Sala Michael Oakeshott

Oakeshott e a nêmesis da política

Michael Oakeshott (1901-1990), no seu “A Política da fé e a política do ceticismo”, publicado no Brasil pela É Realizações em 2018, desenvolve um conceito essencial para o debate político contemporâneo, debilitado na sua operação intelectual pela polarização da estupidez. Trata-se do conceito de nêmesis na política.

No âmbito da obra em questão, Oakeshott descreve a polarização entre o pensamento político baseado na fé numa razão política capaz de grandes engenharias sociais, por um lado, e, por outro, oposto a esta, o pensamento político baseado no ceticismo atroz em relação a qualquer capacidade racional de lidar com a realidade. Evidente que no primeiro temos uma linhagem revolucionária, e no segundo uma cética conservadora.

A importância da Nêmesis (aqui como metáfora da deusa grega da vingança e da justiça distributiva), como efeito colateral da polarização radical entre fé e ceticismo na política, é a destruição de ambas as atitudes como ganho teórico e de ação na gestão política: a fé se releva como a desmedida da vaidade daquele que prega a fé na política, enquanto que o ceticismo se revela como a inércia daquele que nada quer fazer para melhorar a sociedade em que vive. A Nêmesis aqui seria justamente o ponto de inflexão em que cada um dos polos se torna destrutivo, isto é, a vingança contra o excesso da polarização, e a destruição de cada um dos polos. A Nêmesis ri da estupidez da fé e do ceticismo.

Portanto, nunca foi tão importante ler Oakeshott, um verdadeiro profeta da polarização da estupidez na política.

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Sobre o autor

Luiz Felipe Pondé

Filósofo. Diretor Acadêmico do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

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