Comportamento político

Palavras que transmitem propriedades que não possuem

I

Pergunto-me, por vezes, sobre os reais significados contidos em expressões como progressista ou conservador, e, eventualmente, até reacionário. Partindo do princípio de que um conceito tenha que ser contrastante para que seja validado, uma vez que este conceito possa ser habilitado para um número muito amplo de situações e casos, como ele pode nos ser útil?

Ou mais ainda: conceitos aplicados à história passada deveriam ter validade incondicional, para todo o tempo, ou deveriam ser ajustados para cada época ou período? Tratam-se de perguntas difíceis de serem respondidas. Talvez perguntas que não tenham sido bem elaboradas. De toda maneira, supondo que façam algum sentido, proponho-me a, menos do que respondê-las, encaminhar uma discussão.

Inicio com o termo progressista que, obviamente, somente poderia produzir a expectativa de progresso. Mas porque exatamente a concepção de progresso veio a ser compreendida como algo positivo? Lema positivista comteano, sabemos. E tudo o que veio junto, uma maneira de afirmação das tais Ciências do Espírito e da Natureza. 

Progresso pode ser associado a uma concepção física: o progresso de um carro que sai da posição de imobilidade para outra de movimento em alguma direção. O progresso de uma bola na mesa de snooker. Entendo que entremos cada vez mais num momento de uso de metáforas, de imagens que funcionam como exemplos, mais do que de explicações de conceitos propriamente. Tal uso das palavras pode produzir a sensação de que algo nos parece mais fácil do que supúnhamos. Mas vivemos também num contexto de desejo por coisas que sejam mais práticas. Quem tem tempo ou expectativa para abstrações?

Mas em que situação nós optamos por aceitar que esta palavra – e o que ela aparentemente ecoa – possa funcionar ou produzir sentido e coerência em outras aplicações? Não conseguirei, já aviso, responder a todas as perguntas feitas ao longo do texto. Talvez algumas tenham reflexões esboçadas, quem sabe.

O que exatamente vem a ser uma ação progressista do ponto de vista social? Como encontrar um critério que suporte esta crença?

II

30 mil anos antes de Cristo. Situação: mata rala, com montes esparsos. Montanhas no horizonte. Zebras e hipopótamos por perto. Agrupamento de humanos. Leões. O que seria progressista ou reacionário naquele instante? Matar os leões seria incorreto?

De todos os exemplos e casos relatados, o que poderíamos depreender é que os conceitos de avanço ou progresso ou de retrocesso ou reação somente podem ser utilizados em relação a um contexto bastante específico. Nas ciências aplicadas, não há muita dúvida em relação à aderência destas expressões, a não ser em alguns casos mais controversos. Do ponto de vista do que se espera de um celular e a partir dos aspectos em relação aos quais se pretende julgá-lo – se é bom, se vale a pena adquiri-lo, etc. – podemos pensar em avanços. Para aqueles de nós que desejam se comunicar com mais rapidez e que julgam interessante o envio e o recebimento de imagens ou vídeos, os smartphones das últimas gerações são inevitavelmente superiores aos celulares do início do século XXI.

Mas, dependendo do ponto de vista e do critério utilizado para realizar o julgamento, até esse juízo pode ser alterado. Especialistas nas áreas de psicologia comportamental – a psicologia social nos Estados Unidos– avaliam que o uso massivo dos smartphones pelos adolescentes tem trazido novos e frequentes casos de transtornos emocionais. Então, o que parece avançado a partir de um viés, não o é em relação a uma abordagem diferente. Diga-se, com isso, que nem na área dita científica ou da ciência aplicada pode-se chegar a um consenso. Não seria o caso aqui de explorar as descobertas da energia nuclear, por exemplo, caso notório em que os juízos de bem ou mal dependem da aplicação e do uso que se fará da fissura do átomo, no uso civil, para iluminação pública, médico-hospitalar ou militar.

Em todos estes exemplos, e tantos outros que podem ser lembrados por proximidade, chegamos a um ponto em que a expressões portadoras e indicadoras de avanço ou retrocesso podem ser amplamente questionadas. Agora, imaginemos quando são levados em consideração temas ditos sociais. Como obter algum tipo de estabilidade quando se está pensando nestes assuntos?

Isto posto, voltamos às perguntas feitas no início deste texto. Os conceitos de que nos servimos como ferramentas heurísticas, que nos habilitam a encetar um objeto alvo de nossa reflexão, devem contar com um mínimo de estabilidade, do contrário, não lograremos sair do relativismo. Podemos, isto sim, dispor de uma espécie de discurso, fazer proselitismo, defender uma causa de modo mais apaixonado. Mas nunca conseguiremos elaborar uma abordagem que granjeie algo mais do que isso. Definitivamente, ela não poderá ser utilizada com a intenção de conhecimento objetivo do que se anseia esclarecer. Quando muito, somente saberemos mais sobre a pessoa em questão, numa linha quase que historiográfica.

Quantos exemplos e situações podem ser dados e oferecidos? A Alemanha sob o nazismo se percebia como avançada em vários aspectos, que passavam pela ciência aplicada bem como sobre o que se entendia como melhor para a sua sociedade. Creio não ser necessário avançarmos aqui nas consequências desta visão, sendo por demais óbvia a tensão relativa ao que se entendia como progresso ou retrocesso naquele contexto.

III

Acima, já nos referimos à Pré-história. Poderíamos nos reportar à Idade Média, enfim, a uma série de contextos diferenciados e que exigiriam um critério também distinto para julgarmos, se de fato quiséssemos, o que é percebido como avanço e progresso ou retrocesso. Isto posto, é hora de averiguar, então, os motivos da aderência destas expressões no contemporâneo. Por que os conceitos de progresso e retrocesso ainda encontram guarida nas reflexões sobre a sociedade contemporânea? Como nos deparar com algum tipo de base ou suporte que capaz de oferecer estabilidade para estes conceitos ou ferramentas heurísticas?

Mesmo que duvidemos da possibilidade de se chegar às respostas a estas questões, podemos, ao menos, arriscar algumas hipóteses. A dialética da modernidade sendo a primeira delas. Temos alguns marcos exploratórios, e que aqui somente funcionarão num recorte mais simbólico, não sendo o caso de aprofundarmos os pontos de vista histórico ou filosófico.

Primeiramente, a Revolução Francesa, ou, ao menos, o conceito geral que se apegou a ela. Falamos aqui da compreensão mais generalizada que se atribuiu àquele fato, em relação à historiografia que se consagrou em relação a este evento. Nos deparamos aí com a concepção de disrupção – palavra que atualmente vem sendo aproximada também de algo que pareça positivo –, de ruptura com um estado de coisas que passou a ser visto como nefasto e que fez emergir a ambição pelo rompimento mais peremptório. Se, do ponto de vista político, a Revolução Francesa vem sendo saudada como um marco positivo – aqui já um problema de interpretação –, quando migramos para os aspectos sociais ou culturais, nos deparamos com outros movimentos e situações. As ditas vanguardas do século XX, que de fato foi pródigo na produção delas, podem ser tomadas como referentes aqui. Em muitas delas, não foram somente os aspectos relativos à poética que vieram a se destacar, e sim, o comportamento ou os costumes. Tornou-se então corriqueiro, e por vezes mais exuberante e presente, o fato de que estes elementos ganhassem ampla recepção. E como poderia ser diferente? Grande parte destas transformações possuíam o suporte da mídia do período, fosse a partir do cinema, das campanhas publicitárias, enfim, de tudo o que a superestrutura poderia oferecer em cada contexto e época.

Pode ser então que a partir destas situações tenha vindo, sim, a se apegar a concepção de que haja progresso nas questões sociais ou de comportamento. Não que julguemos que isto não seja possível, mas acreditamos, tão somente, que isto depende somente do ponto de vista da pessoa que emite esta opinião. E uma vez que há dificuldade de se estabelecer um critério capaz de validar estas escolhas, podemos elencar alguns princípios que podem variar do gosto pessoal, passando pela empatia ou não por algumas causas, pela identificação por um lado ou por outro, enfim, desde questões específicas e que não conseguiriam alcançar algum tipo de estabilidade, até as escolhas mais íntimas, relegadas quase que à aleatoriedade.

Faltando-nos a espessura do tempo histórico, nos privamos também das possibilidades de julgar uma situação a partir de suas consequências, que somente poderiam ser ponderadas num espectro mais amplo. Notório é o caso, dentre os historiadores, em que a pacificação colocada em prática por Otávio Augusto, na Roma antiga, veio a conduzir o Império para a fome, uma vez que as safras de trigo dependiam das ocupações realizadas pelo exército romano.

IV

Noto aqui a circularidade de minha proposta. E parece-me mesmo difícil opor-me a ela. Se os conceitos de progresso ou retrocesso dependem de situações específicas e não contam com validade mais ampla, por que continuamos a tomar contato com eles? A indigência intelectual pode ser uma explicação. Poucos leem e estudam e, quando o fazem, tendem à formatação mais ambicionada para os exames públicos ou de acesso às universidades.

Outra explicação: a política invadindo e ocupando as áreas mais solenes da reflexão mais detida, solitária e silenciosa. Neste sentido, como é sabido e bastante falado atualmente, as ditas humanidades se mostraram permeáveis à atmosfera política, para não dizer ideológica. Enfim, como se conta a história, de que modo se estrutura uma narrativa, o que é levado em consideração e o que é preterido, quais são os personagens a serem exaltados e quais os que serão deplorados, etc.  Do ponto de vista da filosofia, quais conceitos serão reforçados, demarcados e aprofundados, quais pensadores ou correntes de pensamento serão iluminados, quais serão descartados e abandonados. Nas disciplinas que mais aderem aos conceitos mais abstratos e que, como a sociologia, se arvoram como capazes de compreender a realidade social, a situação parece ainda mais clara: as explicações sobre os mais diversos fenômenos sociais ganham então os contornos das agendas políticas de uma ou outra vertente.

V

De tudo o que aqui foi dito, das idas e vindas, voltas e retornos, talvez um aspecto ainda renda algum comentário, ao menos pra que nos direcionemos à conclusão, ao fechamento desta digressão: Quais seriam os aspectos mais pessoais, subjetivos e até íntimos, que dariam suporte para a crença de um indivíduo no progresso e em seu oposto, o retrocesso?

A vaidade pode ser um deles. Acreditar, ou parecer que isso ocorra, que a vida possui um sentido para além daquilo que experimentamos no cotidiano. Partir do princípio de que este sentido possa ser percebido e demarcado. Nada tão próximo da concepção histórica de modernidade, a saber, estar adiante de seu próprio tempo. Esta uma das expectativas que aparentemente mais regozijo trouxe aos arautos de um novo tempo, marcado pela liberação – seja lá o que isto queira significar.

A prepotência, outro. A crença de estar certo, de saber o que irá acontecer bem como o que será impedido. Assim, entende-se a opção de lutar por um lado que se percebe como antecipando o melhor dos mundos. Este ponto de partida pode dar guarida a expressões tais como Primavera dos Povos, um novo alvorecer, etc.

Imagem: Heraldo Galan

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.