Comportamento político

Da compulsão em se falar de política

Esforçamo-nos para recuperar eventos da história passada em que os estímulos e respostas fossem tão imediatos em relação à identificação com os acontecimentos políticos. Dentre os temas e assuntos passíveis de serem conversados no cotidiano mais prosaico, a política não costuma ocupar um lugar de destaque. Os temas políticos seguem sendo vistos como controversos, não atraentes, inadequados às conversas do dia a dia. Na maior parte das vezes, somente os políticos profissionais fazem isso full time e não com o mesmo envolvimento que acreditamos que tenham: para a política, o tempo é contado de outra maneira e a narrativa não se faz de modo dramático. A maioria de nós somente fala de coisas triviais ao longo do dia: um pingado na padaria, o resultado do jogo de ontem, conversas nos postos de gasolina, supermercados, etc. A política propriamente dita costuma ganhar espaço somente nas eleições e isto quando elas são mais polarizadas.

Muitas vezes no passado, a política sequer era um assunto tratado pela população como um todo, cabendo a primazia àquilo que de alguma forma viesse a mobilizar um maior número de preocupações ‑ sendo que o que implicasse a sobrevivência contava com maior chance de sucesso. Situações existiriam em que os preços estavam por demais altos, em que faltava algum tipo de produto por conta de dificuldades comerciais, enfim, algum tipo de obstáculo que poderia até passar pela menção a uma estratégia considerada mais ou menos acertada.

Com isto, queremos apontar que a conversa sobre os temas da política passaria invariavelmente pela necessidade de conhecimento mais aprofundado dos nomes, das intenções do sistema de escolha e de vários outros aspectos que muito dificilmente seriam conhecidos pelo comum dos mortais. É bem provável que o mais perto que chegaríamos de uma maior, digamos, mobilização política acontecesse em relação ao que viesse a ocorrer na cidade, vila, enfim, nas proximidades das moradias das pessoas. A política relativa àquele com quem você poderia se encontrar nas ruas e que fosse o responsável pela lei ou ordem desta cidade. O circuito e a necessidade de apoio, de perda dele e de isolamento seguem sendo uma constante ao longo da história e para tanto estes suportes deveriam vir de pessoas ou grupos que se mostrassem influentes na economia ou na política.

De todos estes eventos passados, a democracia veio estabelecer um corte jamais suposto, que é o do incentivo a uma participação constante na política pela necessidade óbvia das escolhas periódicas nas eleições. Data daí, ao menos, o início de uma reformulação do envolvimento das pessoas com o tema da política. Nada mais seria como antes.

De um ponto de vista antropológico lato sensu, a aceitação da democracia implica participação de muitos, quase todos, para que funcione. O funcionamento da democracia depende do conhecimento de política e do seu acompanhamento para além daquele exigido pela periodicidade das eleições. A política então tende a virar um assunto mais presente no cotidiano, mesmo que enfrente a dificuldade de sempre de aceitação. Continuamos a ter pessoas de todos os tipos e gostos e os temas remetidos aos partidos, as escolhas sobre quem será o candidato, quem será eleito, não atraem todas as pessoas. A conscientização política, expressão que mais revela uma expectativa do que uma situação real, já nos insere numa dimensão do problema, uma vez que o envolvimento neste assunto depende do convencimento, como se estivéssemos falando de outras práticas que necessitam deste investimento, sempre frágil em relação ao alcance dos objetivos.

Vai daí que nem todos se envolvem de modo equivalente e a tendência é que se produza um gap entre aqueles que decidem se aprofundar na política e outros que não. E não se trata de pouca coisa. Aqueles que podem ter tempo para tanto não são maioria. Em geral, além da necessidade de uma cultura familiar, o hábito da discussão sobre a política, o envolvimento no debate, a presença de políticos na família, podem produzir um campo favorável à participação. Mas o que exatamente seria a participação política para além da escolha de um candidato quando das eleições? Difícil definir, uma vez que esta posição ou atitude poderiam não ser tomadas como uma virtude, necessariamente. O que faz de alguém uma pessoa especial por ser considerada participativa do ponto de vista da política? Como auferir os níveis de participação política e como considerá-los válidos para o bem da democracia? Quem poderia ser percebido ou não como politicamente consciente? A nossa dificuldade maior é de fato reconhecer algumas nuanças de comportamento que indiquem maiores virtudes e acertos em quem se coloca ao lado ou contra alguma liderança política, como se parafraseasse outras épocas vistas pelos filmes em que se tem com clareza contra quem deveríamos lutar: os nazistas ou os stalinistas. O mundo contemporâneo turbinou estas aderências quanto a se postar do lado certo das causas como se antevíssemos quem vai estar do lado errado.

A emergência das redes sociais dos mais variados tipos e matizes, mas que, invariavelmente, incentivam a participação ativa de muitos nos diversos tipos de assuntos e temas, veio incrementar, quando não inflacionar, as falas, juízos ou opiniões sobre a política. Mas o que haveria de semelhança em relação ao que até então ocorria e que descrevemos no início deste artigo? Seria verdadeiro que um número maior de pessoas passasse a se identificar com o assunto da política e repentinamente viesse a demonstrar atenção e até conhecimento sobre esta matéria? Acreditamos que não e que a política venha a atrair um número reduzido de pessoas ‑ e isto por conta da aridez do assunto, da dificuldade de se manter a atenção, de se guardar os nomes, de identificar as estratégias, etc.

A política, até então, quando nas campanhas eleitorais, poderia sim provocar maior envolvimento se para tanto houvesse algum tipo de polarização. Mas não é o que percebemos hoje. Poderíamos nos perguntar que tipo de política tem chamado a atenção e mobilizado as pessoas que atuam com mais intensidade nas redes sociais? Qual tem sido o seu modus operandi?

As características com as quais nos deparamos não são exatamente aquelas que seriam recuperadas em uma visão mais clássica da filosofia política, mas sim outras que não costumavam ter tanta presença no passado ou que então se concentravam em outros ramos, temas ou assuntos. A julgar pelo que acompanhamos nestes últimos meses, mesmo antes da quarentena e da prática do distanciamento social, o que se convencionou chamar de política tem migrado para o que no passado chamávamos de costume. Ou seja, os temas que passam pela orientação de gênero ou pela identidade racial. E o que se percebe é que se descobriu com clareza o que pode deixar uma pessoa irritada e é nisso que se investe cada vez mais.

Imagem: tratamento sobre original de Denis_Vermenko/iStockPhoto

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.