Comportamento político

A grife do #stayhome

Como se não pudesse ser de um modo diferente, muitas das posições e atitudes assumidas no mundo contemporâneo são bastante claras e enfáticas e, acima de tudo, são divulgadas com alarde nas redes sociais. Já tem sido um lugar comum, inclusive, a divulgação daquilo que perfaz a intimidade de uma pessoa na forma de um statement, uma declaração que carrega a defesa de um ponto de vista de uma forma mais marcante e definitiva. Não somos aqui os primeiros a observar que grande parte das manifestações na atualidade se façam sob a luz de holofotes. E como tudo isto iria se alterar num cenário de maiores restrições, como é o caso deste momento de quarentena e de distanciamento social que estamos vivendo?

Até aqui, nada de novo. Mas o que nos parece atraente, é a percepção de novos comportamentos adquiridos no momento presente. Pensamos aqui na situação concreta que opõe aqueles que defendem a permanência em casa e o distanciamento social na quarentena, e os outros que entendem que as atividades out-door não podem parar sob o risco de que uma maior tragédia venha a ocorrer se a economia permanecer parada por ainda mais tempo. Porém estes não são os únicos grupos que estão em disputa e oposição. Há um outro público e outro tipo de comportamento, constituído por aqueles que não podem parar, sob o risco de não conseguirem minimamente se manter. Este é o primeiro ponto de nossa observação. O segundo aspecto está remetido à permanência do fosso de separação entre as diferentes classes sociais no Brasil, este sendo um dos nossos maiores entraves econômicos e humanos.

A questão que se coloca é se as atitudes daqueles que podem permanecer em casa, que são preparados para tanto, que possuem redes estáveis de wi-fi, notebooks, lazer através do streaming, que fazem de suas cozinhas um experimento para as comidas gourmet, que acessam os serviços de delivery, podem de alguma maneira confrontar-se com as de muitos outros que mais exatamente não podem se dar ao luxo de ficar em casa. Pensamos aqui no comércio que se faz das atitudes, algo que prolifera nas redes sociais com o marketing de si mesmo, com o cálculo e a reflexão destinados a demarcar o indivíduo como alguém que se posta ao lado de uma causa ou de outra, ou em oposição àquelas que julgadas negativas. Ou, dito de outra forma, de como as redes sociais se tornam canais de divulgação daquilo que é identificado como uma virtude, mais exatamente pela própria pessoa que realiza os posts.

E aqui nos perguntamos se o #stayhome não é, ele próprio, uma grife, uma possibilidade que poucos podem ter, um verdadeiro objeto de desejo em meio à pandemia que vivemos. Sabemos que esta expressão foi tomada pela ideologia e que ela se opõe àqueles que defendem a manutenção dos trabalhos e dos serviços e que são contra as práticas de distanciamento social. Mas pensamos naqueles que de alguma forma se encontram fora desse contexto de polarização mais acirrada, e que simplesmente não podem permanecer em casa. E é esta atitude sobre a qual pretendemos lançar luz: as imagens de entretenimento, as fotos que revelam enfrentamento do tédio, os mais variados pratos de diferentes cozinhas, tudo isto não parecerá uma exibição frente àqueles que se encontram impedidos de tais regalias?

O segundo ponto aqui é revelar que a promoção do que possa parecer uma virtude – a defesa de que o melhor a fazer é ficar em casa, o que demonstra mais atino e preocupação com os outros – pode sim ser a permanência de hábitos que sinalizam a superioridade de uma classe social sobre outra que ignora estes procedimentos, que não tem um tipo de aprimoramento humano, que não consegue estabelecer um critério mais razoável para as suas escolhas. Com isto pretendemos apontar a persistência de um sentimento de superioridade entre as diferentes classes sociais no Brasil, algo que se manifesta com intensidade e clareza em vários temas e por múltiplos aspectos. Os períodos eleitorais costumam apresentar esta polarização, mas não somente. Os gostos e predileções musicais, a apreciação por um filme ou uma série, o que mais se consome em termos gastronômicos, os modos de se vestir, etc. Estes são alguns dos marcadores de comportamento que podemos mencionar e que terminam por dispor um distanciamento entre as diferentes classes e grupos sociais.

Um aspecto aqui apenas nuançado, mas que pode render possibilidades de pesquisas mais detidas, tem ligação mais exatamente com estas diferenças entre as classes sociais. Sabemos, porém, que existem problemas em relação às definições tanto das classes sociais quanto destes aspectos que as diferenciam. Pensamos por exemplo na validade do conceito de luta de classes e o quanto ele seria aplicável para o caso que mencionamos neste contexto contemporâneo. Entendemos também que as distâncias e diferenças exploradas pela obra clássica de Gilberto Freyre, Casa-Grande e Senzala, poderia oferecer horizontes heurísticos, se devidamente atualizada em relação às demandas atuais, as reconfigurações das classes sociais, os novos atributos e comportamentos. Finalmente, acreditamos que o mapeamento do conceito de ressentimento também poderia mostrar-se válido para a análise do momento atual.

Sabemos que distanciamento social, quarentena, pandemia e as diferentes estratégias de retorno ao que se está chamando de “novo normal” são temas passageiros, mesmo que percebidos como duradouros e difíceis de ultrapassar. Os marcadores de comportamento que se manifestam de modo distinto entre as diferentes classes sociais, pelo contrário, apresentam-se com intensidade nos mais distintos cenários sócio-políticos em nosso país.

Frases de efeito, tweets e re-tweets, imagens no Instagram, posts no Face ou memes enviados no WhatsApp, cada um no interior da linguagem que caracteriza estes diferentes meios, podem sim ser tomados como objeto de estudo a partir do viés da luta de classes, da permanência dos quadros apontados na tradição freyreana e por intermédio do ressentimento. Com isto, pretendemos dizer que a pesquisa em Comportamento Político em nosso país deve buscar referências, os temas mais clássicos e que já foram visados por diferentes autores ao longo da melhor tradição interpretativa nacional. Estas são perspectivas de estudo a serem mais desenvolvidas e maturadas no Grupo de Pesquisa em Comportamento Político.

Imagem: Heraldo Galan/divulgação

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.