O vazio existencial na contemporaneidade

Existirmos, a que será que se destina?

Viver implica conviver com o inusitado. Porém, em grande parte do tempo, a tendência do ser humano é não pensar muito sobre esse inusitado e buscar ferramentas que lhe forneçam alguma ilusão de controle. Ascensão profissional, um celular cobiçado, um carro sofisticado ou qualquer conquista que promova uma suposta sensação de segurança. Faz parte da vida se relacionar com o imprevisível, então, não é incomum alguém pensar que com mais poder esse imprevisível se torne menos doloroso. Não à toa viralizou nas redes um meme que dizia: “Dinheiro não traz felicidade, mas ajuda a sofrer em Paris”. Nesse jogo humano de tentar driblar o tempo e o medo através do poder aquisitivo, um aspecto da vida é protelado: o sentido. O vazio de sentido até pode ser preterido por algum tempo, mas não uma vida inteira. Em determinado momento, esse vazio é notado e faz com que o mais rico dos indivíduos ou o mais belo dos humanos encare a pergunta clássica: qual é o sentido do que estou vivendo?

Atualmente, mediante uma longa quarentena em função de uma pandemia, essa questão surge grifada na mente de muita gente. Para elaborar essa questão, o monomito de Joseph Campbell e a tríade trágica de Viktor Frankl serão aqui utilizados como recurso. Ambos os autores, homens do século XX e nascidos no mesmo dia, trabalharam em diferentes perspectivas o enfrentamento da contingência e a superação do sofrimento. Contingência e sofrimento estes que fazem parte da vida, que se apresentam inesperadamente, seja como uma doença, como perda ou abandono, como um problema totalmente inusitado. Situações que o ser humano não controla, não prevê e das quais não consegue se proteger. Para elaborar esse embate entre indivíduo e acaso, Campbell identificou o monomito, uma narrativa única que permeia as narrativas mitológicas e, consequentemente, representativas dos desafios humanos; e Viktor Frankl se dedicou a clarear a busca pelo sentido da vida que existe apesar da dor, da culpa e da morte. Ambos enfrentaram como inimigo o sofrimento mediante o vazio e tiveram como objetivo o encontro com um sentido.

O conceito de monomito, do antropólogo Joseph Campbell, delineia a narrativa matriz que existe por trás da maioria das narrativas. Essa narrativa matriz apresenta um indivíduo desafiado pela vida, que não encontra alternativa a não ser encarar o desafio que lhe fora apresentado. O desafio -ou chamado- não permite negativa como resposta e justamente por isso se apresenta sem aviso e deixa o indivíduo sem saída. Uma vez dentro do processo e sem ter como voltar atrás, enfrenta o desconhecido que pode se manifestar das mais variadas formas, desde o apagamento da esperança até o confronto com seu maior medo. Após esse enfrentamento, o indivíduo prossegue até retornar ao ponto de onde partira, só que já não mais se sentindo (ou sendo) o mesmo. Trata-se de uma narrativa cíclica onde o preço pela liberdade de viver é a travessia do desconhecido. As 16 etapas do monomito podem variar, mas as três fases que envolvem a partida (o conhecido), a provação (o desconhecido) e o retorno (o novo conhecido) são estruturais. Ao se conscientizar da própria narrativa, o indivíduo se deixa transformar pela experiência e a conclui com a possibilidade de encontrar um sentido nesse processo de defrontação com a realidade.

A capacidade de compreender simbolicamente a narrativa pessoal permite apreender que a realidade nem sempre muda, mas é possível mudar a maneira como nos comportamos diante dela. Nesse contexto, o monomito se mostra como uma oportunidade de representação simbólica da própria jornada. Levando-se em conta que uma das funções do mito é dar sentido à existência e às coisas que existem no mundo, a narrativa matriz é, então, o mito presente em nossos processos pessoais de enfrentamento, que permite (re)significar experiências e ganhar espaço para a possibilidade de sentido. Não à toa o monomito é conhecido como a jornada do herói, a jornada de quem personifica a travessia do desconhecido. Campbell escreve:

“O herói é o homem ou mulher que conseguiu vencer suas limitações históricas, pessoais e locais, e alcançou formas normalmente válidas e humanas.” [2]

A jornada do psiquiatra Viktor Frankl, por sua vez, foi uma experiência prática do monomito frente ao desafio de sentido. Sobrevivente do holocausto, ele personificou o ciclo narrativo e fez do monomito algo tangível, passível de acontecer na vida concreta, indo além da estrutura que costuma ser mais facilmente reconhecida na literatura ou no cinema. Frankl desfrutava de uma boa vida quando fora arrancado dela para enfrentar seu primeiro campo de concentração. Mesmo não desejando viver essa experiência, se viu no núcleo do desconhecido, trabalhando e vivendo nas piores condições, suportando desafios tanto inusitados quanto dolorosos. Perdeu entes queridos, percebeu-se totalmente só, na crueza da própria realidade. Na jornada de Frankl, não houve liberdade de escolha ao ser levado para um campo de concentração, mas ainda assim coube a ele a decisão de como enfrentar a situação que lhe fora imposta. Assim, numa espécie de mergulho, pôde encarar sua vulnerabilidade a revelar que, mesmo nas circunstâncias mais trágicas, o ser humano ainda se depara com uma escolha: enfrentar ou não enfrentar a escuridão? Aqui não se trata de enfrentar um desconhecido instigante, mas ao contrário, trata-se de um possível futuro aterrador que, no mínimo, envolvia o sofrimento garantido de perder absolutamente tudo aquilo que ele conhecia anteriormente como vida. Foi um longo processo ao qual ele sobreviveu e onde a escolha por não sucumbir diante do inexplicável lhe garantiu a dignidade de suportar o inusitado do qual saíra transformado. Afinal, não há como viver integralmente uma experiência profunda sem se deixar transformar por ela. Sua sobrevivência o levou ao inevitável encontro com o sentido da vida, sentido este que surgiu para além de todo o sofrimento imposto pelo holocausto e que lhe permitiu retornar ao ponto de onde partira, pronto para viver. Viveu, aliás, muitos anos a serviço desse mesmo sentido. Na jornada de Frankl, é possível entender que o sentido não se trata de uma meta, nem de uma aquisição material, tampouco de alcançar um ideal. O sentido pode, inclusive, ser encontrado em meio a um processo doloroso e não na felicidade ou no prazer, como tão inadvertidamente se espera. Frankl identificou o sentido em atravessar o sofrimento através de todas as privações físicas e materiais, encontrou o sentido para além da culpa por ter sobrevivido enquanto milhões como ele não sobreviveram e realizou sentido de vida ao entender o valor da existência quando a morte se fez tão próxima. A tríade trágica [3] (a dor, a culpa, a morte) oferece elementos dinâmicos para sair do conhecido e ir em direção ao desconhecido a fim de encontrar o sentido que move o ser humano para além daquilo que conhecidamente o cerca. Mas, como atravessar o sofrimento quando ele se faz inevitável, como suportar a vida vazia de sentido?

A rigor, a crise precede o sentido, que parece estar distante do mundo de consumo frenético e da necessidade de controle, um comportamento flagrante e recorrente na contemporaneidade e que visa preencher um vazio de significado com aquisições, na ilusão de burlar a finitude que é da condição humana. Na jornada de sentido, é fundamental a consciência da existência que se revela para além da sobrevivência. Descartando qualquer possibilidade de se obter uma fórmula mágica para dar sentido à vida, já que tal expectativa só ampliaria a frustração e a ilusão de abocanhar uma resposta instantânea na esperança de fugir do encontro intransferível com o próprio íntimo e sua crueza, Viktor Frankl propõe enfrentar a tríade trágica (a dor, a culpa, o medo) com o entendimento do que ele denomina “otimismo trágico” [4]:

“Em outras palavras, o que importa é tirar o melhor de cada situação dada. O ‘melhor’, no entanto, é o que em latim se chama ‘optimum’ – daí o motivo por que falo de um otimismo trágico, isto é, um otimismo diante da tragédia e tendo em vista o potencial humano que, nos seus melhores aspectos, sempre permite: 1. transformar o sofrimento numa conquista e numa realização humana; 2. extrair da culpa a oportunidade de mudar a si mesmo para melhor; 3. fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis.” [5]

Aqui é possível alinhar o monomito à jornada na busca de sentido. Ambos os autores se recusam a ignorar a contingência que é parte da vida, que todos enfrentamos ainda que haja recusa mediante a tragédia anunciada. Não à toa os desafios e enfrentamentos do desconhecido sempre foram imortalizados em formas de narrativas. Também, ambos os autores lançam mão justamente da consciência trágica, para apontá-la como veículo de encontro com um sentido. Joseph Campbell reforça:

“No entanto, se o monomito deve cumprir sua promessa, não é o fracasso humano, nem o sucesso sobre-humano, mas o sucesso humano, o que nos deve ser mostrado.” [6]

Num contexto similar, trazendo para a contemporaneidade que deflagramos, a pandemia pode oferecer a cada indivíduo em particular o desafio de vivenciar o seu próprio monomito. A COVID-19, e seu surgimento inusitado, trouxeram à tona a resistência, a incredulidade seguida de uma nova rotina, a importância de encontrar outra maneira de lidar com o tempo e com o cotidiano, o ineditismo e a inevitabilidade de lançar outro olhar sobre as pessoas importantes (e sobre as menos importantes). A chance de assumir, ainda que de relance, a realidade imprevisível que não será resolvida apenas na caça pela felicidade das conquistas. Aliás, pouco adiantaria estar em Paris nesse momento. Trata-se do indivíduo consigo mesmo, convivendo diariamente com sua condição vulnerável, frágil, real. E de como esse indivíduo eventualmente transformado se comportará num novo cenário social. Isso não precisa significar o fim do mundo, mas pode ser um chamado à existência, d’onde possivelmente seremos transformados para seguir em direção à possibilidade de encontro com um sentido. Não obstante, após a superação da pandemia (seja da forma que for) as pessoas ainda se estressarão no trânsito e problematizarão nas redes sociais. E é daí que se abre a percepção de que esse mundo pode não mudar, mas um indivíduo devidamente ciente de seu sentido terá condição de repensar seu papel na humanidade. Nesse entendimento, o próprio Viktor Frankl descreve a resposta de Yehuda Bacon, quando perguntado sobre o sentido de ter estado por tantos anos em Auschwitz:

“Quando rapaz, pensava: vou contar ao mundo o que vi em Auschwitz – na esperança de que o mundo se tornasse outro. Mas o mundo não mudou, e o mundo nada quis ouvir sobre Auschwitz. Só muito mais tarde compreendi verdadeiramente qual é o sentido do sofrimento. O sofrimento tem um sentido quando tu mesmo tornas-te outro.” [7]

 Nota: o título é um trecho da letra da música Cajuína, composta por Caetano Veloso em homenagem a Torquato Neto, após sua morte, referindo-se à efemeridade da vida.

[1] CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Ed. Cultrix/Pensamento. São Paulo, 1997. P.13.

[2] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Ed. Sinodal. São Leopoldo, 2019. P. 161.

[3] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Ed. Sinodal. São Leopoldo, 2019. P. 161.

[4] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Ed. Sinodal. São Leopoldo, 2019. P. 161.

[5] CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Ed. Cultrix/Pensamento. São Paulo, 1997. P. 120

[6] FRANKL, Viktor. O Sofrimento de Uma Vida Sem Sentido. Ed. É Realizações. São Paulo, 2015. P. 30.

Imagem: gl0ck/iStockPhoto

Sobre o autor

Kelma Mazziero

Graduada em Direito, com pós graduação em Ciências da Religião (lato sensu). Pesquisadora do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.