O vazio existencial na contemporaneidade

Isolamento social: um encontro com o sentido?

Talvez, um dos grandes legados que nos deixará o isolamento social a que fomos forçados pela pandemia da COVID-19 será o encontro como a nossa vida real e a possibilidade da descoberta do sentido do que realizamos e desejamos a partir dessa suspensão do que vínhamos realizando e desejando. A voracidade com que a pandemia chegou surpreendeu e abalou o mundo todo, afinal, em pleno século XXI fomos assolados em nossas certezas, em nossa onipotência de dominar e domar todos os males da vida e obrigados a encarar nossa finitude e nossas limitações. A pandemia vem desconstruindo e reconstruindo a maneira como nos relacionamos com o mundo, com os outros e com nós mesmos.

Fomos forçados, pelo isolamento social, a olhar para quem somos quando entramos em casa e trancamos a porta. Obrigados a nos desnudar diante do espelho e encarar o que resta de nós mesmos quando tiramos a maquiagem, o sapato e a roupa de grife, quando não podemos mais ir às baladas, ao Shopping, fazer esportes radicais, correr, caminhar, ir à praia, à academia ou postar nas redes sociais o reflexo de uma vida plena e feliz. A vida que sempre vivemos está temporariamente suspensa e novas situações surgiram para nos confrontarmos com nossas verdades.

O excesso de ocupação e de estímulos, muito presentes no mundo contemporâneo, nos deixa sem tempo para ouvirmos o que sentimos e, com menos tempo ainda para lidarmos com a nossa angústia, nossa dor e nosso sofrimento, sem tempo para encararmos nossa finitude e reconhecermos nossos limites diante das situações desconhecidas e sobre as quais não temos nenhum controle.

Por outro lado, como afirma o professor e filósofo Pedro Duarte, em seu livro “A pandemia e o exílio do mundo” (2020), o esvaziamento de nossas atividades diárias anteriores à pandemia, ou a sua intensificação sem os descansos de antes, podem trazer à superfície a questão de seu sentido, do que elas verdadeiramente representam para nós. Por falta ou por excesso, podemos perder a autointimidade e nos estranhar, ao ponto de pensar o que antes não se pensava. Nessa nova vida sob a pandemia, o consumo desenfreado deixa de ser o balizador da felicidade e do sucesso, e o que parecia dar sentido está se diluindo lentamente e escapando de nossas mãos. Perdemos o controle sobre a vida e sobre as coisas, e percebemos que nos encontramos nas mãos do acaso.

É como se a repentina e drástica desorganização do sentido do mundo deixasse uma espécie de vácuo que, por não estar preenchido, possibilita que o sentir e o pensar se reestruturem, quem sabe, de uma forma muito diferente do que era antes. Não existem mais certezas, no futuro tudo cabe. Esse jogo de incertezas e falta de horizonte é o que causa a angústia, afirma Duarte (2020). Quantos de nós estão convencidos de que querem continuar a viver como antes?

Podemos crer que, até poucos meses atrás, a maioria das pessoas não tinha tempo para olhar para sua vida ou talvez para buscar seu sentido real, vivendo, possivelmente, uma vida não legítima, onde o sentido estava diretamente ligado com a busca de prazer, o excesso de atribuições, ou a busca da felicidade através da satisfação de prazeres imediatos e instantâneos – em uma tentativa insana de garantir posição social, reconhecimento e fortalecimento da autoestima, entregando-se ao consumo desenfreado, confundindo o “ter” com o “ser”, enfim, vivendo uma felicidade líquida e superficial.

Zigmund Bauman, sociólogo de grande destaque no mundo contemporâneo, nos convida, em suas obras, a refletir sobre as relações de consumo e a busca da felicidade, nos oferecendo ferramentas para compreender o funcionamento da sociedade atual, a qual denomina “líquido-moderna”. Em seu artigo “O debate sobre a felicidade na sociedade líquido moderna”, Geisa Matos destaca:

“Bauman nos dá elementos para admitir que a sociedade ocidental “universaliza” um dado conceito de felicidade como busca ansiosa, permanente, insaciável, baseada na competição e no desejo de parecer melhor do que os outros, no simulacro de um ideal sempre almejado e nunca conquistado, senão por fugazes instantes do consumo de um bem ou de uma relação amorosa, esta destinada a ser substituída logo que apareçam os primeiros sinais de insatisfação.” [1]

Viktor Frankl, psiquiatra, fundador da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, a Logoterapia, sobrevivente dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, dedicou sua obra a discutir o encontro com o sentido da vida em contraponto ao vazio existencial. Preconizava que, mesmo diante das condições mais extremas e de muito sofrimento, o homem deve encontrar razão para viver. Para Frankl, enquanto existisse vida e vontade, existiria a possibilidade de encontro com o sentido. O autor também reforça essa ideia de que vivemos uma vida ilegítima, evitando o enfrentamento do vazio existencial, utilizando subterfúgios para encararmos a vida como ela realmente é. Ele afirma:

“Existem ainda diversas máscaras e disfarces sob os quais transparece o vazio existencial. Às vezes a vontade de sentido frustrada é vicariamente compensada por uma vontade de poder, incluindo a sua mais primitiva forma, que é a vontade de dinheiro. Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em compensação sexual.” [2]

Recentemente, muitos textos e tentativas de previsões tratam de possíveis mudanças de paradigmas e discorrem sobre que mundo vamos encontrar depois da pandemia. A intenção aqui é fazer um exercício sob a óptica inversa, ou seja, que tipo de ser humano o mundo irá encontrar após o término desse evento. E, ainda, se todo esse período contribuirá para encontrarmos um sentido para essa experiência pela qual fomos obrigados a passar, e transformá-la numa conquista humana, analisando esse sentido aos olhos emprestados de Viktor Frankl.

“Sonhamos que bastava fazer progredir as condições socioeconômicas de uma pessoa para que tudo caminhasse bem, para que ela ficasse feliz. A verdade é que, a luta pela sobrevivência não acaba, e ponto. De repente brota a pergunta: ‘Sobreviver? Mas pra quê?’. Em nossos dias um número cada vez maior de indivíduos dispõe de recursos para sobreviver, mas não de um sentido pelo qual viver.” [3]

É inerente ao ser humano questionar não somente o sentido da vida, mas também o sentido do sofrimento, quando se depara com situações de dor, perdas ou com a possibilidade de morte. Dor e sofrimento não podem ser compartilhados. Essa é uma experiência única, subjetiva e individual. E o mergulho nessa experiência pode trazer um novo e profundo significado à existência.

O sentido, segundo Frankl, pode ser encontrado à medida que o homem responde aos desafios e questões que a vida lhe impõe. O próprio Viktor Frankl encontrou esse sentido na sua trágica experiência como prisioneiro nos campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial. Ali percebeu que o sofrimento é capaz de dar sentido a uma vida. Afirma que, diante de um sofrimento inevitável, de uma situação sem esperança, o ser humano pode transformar essa dor em realização pessoal e repleta de sentido.

Considerando esse pensamento de Frankl, podemos intuir que, neste momento, todas as condicionantes estão postas para encontrarmos o sentido. A pandemia nos coloca desafios que são totalmente inevitáveis. Nossas vidas estão de cabeça para baixo, velhos hábitos tidos como imutáveis foram quebrados, estamos isolados em casa ou sendo obrigados a driblar o medo da morte e sair às ruas por extrema falta de opção (morrer de COVID-19 ou de fome) – por vezes mergulhados em dificuldades financeiras, lidando com perdas de referência e de pessoas amadas, sem contar com as incertezas nos cercam. São situações como essas que nos atropelam, que nos angustiam, que nos paralisam e nos fazem sofrer. O que vai definir o encontro com o sentido é a forma como nos posicionamos diante do sofrimento instalado e, em certa medida, inevitável.

Mas como é possível trilhar o caminho ao encontro do sentido?

Para Frankl, a resposta está no livre-arbítrio. Ele afirma que um ser em busca de sentido é sempre um ser livre, que, apesar dos condicionantes ambientais e biológicos que tendem levar o indivíduo a responder às situações da vida de uma forma ou outra, existe, também, a esfera da liberdade, e que, mesmo diante destas limitações, que são impostas, existe o espaço de escolha, ainda que a única liberdade de escolha que tenha seja enfrentar o sofrimento de cabeça erguida.

“A liberdade humana é uma liberdade limitada. O homem não é livre de certas condições, mas é livre para tomar posições diante delas. As condições não o condicionam inteiramente. Dentro de certos limites depende dele se sucumbe e deixa-se limitar pelas condições ou não. Ele pode até superar as condições e, assim fazendo, abrir-se um caminho e penetrar na dimensão humana” [4]

Questionando a influência do ambiente sobre a alma humana, principalmente o quanto a experiência vivida no campo de concentração marca o indivíduo e determina seu comportamento, Frankl questiona:

Onde fica a liberdade humana? Não haveria ali um mínimo de liberdade interior (geistg) no comportamento, na atitude frente às condições ambientais ali encontradas?” [5]

Respondendo a essas questões, Frankl diz que a pessoa é muito mais do que a soma de sua constituição física, suas características de personalidade ou sua condição social, e que é possível reagir a condicionantes ambientais e aos dilemas da vida de forma diversa das exigências e determinações, sem sucumbir às mazelas da dor e do sofrimento. Baseado nas suas experiências de vida no campo de concentração, Frankl afirma que a pessoa pode agir “fora do esquema”. Que, em cada situação adversa vivida, existem milhares de oportunidades para concretizarmos essa decisão interior. E que, por ser uma decisão pessoal, nenhuma decisão precisa ser igual a outra. Nada pode privar o indivíduo de sua característica mais intrínseca, que é a sua liberdade.

“A liberdade interior (geistig) do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido. Pois não somente uma vida ativa tem sentido, em dando à pessoa a oportunidade de concretizar valores de forma criativa. Não há sentido apenas no gozo da vida, que permite à pessoa a realização na experiência do que é belo, na experiência da arte ou da natureza. Também há sentido naquela vida que como no campo de concentração dificilmente oferece uma chance de se realizar criativamente e em termos de experiência, mas que lhe reserva apenas uma possibilidade de configurar o sentido da existência, precisamente na atitude com que a pessoa se coloca face à restrição forçada de fora sobre seu ser.” [6]

As respostas que nos permitem encontrar seu sentido chegam através das ações, da conduta correta diante dos dilemas que nos são impostos. Viver significa, na visão de Frankl, arcar com a responsabilidade de responder digna e assertivamente a essas perguntas.

Conclui-se, então, que a liberdade humana não é uma liberdade absoluta, solta, “flutuante”; ela só existe dialeticamente, perante as formas concretas de destino. A relação dialética entre destino e liberdade é marcada pela atitude pessoal diante do imutável. Porém, é preciso cuidado, pois, a liberdade sem responsabilidade acaba por se descaracterizar e ficar igualmente sem sentido, assim como determinadas experiências da vida. A liberdade existe e, como tudo em nossa vida, precisa de um sentido. Ela é o ponto de partida para algo mais elevado, existe para que dela possamos abrir mão.

Assim, o sentido da liberdade é conferido pela consciência, nosso termômetro moral, que indica, dialeticamente, tanto o caminho a ser seguido como o castigo e a culpa resultantes de escolhas irresponsáveis quando não o seguimos. Liberdade sem responsabilidade e autodomínio pode ser um impeditivo da escolha consciente.

É verdade, devem ser garantidas a liberdade de opinião do autor e sua expressão, mas liberdade não é a última palavra, não é a história toda. Liberdade ameaça degenerar-se em arbitrariedade se não for contrabalanceada pela responsabilidade.” [7]

Para trilharmos, então, o caminho do sentido, de acordo com os ensinamentos de Frankl, precisamos acreditar que é possível escolher a maneira como se vai sofrer, mesmo que tudo seja limitado, e se esteja vivendo uma situação na qual todas as liberdades tenham sido retiradas ou privadas. Esse tipo de pensamento pode ajudar o indivíduo a posicionar-se acima da esfera da vitimização e das determinações instintivas ou ambientais, encontrar condições de abrir o caminho em busca de um sentido, reagir positivamente às mais variadas circunstâncias que a vida lhe impõe e, inclusive, encontrar sentido no sofrimento.

Que descobertas pessoais não serão feitas quando observada a norma que cada um deve colocar a própria história sob a perspectiva da busca de sentido nos acontecimentos inevitáveis de sua vida?” [8]

Talvez, e só talvez, nas palavras de Duarte (2020), a pausa imposta pela pandemia possa nos fazer pensar, cada um em seu interior, qual o sentido do que realizamos e desejamos a partir da suspensão do que vínhamos realizando e desejando. Pode ser que tenhamos nos deparado com o vazio de sentido em função de uma quarentena que nos fora imposta e, com isso, tenham surgido o desespero, o desemparo, a solidão e tantos outros sentimentos que possam ser despertados a partir da percepção de finitude da vida e das nossas limitações, do confronto com uma realidade bem diferente do nosso habitual modo de viver ou, ainda, de uma fissura em nosso ser que nos remeta ao vazio existencial. Ainda assim, é possível transformar toda essa angústia e sofrimento, essa experiência atípica, num encontro com o sentido. Afinal, como bem define Frankl, quando não podemos mudar a situação, resta mudarmos a nós mesmos.

E, por fim, será que depois de meses confinados, enfrentando nossos fantasmas, nossos dilemas, flertando com a finitude da vida e buscando sentindo no caos, vamos voltar diferentes e melhores para o mundo? Deveríamos, afinal, por mais difícil e dolorido que seja, é uma oportunidade de repensar a vida.

Referências

[1] MATOS, Geisa. O debate sobre a felicidade na sociedade líquido-moderna. Revista de Ciências Sociais v. 41 n. 1. Ceará, 2010. P. 159.

[2] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Ed. Sinodal, São Leopoldo. Ed. Vozes. Petrópolis, 2020. P. 132.

[3] FRANKL, Viktor. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Ed. Ideias&Letras. São Paulo, 2019. P. 19.

[4] FRANKL, Viktor. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Ed. Ideias&Letras. São Paulo, 2019. P. 50.

[5] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Ed. Sinodal, São Leopoldo. Ed. Vozes. Petrópolis, 2020. P. 87.

[6] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Ed. Sinodal, São Leopoldo. Ed. Vozes. Petrópolis, 2020. P. 89.

[7] FRANKL, Viktor. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Ed. Ideias&Letras. São Paulo, 2019. P. 95.

[8] FRANKL, Viktor. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Ed. Ideias&Letras. São Paulo, 2019. P. 82

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Imagem: archideaphoto/iStockPhoto(

Sobre o autor

Rosana Reimberg

Graduada em Psicologia e Pedagogia, com pós graduação em Psicopedagogia (Unisa) e em Gestão Pública para Supervisores de Ensino - lato sensu - (USP). Pesquisadora do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido", do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.