também vislumbrar, meio às cegas, o futuro. Isto posto, pretendo analisar os divergentes diagnósticos da conjuntura atual elaborados por três renomados pensadores do contemporâneo: o filósofo coreano Byung-Chul Han, o historiador israelense Yuval Noah Harari e o filósofo britânico John Gray. Apresentarei suas posições e, na medida do possível, estabelecerei um diálogo crítico entre os autores, sem deixar de lado, evidentemente, minha interpretação.

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Há dez anos, em sua obra Sociedade do Cansaço, o filósofo coreano e professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim, Byung-Chul Han, fez uma afirmação típica daquele ufanismo científico presente na obra de autores como Francis Bacon, Galileu Galilei e René Descartes: apesar das enfermidades causadas pelos microrganismos, os avanços da ciência médica tinham afastado o homem de uma “época viral”. Sem embargo, me parece claro que, após o fenômeno “novo coronavírus”, a afirmação do declínio da época viral não se sustenta.

Não há dúvidas de que hiperglobalização liberal destruiu inúmeras barreiras e possibilitou uma rede de contato de bens, pessoas e ideias. Porém, o paradigma imunológico, regido pelo medo, o qual impõe barreiras que impedem a movimentação de bens e pessoas, deixa de ser um simples artefato no museu da História a partir dos primeiros meses de 2020.

Avaliando a conjuntura atual em um artigo no jornal espanhol El País, O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, Byung-Chul Han reavalia a sua posição: “Pois bem, em meio a essa sociedade tão enfraquecida imunologicamente pelo capitalismo global, o vírus irrompe de supetão. Em pânico, voltamos a erguer limites imunológicos e fechar fronteiras. O inimigo voltou”. A era imunológica se impõe, e com ela o desafio: como adaptar o paradigma imunológico, que levanta muros, à sociedade globalizada, que os destrói em nome da produção de riquezas?

Contrariando as estratégias coercitivas antiglobalizantes adotadas nos últimos dias pela maior parte dos países, como o fechamento de fronteiras e do espaço aéreo, Yuval Noah Harari vê tal desafio como um falso problema, e afirma que a proliferação do vírus em escala mundial não tem a globalização como causa. No seu artigo para a revista Time, intitulado Na batalha contra o coronavírus, a humanidade carece de líderes, Harari afirma que, no século XIV, durante a peste negra, o mundo não era globalizado, com aviões e navios que permitiriam um rápido e volumoso deslocamento de pessoas e bens, mas mesmo assim, em pouco mais de uma década, a peste negra se espalhou do leste da Ásia até a Europa Ocidental. Portanto, destaca, quem defende a desglobalização como mecanismo de contenção à epidemia estaria equivocado: “Na luta contra os vírus, a humanidade precisa vigiar rigorosamente as fronteiras. Mas não as fronteiras entre países, e sim a fronteira entre o mundo humano e o mundo dos vírus. O planeta Terra está cheio de inúmeros vírus, e constantemente aparecem e evoluem muitos outros devido às mutações genéticas”. Aponta ainda que, nesse momento, é fundamental que haja uma maior “cooperação mundial”, não só contra o coronavírus, mas contra todos os agentes patogênicos. Entretanto, uma questão se coloca: o que significa “cooperação mundial”?

Na prática, defende Harari, a União Europeia, por exemplo, deveria enviar dinheiro, material e pessoal médico aos seus membros mais afetados. A crise causada pelo coronavírus seria uma oportunidade de recuperar a unidade da chamada União Europeia. Mostraria aos europeus que essa unidade faz sentido, que pode trazer benefícios concretos em um momento de calamidade. No caso de uma pandemia, a ação conjunta permitiria que houvesse o isolamento total das cidades contaminadas, o que naturalmente traria instabilidade econômica àquela região. Não obstante, se os outros países ajudassem financeiramente, as medidas de contenção da doença poderiam favorecer a todas as partes envolvidas: por ter o apoio de outros países, a cidade fechada poderia tomar medidas mais radicais de contenção e, por conseguinte, os outros países, que ajudaram com alimentos, materiais e profissionais da saúde teriam grandes chances de não serem infectados. É essa solidariedade em escala mundial que Harari espera.

Penso que essa solução parece viável, teoricamente, arquitetada no paraíso tranquilo de uma escrivaninha bem resguardada, local em que, por vezes, os intelectuais esquecem que o “homem é o lobo do homem”[1]. Sobra romantismo na proposta de Harari, mas falta aquele utilitarismo de grande relevância para os momentos de crise.

Byung-Chul Han também não acredita que essa cooperação mundial vai se efetivar. Em seu artigo para o jornal espanhol El País, mostra a concretude de seu pensamento: “O vírus isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De alguma maneira, cada um se preocupa somente com sua própria sobrevivência”. Para o filósofo coreano, os países asiáticos possuem uma cultura de tradição confucionista, ou seja, hierárquica, rigorosa e autoritária, bem diferente daquela dos países ocidentais, cujo zelo pelos direitos dos indivíduos dificulta ainda mais o controle da população em situações adversas, como em uma pandemia. Por esse motivo, Hong Kong e países como a China, Coréia do Sul, Singapura, Taiwan e Japão se mostram mais eficientes no combate à pandemia.

Na China, por exemplo, o combate é realizado a partir de dados que expõem a vida privada da pessoa, sublinha Chul Han. A vida privada não é um valor, como no ocidente, e o Estado, quando dispõe dos dados de seus cidadãos, tem um controle muito maior do cotidiano das pessoas. Cada clique na internet, cada post nas redes sociais, e mesmo as compras de alimentos, são fiscalizados pelo Estado. Em Pequim, quando uma pessoa sai da estação de metrô, uma câmera mede a temperatura do seu corpo e, se tem febre, ou algum sintoma, todos aqueles que estavam no mesmo vagão são avisados via SMS. A vigilância chega ao seu ápice quando drones fiscalizam a quarentena dos cidadãos. Esse patrulhamento social, afirma o filósofo, utiliza uma grande rede de dados fornecidos pela telefonia celular e provedores de internet às autoridades do Governo. O panóptico, idealizado por Jeremy Bentham e aprofundado por Michel Foucault na obra Vigiar e Punir, teria como matéria prima as informações de uma gigantesca plataforma de dados: o big data. Por esse motivo, “os apologistas da vigilância digital”, diz Chul Han, “proclamariam que o big data salva vidas humanas”.

Essa ausência de privacidade, algo que aponta para um mundo distópico, anômalo e insuportável para europeus e americanos, não encontra resistência na China. Diferente dos ocidentais, que cultuam a sua “vida privada”, “no vocabulário dos chineses não há o termo ‘esfera privada’”, afirma Chul Han. Isso não significa que na China, e em outros países asiáticos, não haja egoísmo: há muito egoísmo na Ásia, mas egoísmo é diferente de individualismo. Os sistemas liberais são individualistas: preservam a liberdade individual (incluindo o direito à privacidade) como valores aparentemente inegociáveis. Essas sociedades individualistas apresentam dificuldades em situações que demandam uma diminuição das liberdades, como uma pandemia. Imagine se todas as pessoas resolvessem exercer seu direito de ir e vir? Seria ainda mais caótico.

A partir do cenário pandêmico, a comparação entre os modelos governamentais orientais e ocidentais nos convida a refletir sobre o verdadeiro significado do termo soberania. Para Chul Han, o soberano não é mais aquele que controla um território, mas quem controla os dados. Por fim, o professor da Universidade de Berlim arremata seu artigo com uma esperança: “Espero que após a comoção causada por esse vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês”. Se o exercício do poder tem como função manter o barco navegando, não se pode descartar que os Governos, em nome da sobrevivência dos seus cidadãos, justifiquem seus atos totalitários. No entanto, o mundo pós-pandemia ainda é difícil de prever.

John Gray, em seu artigo Por que essa crise é um ponto de virada na história, publicado na revista Britânica New Statesman, diz que aqueles que não estão na linha de frente durante essa pandemia poderão usar dessa quarentena para “limpar a mente da desordem e pensar em como viver em um mundo alterado”. Afirma que chegamos ao ponto mais alto da era globalizada, mas que haverá uma tendência à desglobalização no mundo pós-pandemia. Não se trata de dizer como o mundo deveria ser, como pensa Harari, mas quais os caminhos que seremos obrigados a percorrer. O desafio, então, será encontrar uma justa medida: nem uma autossuficiência local, nem uma hiperglobalização. O capitalismo liberal tradicional, diz Gray, dependente do livre mercado, faliu. Esse modelo liberal, que na prática buscava dissolver fontes tradicionais de coesão social e legitimidade política através do livre mercado hiperglobalizado, algo que resultaria na elevação dos padrões de vida material, será alterado após a pandemia. “Este experimento (liberal) já terminou. Para suprimir o vírus, é necessário um desligamento econômico temporário, mas quando a economia reiniciar, ocorrerá em um mundo em que os governos agirão para coibir o mercado global”. A quais tipos de coações John Gray se refere? A produção interna de suprimentos médicos e alimentos está entre elas, pois assim os Estados não dependerão das importações. Além disso, haverá maior fiscalização das fronteiras, algo que diminuirá a movimentação de pessoas e que, por conseguinte, deprimirá o setor aéreo.

Contrapondo duramente a esperança de Harari, aquela de uma “cooperação mundial”, John Gray diz ainda que as divisões políticas não permitem que se estabeleça um “surto de cooperação mundial”. Ao contrário, “o vírus acelerou um processo de desintegração que já está em andamento há anos”. Para justificar essa afirmação, cita dois exemplos: Donald Trump disse que os EUA não têm amigos, mas interesses; o presidente sérvio Aleksandar Vučić, diante do caos europeu, disse: “Não existe solidariedade europeia…. isso foi um conto de fadas”.

Ainda contrapondo Harari – que defende os muros entre o homem e os microorganismos –, John Gray sustenta que os historiadores apresentam a vida da espécie humana como se ela não fosse parte da vida natural, como se fosse “um ecossistema autônomo, separado da biosfera”. Mas não somos, e o novo coronavírus nos força a reconhecer isso. Sobreviveremos, mas algumas mudanças serão necessárias, e elas afetarão diretamente a nossa vida cotidiana: aumento da sensação de fragilidade e vulnerabilidade; transferência da mobilidade física para a navegação no ciberespaço (mais home office, aumento do ensino à distância nas escolas e universidades); aceleração da vida online (aumento da Second Life, um mundo onde os encontros serão virtuais); diminuição das expectativas, de modo que a questão da boa vida poderá ser superada pela da vida possível; incógnita entre a liberdade e a segurança.

Este último ponto parece ser o mais sensível para John Gray. O homem contemporâneo não vê com bons olhos a “solidariedade forçada do socialismo”, que fere a liberdade, mas se submeteria a um regime de biovigilância em nome da segurança, promovendo saúde e sobrevivência. Termina seu artigo afirmando que a autonomia pessoal – a liberdade – não é a necessidade humana mais profunda, mas sim a segurança e a pertença. Sem a segurança, o homem fica paralisado pelo medo. Sem a pertença a um grupo, a uma sociedade onde ele se realiza, o homem fica perdido. Lembro-me aqui da vida de Joaquim Nabuco, abolicionista brasileiro, que morou muitos anos na Europa e nos Estados Unidos: quando estava no Brasil, sentia saudades do mundo, mas quando estava na Europa sentia saudades da pátria. É esse sentimento de pertença – somado ao desejo de segurança – que Gray apresenta como fundamental.

Isso significa que o homem, em nome da segurança, da sobrevivência, talvez busque um novo Ethos, um novo espaço de convivência, que não virá pela solidariedade espontânea, afirma Gray, mas pela necessidade que a realidade nos impõe: “Lidar com um vírus requer um esforço coletivo que não será mobilizado em prol da humanidade universal”. A unidade colaborativa universal se mostra pouco crível, mas o avanço galopante das liberdades poderá ser mortal.

Aguardemos os resultados do mundo pós-pandemia. Certamente não será o mundo que queremos, mas o mundo possível.

[1] Frase da antiguidade retomada por Thomas Hobbes em sua obra Do cidadão.

Imagem: Heraldo Galan

Sobre o autor

Andrei Venturini

Doutor em Filosofia, professor no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), membro da Associação Brasileira de Filosofia da Religião e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.