Comportamento político

Sob a tirania da conveniência

Frank Furedi

A tradição pode ser definida como uma extensão dos direitos civis. Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, os nossos antepassados. É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que simplesmente por acaso estão andando por aí. Todos os democratas objetam a desqualificação pelo acidente do nascimento; a tradição objeta a desqualificação pelo acidente da morte. A democracia nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso criado; a tradição nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso pai. [Ortodoxia, G. K. Chesterton, 1908]

Na era da produção em massa de conteúdo de baixa qualidade e fácil aceitação, muitos são os indicativos de que, no contemporâneo, as modas e estilos terminaram por invadir o que antes reconhecíamos como conhecimento. Assim, as áreas que, do ponto de vista mais clássico e tradicional, se ocupavam das reflexões, dos estudos ou da leitura foram se tornando mais e mais refratárias às dúvidas. Inúmeras podem ser as respostas que se seguem e que nos permitem interpretar esse estado de coisas. Costumamos ressaltar aquelas que são fruto de uma pesquisa mais detida e que oferecem balizas mais claras para a nossa percepção quando nos sentimos próximos, nos aprofundamos no estudo e nos deparamos com os paradoxos do presente. Isto acontece quando finalmente percebemos que o contemporâneo pode apresentar objetos bem definidos, aptos a serem encetados na direção de um inquérito renovado, corajoso e desprovido de pré-julgamentos – tudo isso ocorrendo sem que necessariamente tenhamos afinidade com o que descobrimos. Para aqueles que se dispuserem a esse enfrentamento, os primeiros vinte anos do século XXI ofereceram um bom número de temas, situações, conteúdos e interpretações que sinalizam novas atitudes e expectativas, mais distantes das certezas obtidas na modernidade. Quem poderia supor que, de um modo geral, a cultura universitária ou midiática – dois dos maiores campos herdeiros das esperanças iluministas de vertente francesa – poderiam personificar intenções persecutórias amparadas nas frágeis e voláteis modas de ocasião?

Estes são alguns dos temas que frequentam a obra do sociólogo Frank Furedi, professor emérito da Universidade de Kent, Reino Unido. Autor de mais de 20 livros – dentre eles Therapy Culture: Cultivating Vulnerability in an Uncertain Age (2004), Paranoid Parenting: Why Ignoring the Experts May Be Best for Your Child (2008), Authority: a Sociological History (2013), What’s Happened to the University?: A sociological exploration of its infantilisation (2016), How Fear Works: Culture of Fear in the Twenty-First Century (2018) – Furedi aliou o ímpeto pelo conhecimento mais detido a um fôlego incomum na pesquisa, seja na releitura dos clássicos da sociologia ou na descoberta dos novos pesquisadores que são indicados com generosidade nos seus livros.

Entre os seus escritos, queremos aqui falar de sua última obra, Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries (Porque as Fronteiras Importam: Porque a Humanidade Deve Reaprender a Arte de Traçar Limites, sem tradução para o português) London & NY: Routledge, 2020. Num texto claro, elegante e contundente, deparamo-nos com referências a autores como Gertrude Himmelfarb, Jean Twenge e Lionel Trilling, bem conhecidos pelos participantes dos Grupos de Pesquisa do Labô, além de outros como Christopher Lasch, Anthony Giddens, Hanna Arendt, Norbert Elias, George Simmell, Karl Popper, Pierre Bourdieu, entre outros.

O título pode não ser assimilado de imediato, na medida em que não denota a opinião preconcebida de aceitação consensual da globalização, nem a crença no ideal de desaparecimento de todo tipo de fronteiras e limites entre as nações ou pessoas. Contudo, sabedor da tendência ao entendimento literal do que se lê, Furedi nos alerta que não se tratam somente das limitações concretas e reais ou divisas internacionais, como aquelas que estão sinalizadas nos mapas. Sua percepção é a de que os limites são muito mais do que simplesmente fronteiras cartoriais resolvidas nos campos do direito internacional. Essas experiências de demarcação dão suporte e guarida para a produção futura de significado e sentido (meaning) simbólicos. Assim, quando o autor fala de limites, ele está nos remetendo ao que nos habilita a perceber distinções. E essas diferenças, além de serem constatadas de maneira clara no cotidiano da vida humana, também são passíveis de assimilação por intermédio daquilo que internalizamos de um modo subjetivo. Isto posto, aquilo que nos separa de um país para outro, também o faz de uma comunidade em relação a outra, entre falantes de uma língua e outra, e com detentores de diferentes culturas, idades, etnias, gênero, e assim por diante.

Estas diferenças e distinções não são necessariamente excludentes, não são nem boas, nem más: elas somente existem. E é a partir do contato com o que nos parece diferente – de uma espécie de alteridade, então – que experimentamos e desenvolvemos a capacidade de julgar, bem como avançamos na definição do que entendemos ser, isto é, na nossa identidade. Julgar, aqui, não significa diminuir, ser preconceituoso ou desmerecedor, mas somente indicar que, se nos tomamos como magros ou obesos, o fazemos na comparação com outras pessoas que não o são; se nos descobrimos como crianças, confirmamos essa percepção por constatarmos que outros seres humanos são mais velhos do que nós; se nos vemos como altos é porque outras pessoas são mais baixas do que nós. Mas não ocorreria algo semelhante em relação ao que entendemos que seja bom ou mau? Aquilo que julgamos humano ou desumano?

O estranhamento do Ocidente em relação aos limites e contrastes – reais ou simbólicos –, nos teria incapacitado de elaborar julgamentos? Distanciando-nos das antigas limitações e balizas – entendidas aqui não somente como fronteiras, mas especialmente como vínculos surgidos e maturados ao longo do tempo de vida numa comunidade ou numa família, espaço em que constituímos empatias, solidariedade, senso de pertencimento ou até mesmo desejo de afastamento – tendemos à produção de abstrações identitárias, que paradoxalmente são mais intrusivas que as anteriores, uma vez que são fruto da racionalização. De acordo com Furedi,

com as suspeitas relativas a  círculos de solidariedade e pertencimento, com o rompimento desses vínculos, abre-se espaço para a legitimação do policiamento e da regulação. Uma vez que os antigos vínculos passam a ser bombardeados, surgem outros tipos de identificação, abstratos e permeáveis à política. O paradoxo das fronteiras se configura no estabelecimento de novos e vigorosos limites que surgem a partir do franco questionamento das linhas anteriormente demarcadas e que passam a ser percebidas como tradicionais ou reacionárias.” (pp. 33-41)

Em meio a este cenário de indigência intelectual, sem o suporte da espessura histórica e a habilidade de realizar distinções e discriminações, temos algumas consequências: o conceito de apropriação cultural embasa-se de modo surpreendente na recuperação da validade dos limites, uma vez que este argumento se apresenta como favorável ao ataque feito às sociedades ocidentais. A concepção de Safe Space, nascido no interior da vida universitária anglo-americana, tende a equivaler-se à aspiração pela construção de muros que separem, por medo ou insegurança, ou previna a perda de empregos pela competição. Para Furedi, neste aspecto, o Safe Space se equivale ao Keep America Safe, um dos slogans da campanha de Donald Trump. Enfim, dois produtos da incoerência que é fruto da falta de suportes para a realização de julgamentos.

De todas as oposições e contrastes percebidos anteriormente como naturais, chama-nos a atenção a ambição de rompimento das distâncias entre as esferas privada e pública, sendo essa uma das mais sérias e preocupantes indistinções. Se “o pessoal é político”, ideologizam-se os desejos e o self propriamente dito. Se anteriormente,

os indivíduos estabeleciam um balanço entre a aspiração por privacidade e o desejo de descobrirem-se e comunicarem-se, no contemporâneo, uma vez que a vida privada se torna objeto da visão pública, ela inevitavelmente se politiza. Ambas as esferas são comprometidas e, quando isto acontece, o domínio público se torna incrivelmente despolitizado: se o pessoal é político, nada pessoal resiste. A política perde o seu lugar de ser e o vocabulário de sentidos e significados se apropria da esfera pública. A política se volta a oferecer reconhecimento e não mais se dedicar aos objetos da preocupação pública, como educação ou trabalho.” (pp. 95-101)

A partir do contato com estas reflexões, conseguimos estabelecer um ponto de referência e de observação que nos permite compreender iniciativas cada vez mais frequentes no contemporâneo, motivadas pelo desejo de controle do comportamento ou das atitudes humanas.

Se a vida privada ocupa o lugar da dimensão pública, ela se politiza e ganha fortes contornos ideológicos – de esquerda ou direita – e nada de mais íntimo pode resistir. Sendo que o mais problemático em meio a esse diagnóstico é que a motivação inicial tenha sido o interesse pela abertura, pelo mindfulness, o não-julgamentalismo, a busca propalada da ausência de preconceitos e a abertura às novas possibilidades e perspectivas.

Essas incoerências epistemológicas não deveriam nos causar surpresa, uma vez que são alguns dos sintomas da indistinção entre as modas, as causas, os objetos de estudo das humanidades e o desejo inconfesso de se controlar a vida dos outros. E todos esses seguem sendo aspectos distópicos, que foram revigorados no contemporâneo.

Imagem: divulgação/Frank Furedi

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.