Comportamento político

História, cloroquina e comportamento político

A política sempre foi um tema de interesse da História. Muitas vezes, foi identificada como sinônimo da disciplina, supostamente constituindo-se numa modalidade de história, com “H” maiúsculo. Contudo, mesmo sendo uma das dimensões exploradas pela área, a política – compreendida neste texto como a ação dos indivíduos, em meio aos jogos, disputas e visões de mundo a serem realizadas em sociedade – sofre mudanças e deslocamentos no que se refere à forma como os sujeitos a experimentam, algo que tem forjado modos diferentes de atuação e de compreensão a respeito deste fenômeno.

Em tempos de crise sanitária, com dimensões mundiais, a política assumiu nova forma, alterando a maneira como os indivíduos se relacionam e experienciam diferentes sociabilidades. No caso do Brasil, esta realidade provocada pela pandemia ganhou contornos que ultrapassam a situação imediata, com a tragédia evidenciada pelo cenário de mortes em massa e pela falta de coordenação racional e profissional no seu enfrentamento, materializando um processo de ideologização dos comportamentos políticos que impacta decisivamente tanto as narrativas históricas construídas quanto aquelas que ainda serão estruturadas no futuro.

Um passeio pelas mídias sociais nos ajuda a verificar, de maneira clara, como os indivíduos se posicionam em relação ao tratamento do COVID-19 “com ou sem cloroquina”. Escolha essa que não se baseia na eficácia cientifica desta medicação ou de outros tratamentos e procedimentos respaldados em ciência, mas é orientada pelas crenças e pelas especulações e achismos daqueles e daquelas que deixam de considerar as pesquisas e explicações técnicas.

Um simples posicionamento como o de aceitar ou não o uso da cloroquina já se apresenta como um dado importante, afetando os marcadores que indicam o quadrante em que os sujeitos se definem ou repercutem nas suas mídias digitais. A defesa de um tratamento médico para o COVID-19 que passe pela manipulação da hidroxicloroquina colabora para demonstrar ou não uma filiação com a visão política dos segmentos bolsonaristas. Mesmo que tal escolha de tratamento médico não signifique adesão unânime, ela nos ajuda a compreender de alguma forma a fisionomia do comportamento político de alguns agentes, e como eles se posicionam em outros temas que podem não parecer relacionados – como questões relativas à História do Brasil no período do regime militar, à importância da cultura ou de políticas identitárias ou de transferência de renda.

Esse fenômeno de tribalização, descrito por muitos teóricos do comportamento político, nos ajuda a repensar as visões clássicas a respeito da Política e de suas finalidades construídas por historiadores e cientistas sociais. Algumas das narrativas por eles elaboradas, e amparadas em concepções orientadas pela racionalidade, virtude e defesa do bem comum – que seriam os parâmetros norteadores para que as pessoas se engajassem na defesa de determinada narrativa política ou histórica – não se materializam de forma direta na realidade estabelecida. Tais adesões são frutos de registros amparados por sentimentos como empatia e crenças não justificadas racionalmente, mobilizadores das escolhas políticas que nos últimos anos têm polarizado de maneira extrema e violenta o debate político, principalmente, nos ambientes virtuais.

Desta forma, os “posts” nas diversas mídias digitais têm transformado o ambiente virtual numa arena acirrada de polêmicas e linchamentos públicos, onde o debate de ideias tem cedido espaço para o xingamento. Por tal realidade, a pandemia, o uso da cloroquina e a contraposição à sua administração medicamentosa têm denotado que as posições políticas não se encerram na adesão às ideias ou propostas, mas envolvem comportamentos que classicamente fogem ao debate político (e.g. encarar ou não o COVID-19 como “gripezinha” passa a ser interpretado como adesão ou rejeição ao bolsonarismo).

O cenário da Pandemia provoca historiadores a pensarem essa realidade, dialogando com os “utensílios” fornecidos pela História do tempo presente. Esse exercício envolve rastrear e analisar o lugar que o conceito de comportamento político agrega à reflexão promovida pela História, uma vez que o dialogo metodológico entre essas áreas propicia a análise da realidade histórica, colaborando para que as ações dos homens no tempo não pareçam um objeto de um passado distante, e apresentando a utilidade da História para a vida. Dimensão que deve colaborar para pensarmos como os seres humanos vivenciam as formas de lidar com o tempo, mesmo em períodos nos quais desenvolvemos a sensação de que existe uma aceleração da história, como é o caso de pandemias, guerras e transformações que impactam a realidade histórica e humana.

Imagem: Heraldo Galan/heritagetype.com

Sobre o autor

Augusto César Acioly Paz Silva

Doutor em História pela UFPE, professor da AESA-CESA – Arcoverde/PE. Integrante do Grupo de Pesquisa em Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.